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Todos os domingos, esta professora de dança africana une o Barreiro no Parque da Cidade

Neusa Santiago conduz uma aula gratuita ao ar livre que junta ritmos africanos e histórias de vida diferentes.

Há pessoas que passam a vida a aprender a juntar coisas que, à partida, não foram feitas para se encontrar. Neusa Santiago é uma dessas pessoas. A vida ensinou-lhe cedo que a mistura não é uma opção estética, é condição. Cresceu entre lugares que raramente cabem numa frase simples: uma infância deslocada, uma adolescência atravessada por diferenças — por isso rica —, um corpo que teve de aprender a adaptar-se antes de se afirmar. O que hoje aparece como alegria distribuída em forma de dança começou como dom silencioso. Transformar isso em movimento foi um gesto aprendido no dia-a-dia.

Quando Neusa dança, mantém o mundo habitável. O corpo surge como território possível, um lugar onde as histórias se acomodam sem se anularem. A música vem de muitos sítios porque a vida dela também veio. Há ritmos que trazem memória, outros que carregam resistência, outros ainda que empurram o corpo para a frente quando a cabeça hesita. A dança alcança o que as palavras raramente conseguem: cria entendimento sem exigir acordo. “Dançar liberta e une”, analisa.

Aos 49 anos, nasceu em São Tomé e Príncipe e chegou a Portugal com cinco anos. Os pais eram filhos de portugueses nunca reconhecidos como tal, e essa história de pertenças incompletas atravessou a família de forma discreta, mas persistente. Cresceu primeiro numa aldeia em Viseu, longe de qualquer discurso estruturado sobre diversidade, e mais tarde em Odivelas, onde a escola e a rua lhe apresentaram uma convivência multicultural intensa.

A dança entrou cedo na sua vida, incentivada por professores que perceberam naquele corpo uma atenção particular ao ritmo e ao espaço. Não surgiu como projeto de carreira, mas como linguagem possível. Desde 2006 vive na Margem Sul, território onde consolidou o trabalho que hoje desenvolve. A mãe regressou a São Tomé e Príncipe há dois anos, o pai continua a sonhar com o regresso. Um irmão foi pra Austrália, outro pra Inglaterra e um terceiro vive em Portugal. Neusa já viveu no Canadá, mas voltou a Portugal e fez dessa permanência um gesto ativo.

É nesse ponto que o gesto pessoal se cruza com o espaço público. Todos os domingos de manhã, no Parque da Cidade do Barreiro, pessoas de idades e percursos muito diferentes juntam-se a Neusa para uma aula de dança gratuita, integrada num projeto municipal Danç@Barreiro criado e mantido pela Câmara Municipal desde 2000.

O encontro acontece ao ar livre, sempre no mesmo horário — das 10 horas às 11 horas, com uma regularidade que lhe dá espessura. As pessoas chegam sozinhas ou acompanhadas, por curiosidade ou por hábito. Algumas regressam todas as semanas, outras aparecem uma vez e guardam o corpo dessa memória. Desde 2024, é Neusa quem conduz esse momento, levando para o parque o trabalho que desenvolveu ao longo da vida — uma fusão de ritmos dos países africanos de língua oficial portuguesa, que funciona como linguagem comum, mais do que como referência identitária. “Só há uma regra no nosso grupo: querer participar. Tudo é adaptado e sem cobranças”, explica a professora de dança.

Aula de dança africana aberta a todos transforma o parque num ponto de encontro regular.

O Barreiro é um lugar atento a este tipo de gesto. Cidade de chegadas sucessivas, de trabalho duro, de vidas montadas com o que havia à mão. A mistura faz parte do quotidiano: nas famílias, nas escolas, nos bairros, nas rotinas. Quando um grupo de pessoas se junta para dançar num espaço público, o que acontece é uma prática concreta de convivência. Corpos diferentes aprendem a ocupar o mesmo ritmo, sem se anularem. Cada um traz o que tem e fica com o que consegue. “Aqui, sinto muito interesse pela dança. Mesmo quando faz mais frio, há sempre muitos participantes aos domingos”, explica Neusa.

A aula acolhe todas as idades e condições físicas. O movimento ajusta-se a quem chega, e não o contrário. Há quem dance com segurança e quem comece devagar. Há quem reconheça os ritmos e quem os descubra ali. Todas essas presenças cabem no mesmo tempo e no mesmo espaço, sem hierarquias. “Não há limites de idade. Tenho alunos com mais de 80 anos e dançam todos os domingos. Há portugueses, angolanos, brasileiros, é muito multicultural”.

Neusa carrega outras camadas que raramente aparecem quando se fala de cultura. A maternidade entrou na sua vida como intensificação. Um filho autista, que aprende o mundo a outro ritmo, ensinou-lhe algo essencial: os corpos respondem de formas diferentes, encontram lugar em tempos distintos e avançam a velocidades próprias.

Neusa também usa a dança para interagir com grupos de mães que têm a mesma condição. Essa aprendizagem não ficou confinada à vida privada, espalhou-se pela dança. A forma como observa, como espera, como ajusta o movimento ao grupo nasce dessa experiência. A inclusão, no trabalho e na vida de Neusa, foi transformada em técnica, escuta e atenção prolongada. “Esta condição do meu filho me fez entender muitos processos que trago para a orientação nas aulas: adaptar o trabalho a quem participa dele”.

A música que acompanha estas manhãs no Parque da Cidade segue a mesma lógica de cruzamento. A playlist mistura ritmos africanos, influências urbanas, sons tradicionais e criações contemporâneas. Desenha um território aberto, não um percurso fechado. Assim, cada pessoa pode reconhecer algo seu enquanto aprende a dançar com os outros. A escolha musical funciona como ponto de encontro, colocando culturas em diálogo.

Dança Barreiro
Domingo de manhã no Parque da Cidade do Barreiro: pessoas de diferentes idades e origens juntam-se para dançar ao ar livre.

Fora do parque, o trabalho de Neusa continua a expandir-se. É coreógrafa de um abre-alas de escola de samba, de Alhos Vedros, dá aulas em várias academias no Barreiro, Montijo, Pinhal Novo e Fernão Ferro, criou o projeto African Dance Roots, onde se dedica a formar outras pessoas interessadas em aprender esta mesma mistura para a levar a diferentes contextos.

Desde 2019, já formou mais de 60 pessoas no projeto que mistura os ritmos e sons dos países africanos de língua portuguesa. Semanalmente, trabalha com mais de 100 alunos. O que se constrói não é uma rede formal, mas um círculo vivo: pessoas de origens e culturas diferentes, complementares, unidas pelo movimento e pelo ritmo, a replicar uma prática que junta em vez de separar.

Neusa distribui possibilidade. Aquilo que a vida lhe obrigou a misturar — origem, deslocação, cuidado, resistência — regressa ao mundo em forma de movimento partilhado. A dança deixa de ser apenas expressão individual e transforma-se em bem comum. Não resolve as tensões do mundo, mas cria um intervalo onde elas perdem força.

E talvez seja isso que torna este gesto tão raro e tão necessário: num espaço público no Barreiro, em tempo regular, a cidade encontra-se consigo própria. Em movimento.

 
 
 
 
 
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