Do túnel que liga a Miguel Bombarda ao centro até à bomba da BP da Avenida Escola dos Fuzileiros Navais, os 2,5 quilómetros que antes se percorriam em cerca de seis minutos passaram a durar, pelo menos, 15. Esta diferença instalou-se no quotidiano como um relógio. A fila é parte do preço imediato da metamorfose urbana que atua, em simultâneo, em três frentes das freguesias do Barreiro e Lavradio, Alto do Seixalinho, Santo André e Verderena.
Esta segunda-feira, 24 de novembro, começou com a notícia do corte no abastecimento de água, entre as 9h30 e as 11h30, a propósito da instalação da ciclovia na Avenida do Bocage. A informação municipal indica que, para esclarecimentos, se deve contactar a Divisão de Obras Municipais, Estudos, Empreitadas e Energia (DOMEEE), através do número 212 068 262. Só que o caminho não termina ali. “Sem qualquer competência no que respeita a corte de água”, o contacto conduz ao call center do Departamento de Águas, Higiene Urbana e Atividades Reguladas.
Sobre o corte que, esta manhã, afetou “os edifícios das Avenidas Dom Afonso Henriques e Bocage, bem como nas Ruas Piloto Nascimento Costa, Júlio Dinis, D. João IV, Poeta Sebastião da Gama, Professor Joaquim Vicente França e 1º de Dezembro”, a Divisão municipal assegurou que, “como previsto, a água já foi reposta.” Sobre indicações úteis para o dia a dia de quem habita com obras à porta, ambas as divisões recomendaram aos cidadãos a consulta da informação municipal publicada na página da Câmara Municipal.
Só em novembro, contabilizam-se sete avisos de interrupção de abastecimento. Quatro a propósito da “Requalificação dos Arruamentos da zona envolvente da Santinha, Alto Seixalinho”, um na Avenida do Bocage, a propósito da requalificação rodoviária, com a introdução de uma ciclovia, outro nos Fidalguinhos e outro no Lavradio e Bairro das Palmeiras. Todos terminam com a informação: “para mais informações contacte a DOMEEEDivisão de Obras Municipais, Estudos, Empreitadas e Energia…, através do telefone: 212 068 262.”
Alto Seixalinho, Bocage, Santo André e Verderena: Barreiro em metamorfose
Origem do maior número de cortes de abastecimento, no Alto do Seixalinho decorre a intervenção que se prevê mais longa, no conjunto das três grandes obras em curso. Sob o título oficial de “Ampliação da Requalificação dos Arruamentos da zona envolvente da Santinha”, desenrola-se um processo que já vai em meses e se desdobra em fases sucessivas.
Tudo começou em julho, com o “corte total do trânsito rodoviário na Rua Bartolomeu Dias e Rua Voz Operário, por um período previsível de 75 dias úteis”. O projeto, segundo a autarquia, “consiste em redefinir e melhorar as zonas de circulação automóvel, bem como as áreas pedonais”.
Desde então, o braço da obra não parou de se estender. Em outubro, foi a vez de a Rua São João de Deus e a Rua Dr. Manuel Pacheco Nobre ficarem “cortada ao público”, também por 30 dias. E a cada nova fase, sucedem-se os avisos de interrupção de água, justificados pela “ligação de novas condutas”. Os moradores tornaram-se veteranos deste processo. Labirinto de vedações e acessos condicionados, o Alto do Seixalinho voltou a fazer-se pelas ruas de dentro.
A poucos quilómetros dali, na Avenida do Bocage, avança uma outra transformação, igualmente ambiciosa mas com uma dupla face. Por um lado, a “requalificação rodoviária” que levou à “interdição parcial da circulação” num troço crucial. Por outro, avança a “construção de um percurso ciclável”, um projeto financiado em mais de 100 mil euros por fundos europeus, destinado a ser uma peça-chave na rede de mobilidade da cidade.
O impacto é duplo. Além dos cortes de trânsito, os residentes lidam com interrupções no abastecimento de água, como a que ocorreu a 24 de novembro, que afetou várias moradias nas Avenidas Bocage, Dom Afonso Henriques e em seis ruas adjacentes. A pergunta ‘quando regressamos ao ritmo normal?’ perde-se, muitas vezes, na justificação da complexidade de uma obra que mexe com a estrutura vital da cidade.
Sem Natal na Rua Miguel Bombarda
Mais a sul, no coração do Barreiro, a Rua Miguel Bombarda vive um dos períodos mais duros da sua rotina recente. A obra que arrancou a 10 de fevereiro colocou o principal eixo cívico e comercial da cidade num isolamento forçado.
O fluxo desapareceu atrás das vedações e o comércio perdeu movimento. Este ano, não há Natal na Miguel Bombarda. Em vez das luzes e da música, moradores e comerciantes ficam-se pelo cenário das máquinas e acessos limitados. “Quando tivermos condições de segurança voltamos a abrir as escadas”, disse-nos um dos empreiteiros da obra sobre os acessos vedados entre a rua da Câmara Municipal, a Rua da Cadeia e a José Elias Garcia.
Sobre a obra, a autarquia explica que a intervenção acontece “no âmbito da requalificação urbana do Barreiro velho”. Descreve que, além do que será visível à superfície, existe uma “grande componente ao nível do subsolo”, que inclui a substituição da rede de abastecimento de água, da drenagem de águas residuais domésticas e pluviais, das infraestruturas elétricas, de iluminação pública, telecomunicações e gás natural.
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No horizonte, a visão final é definida com nitidez. Concluída a intervenção, estimada inicialmente em seis meses, a Rua Miguel Bombarda “passará a ser de sentido único Túnel – Avenida Alfredo da Silva” e, ao fim de semana, “será apenas pedonal e terá diversas animações” com o objetivo declarado de “estimular o comércio local tradicional”, separado pelos primeiros prédios da Stara Zagora, do agora Barra Shopping.
O futuro está desenhado e tem ambição. No presente, a rua que sempre foi vitrina do centro vive dias marcados por desvio, poeira e ausência de movimento. No seu conjunto, estas três frentes de obra desenham o mapa para modernizar infraestruturas, promover a mobilidade suave e requalificar o espaço público.
O Barreiro do futuro, prometido nas páginas oficiais, é o de uma cidade mais funcional, verde e caminhável.

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