Durante 27 anos, foi uma espécie de disco rígido da cidade. Um local onde o zumbido constante das fotocopiadoras era a banda sonora de milhares de vidas em transição. A Barribrinca, a casa de cópias mais antiga do Barreiro, está a preparar-se para virar a última página do seu capítulo histórico.
O prédio está à venda, forçando uma mudança que é muito mais do que logística. A partir de 8 de Dezembro, o emblemático estabelecimento reabre portas a 50 metros de distância, no centro comercial em frente ao mercado municipal, num ato de resiliência que espelha a sua própria história.
A mudança, explica a proprietária Maria do Céu, de 64 anos, não foi uma opção, mas uma consequência de um ciclo de vida que se fechou. “Sou arrendatária. A senhoria faleceu, o imóvel foi herdado e será vendido. Numa altura destas não houve grande alternativa à saída”, relata, com uma serenidade que esconde o peso de desenraizar um marco da cidade.
“Negociei a minha saída e pronto. Vamos para uma loja no centro comercial. Em vez de ir para casa, trabalho mais uns anos. Isto faz parte do Barreiro, não queria que terminasse.”
A escolha do novo espaço foi um movimento estratégico vital. “Foi por proximidade. Se tivesse de ir para mais longe, já não ia”, confessa. A opção por se manter no mesmo eixo é um testemunho da importância da rede do “boca a boca” que sustenta o negócio. A transição implicará ajustes. O horário será alargado, das 9 horas às 19h30, e o novo espaço, embora mais compacto, será “suficiente para pôr as máquinas”.
A proprietária da casa de cópias garante que os preços se vão manter inalterados. Impressões a preto e branco a 0,35€, a cores a 0,80€, encadernações de metal entre 7,50€ e 9,50€, dependendo da capa transparente ou opaca. Já as digitalizações custam 1€ pela primeira página, 0,40€ pelas seguintes.
Confiança como moeda de troca
Maria do Céu também continua. Uns metros mais à frente, ou mais atrás, dependendo do sentido em que se percorre a Rua Eça de Queirós, a Barribrinca continua aberta. Muda é de casa. As reações, descreve, são de desalento inicial — “Ai, vai deixar a loja?” —, rapidamente dissipado pela explicação que se segue.
Em plena era digital, a sobrevivência de um negócio como a Barribrinca é um caso de estudo. O seu segredo, desvenda Maria do Céu, nunca residiu na tecnologia, mas na confiança absoluta. “Os clientes são como se fossem da família”, partilha. “Desde que andam na escola até se formarem e serem adultos.”
Ao longo de quase três décadas, Maria do Céu tornou-se numa espécie de cofre-forte das mil e uma vidas que lhe passaram, literalmente, pelas mãos. Foi testemunha dos marcos mais significativos dos seus concidadãos: o primeiro trabalho escolar, a sebenta que valia uma licenciatura, o currículo de um novo emprego, a certidão de um casamento, o documento que atestava uma perda.
Cidade em transição
A história da Barribrinca não se desenrola num vácuo. Desenrola-se num Barreiro em profunda e rápida transformação. A venda do prédio que a alberga é um microcosmo de uma tendência que se vê nas novas construções e nas reabilitações que tomaram conta do horizonte da cidade, com guindastes, escavadoras, desvios e contentores de obra um pouco por toda a cidade.
De acordo com dados do mercado imobiliário, citados pelo Idealista, o preço médio do metro quadrado no Barreiro disparou de cerca de 761 euros, em dezembro de 2015, para os atuais 2.658 euros, refletindo uma valorização superior a 250 por cento em dez anos.
Este salto, particularmente acentuado nos últimos dois anos, ilustra a pressão que se abate sobre o tecido comercial e social histórico da cidade. Esta mudança forçada é, assim, um símbolo dos tempos. Onde antes existia a estabilidade de uma renda controlada, impera a lógica do mercado.
Ajuste de contas com a nova realidade económica da cidade, a mudança da Barribrinca é reflexo do Barreiro que se constrói a um ritmo acelerado. Para já, o futuro do antigo edifício permanece uma incógnita. Para Maria do Céu, por outro lado, o foco está no recomeço. A 8 de dezembro, quando a porta da velha Barribrinca se fechar, não será um adeus. Será uma mudança de coordenadas no mapa da cidade. A guardiã das memórias do Barreiro atravessará a rua, levando consigo o arquivo vivo de histórias que é o verdadeiro legado do seu ofício.

LET'S ROCK







