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Há uma nova atividade no Barreiro que convida a remar em grupo numa canoa de 14 metros

A Mahina passou a operar de forma regular, com saídas fixas no Tejo três vezes por semana. Há aulas experimentais e regulares.

O Tejo sempre marcou a paisagem, mas raramente entrou na agenda de quem vive no Barreiro como espaço de uso regular. Isto começa a mudar com a chegada de uma canoa havaiana de 14 metros, feita para seis pessoas remarem em conjunto, que passou a operar de forma fixa a partir da cidade, com saídas marcadas três vezes por semana (terças, quintas e sábado).

Batizada Mahina, uma designação que significa “lua” nas línguas polinésias, remete para ciclos, orientação e ritmo. Não é um detalhe poético: no projeto Kahuna Va’a, cada canoa recebe um nome próprio, seguindo uma tradição antiga das ilhas do Pacífico. Kauany, Yemanjá, Maikekai e Mahina são as embarcações que dão corpo ao projeto. É com a Mahina que o Barreiro entra nesta história.

Antes de chegar ao Tejo, a canoa percorreu outro caminho. Veio do Brasil, onde foi construída, ganhou prática em Oeiras e Cascais. A passagem por essas margens ajudou a estruturar o serviço, testar horários, formar grupos e formatar o projeto que agora se expande para a margem sul. No Barreiro, ao contrário do que ocorre em Oeiras e Cascais, encontra um contexto diferente. O rio oferece uma condição rara na Área Metropolitana de Lisboa: estabilidade suficiente para transformar a canoa numa prática mais regular.

Aqui, raramente é preciso cancelar uma saída por falta de condições de maré ou meteorológicas. Rui Libório, 51 anos, sócio do projeto no Barreiro, sublinha essa diferença em relação a remar com o mesmo tipo de canoa no mar. A previsibilidade do Tejo faz com que a canoa deixe de ser exceção e passe a ser rotina.

Esta mudança tem impacto direto em quem se aproxima da modalidade. Não se trata de uma experiência isolada, nem de um programa de fim de semana. A canoa entra na semana de quem trabalha, de quem vive no Barreiro e de quem procura uma atividade física sem precisar reorganizar tudo à volta. “Em três meses que estamos aqui, apenas uma vez tivemos de cancelar a saída porque estávamos sem visibilidade. As condições que temos no Barreiro são bem mais estáveis”, explica Rui, da Federação Portuguesa de Remo.

Para quem observa da margem, a imagem pode enganar. Uma canoa longa, seis remadores em perfeita coordenação, ritmo constante. Parece um treino de atletas. Na prática, quem está dentro da canoa são participantes comuns, de diferentes idades e percursos, muitos deles sem qualquer experiência prévia em desportos náuticos. “Não há restrição de idade, nem necessidade de experiência para remar. A canoa é muito estável”, explica Rui.

Antes de entrar na água, são dadas instruções sobre segurança e técnica. O material é fornecido (remo e colete salva-vidas) e quem não tem experiência aprende a remar, remando. A técnica da canoa havaiana é simples na forma e exigente na execução. A estrutura tem um flutuador lateral, um segundo casco que garante estabilidade.

Projeto Kahuna Va’a já existe em Cascais e Oeiras

O projeto que sustenta esta prática chama-se Kahuna Va’a. A palavra Kahuna vem da cultura havaiana e significa “sábio”, numa referência direta ao conhecimento necessário para navegar em grupo, ler o mar e orientar uma embarcação em longas travessias.

A canoa havaiana esteve na base da colonização das ilhas polinésias há mais de 10 mil anos. Foram essas embarcações coletivas que permitiram atravessar grandes extensões de oceano e ocupar arquipélagos como o Havai, Taiti, Nova Zelândia e Ilha de Páscoa.

As primeiras canoas eram construídas com materiais naturais — pedras, ossos, corais, grandes troncos unidos — e baseavam-se na leitura do vento, das correntes e dos ciclos naturais. Navegar era um exercício coletivo. Esse princípio mantém-se.

Mariana Carvalho, 48 anos, e Max Interaminense, 53 anos, saíram do Brasil para implementar a Kahuna Va’a em Portugal. As canoas foram trazidas do Brasil e a escola abriu na Marina de Oeiras em 2020, expandindo-se depois para Cascais.

O início coincidiu com um período difícil. A pandemia limitava práticas coletivas e a modalidade era pouco conhecida. A adesão foi gradual. Primeiro, entre brasileiros residentes. Depois, entre portugueses interessados em experimentar algo diferente, mas estruturado. A comunidade formou-se aos poucos.

No Barreiro, o contexto é outro. A cidade tem vindo a atrair novos moradores e novos serviços ligados ao tempo livre e ao bem-estar. Cresce a procura por atividades que caibam na vida real, com horários claros e continuidade. Um desporto coletivo no rio, com dias fixos e possibilidade de prática ao longo de todo o ano, encaixa nesse momento.

A canoa havaiana no Barreiro funciona com vários formatos. Há aulas regulares, para quem quer integrar a prática na semana, e aulas experimentais, para quem prefere conhecer antes de assumir um compromisso. Existem ainda experiências pensadas para grupos e famílias, onde adultos e miúdos partilham a mesma canoa e o mesmo percurso.

 

 
 
 
 
 
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Os preços variam consoante o formato escolhido. A aula experimental custa €15, enquanto as aulas regulares funcionam em regime de mensalidade: €40 para uma vez por semana, €52 para duas vezes por semana e €63 para três vezes por semana.

Para grupos específicos, há a possibilidade de organizar remadas em datas e condições a combinar, com valores ajustados às datas e ao número de participantes. No Barreiro, existe uma canoa em operação, mas, sempre que necessário, é possível trazer uma segunda canoa para a margem sul.

A prática mantém-se durante o inverno. Segundo Mariana, há uma quebra na procura neste período, mas a atividade continua durante todo o ano. Com roupa térmica e corta-vento, o frio não impede a atividade. O esforço físico aquece rapidamente o corpo e a estabilidade do Tejo permite manter a canoa em funcionamento ao longo do ano. “É mesmo um período mais complicado do ano, mas temos alunos em todas as bases que continuam na atividade durante todo o ano”, explica.

A canoa sai às terças e quintas às 7 horas, e aos sábados há possibilidade de agendamento para as 7 horas, 8h30 e 10 horas. É necessário agendamento prévio pelo site ou pelo telemóvel +351 962 858 451 e +351 917 609 401.

Cada remada dura cerca de uma hora e nem sempre ocorre no mesmo trajeto, “dependendo da maré, ou ficamos na área próxima ao Polis ou na área da praia”, explica Rui. No Barreiro, a Mahina não chega como curiosidade exótica. Começa a fazer parte da paisagem. O Tejo deixa de ser apenas cenário. Passa a ser espaço vivido.

Carrega na galeria e veja imagens da atividade no Barreiro:

 

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