Em junho, enquanto dezenas de italianos protestavam nas ruas de Veneza contra o casamento de Jezz Bezos, bilionário fundador da Amazon, com a antiga jornalista Lauren Sanchez, em Madrid ou Paris assistia-se a outro tipo de revoltas. Todas tinham em comum o colapso do excesso de turismo na Europa.
Um pouco por todo o continente, os moradores locais estão a denunciar a forma como as cidades se têm transformado em autênticos “museus a céu aberto”, avança uma reportagem da CNN. Entre os vários exemplos dados sobre a gestão do turismo de massas está o caso português.
Porém, o exemplo de Estoril, na zona costeira de Lisboa, é dado como uma amostra de uma mudança positiva. Enquanto nos anos 70 a vila podia ser considerada um destino de turismo de massas, segundo a publicação, foi transformada, com sucesso, num destino de luxo pelas autoridades.
“É possível recuperar, mas leva tempo”, afirma Noel Josephides o presidente da Sunvil, uma operadora turística sediada no Reino Unido, citando o caso nacional. “É muito mais fácil para um destino controlar o seu crescimento do que recuperá-lo mais tarde.”
Os moradores de cidades como Lisboa ou Porto, contudo, têm protestado ativamente contra a ação do turismo no nosso País. Ainda no final de julho, uma crónica de uma nómada digital a viver em Lisboa, no jornal inglês “The Guardian”, tornou-se vital ao denunciar “o aumento da tensão” causado pela chegada de expats.
“Eu podia ter dito há 10 anos que isto acabaria por acontecer”, afirmou Josephides, sobre um cenário provocado pela rápida ascensão das companhias aéreas low cost, bem como os alugueres de curta duração. “E eu disse. Eu disse: ‘Isto vai ficar fora de controlo’.”
Sobre os protestos crescentes, acrescentou que “as populações locais estão certas”. “Está fora de controlo. Estou do lado dos manifestantes, mesmo que isso afete o meu negócio.”
“Sentes-te tu o estrangeiro”
Este retrato torna-se mais alarmante quando comparado à realidade da pandemia. “Lembro-me de caminhar pelas ruas muito próximas a Las Ramblas e ouvir o canto dos pássaros e os sinos das igrejas”, conta à CNN a professora Maite Domingo Alegre, a viver em Barcelona. “Nunca tinha percebido que os sinos tocavam. Mas agora já não consigo ouvi-los. O turismo trouxe tanto barulho que é inacreditável.”
Hoje, a cidade espanhola é uma das muitas que estão irreconhecíveis. Além das ruas lotadas, há efeitos colaterais como o aumento dos preços (em lojas de roupa, restaurantes ou minimercados) e a pressão para levar muitos habitantes para fora do centro da cidade onde vivem.
Os nómadas digitais, acrescenta Alegre, “não se misturam com os moradores locais. Não estão interessados na cultura catalã ou mesmo espanhola. Acham que é mais barato e têm boa comida e bebidas baratas, então a maioria dos bares e restaurantes também é pensada para eles.”
“Sempre tivemos turismo, e turismo de massas, mas nos últimos 10 a 15 anos isso mudou drasticamente”, defende. “Já não é sazonal, é 365 dias por ano. E já há mais turistas do que habitantes.”
Em Veneza, esta revolta é partilhada pelo músico Ornello, nome artístico de Alessio Centenaro. “Sou ciclista e aos domingos pego na minha bicicleta na Piazzale Roma [terminal rodoviário]. Saio e vou contra todos os turistas que chegam e sinto-me como um salmão a nadar contra a corrente. Às vezes, quando estás rodeado de turistas, com centenas à tua volta, sentes-te como se fosses tu o estrangeiro.”
Enquanto operador turístico, Noel Josephides tem estado atento, através da Sunvil, à forma como destinos se tornam sobrelotados. O primeiro alerta é sempre o mesmo: uma companhia aérea de baixo custo começa a operar nesse destino e, no ano seguinte, as concorrentes seguem o exemplo, contribuindo para a lotação.
É o que está a acontecer com a ilha grega de Samos que, segundo o porta-voz, passará por este ciclo. A Jet2 disponibilizou quatro voos: dois de Manchester, um de Birmingham e um de Stansted. Então, é só esperar para ver a Ryanair e a easyJet a chegarem”, adianta. “A natureza da ilha vai mudar, mas os governos locais não vão compreender o que vai acontecer até ser tarde demais.”
Várias autarquias já começaram a tomar medidas para reverter este ciclo. Em 2022, Maiorca, Espanha, limitou a chegada de navios de cruzeiro a três por dia, enquanto Palma proibiu apartamentos de aluguer de curta duração e Airbnbs em edifícios residenciais no centro da cidade e estabeleceu um limite de 12 mil camas de hotel.
“Temos de garantir que o turismo é uma indústria sustentável, não apenas do ponto de vista ambiental, mas também do ponto de vista social e económico”, defende o diretor de turismo da Visit Palma, Pedro Homar. “A nossa economia depende do turismo, por isso, ou garantimos a sustentabilidade física ou não teremos futuro.”







