De manhã, entra no mar com uma prancha. À tarde, troca-a por outra. No dia seguinte, volta a experimentar um modelo diferente. Tudo sem gastar mais um euro nem ter de decidir qual levar na mala. É assim que começam os dias de quem embarca na próxima viagem da Underdogz Explore às Maldivas, onde o surf ocupa o centro da experiência, mas está longe de ser a única razão para atravessar meio mundo.
A experiência resume bem o percurso da empresa criada por Ricardo Seruca, de 45 anos, no Barreiro. Antes de organizar grupos para atravessar oceanos, a Underdogz nasceu como marca de pranchas de surf. As viagens chegaram mais tarde, na primavera de 2025, e acabaram por se tornar o centro do projeto. A primeira realizou-se este ano nas Maldivas, com dez participantes, e abriu caminho para um calendário que já inclui o regresso ao arquipélago, duas datas no Brasil e novos destinos em preparação.
Ricardo Seruca descobriu o surf aos 27 anos, depois de uma adolescência e do início da vida adulta passados entre bicicletas e competição. A entrada tardia na modalidade despertou uma curiosidade que ia muito além de conseguir ficar de pé numa prancha. Queria perceber por que razão cada modelo reagia de forma diferente, que equipamento podia ajudá-lo a evoluir e como seria apanhar ondas longe das praias portuguesas. Hoje, essa vontade transformou-se numa empresa do Barreiro que organiza viagens de grupo para destinos como as Maldivas e o Brasil.
A Underdogz começou pelas pranchas, fabricadas inicialmente numa pequena garagem arrendada. Ricardo fazia-as para si e para alguns amigos, até os pedidos começarem a chegar através de outros surfistas. Mais tarde, a produção passou por fábricas da Costa da Caparica e está atualmente concentrada na Ericeira, onde profissionais especializados asseguram etapas como a laminação e a lixagem. A marca cresceu em torno da relação muito particular entre quem entra no mar e a prancha que leva debaixo do braço.
“No surf, a relação entre o praticante e a prancha é muito forte, porque é aquilo que nos liga ao oceano e nos permite andar nas ondas. As pranchas adaptam-se às pessoas, aos dias, ao tamanho do mar e às condições. Existe sempre esta ideia das pranchas mágicas e da procura daquela que funciona melhor connosco”, explica Ricardo.
Durante anos, o projeto viveu sobretudo do fabrico personalizado. Cada conversa com um cliente começava pelo peso, altura e nível de surf, mas rapidamente passava para perguntas menos óbvias: em que praias costuma entrar, que tipo de ondas apanha, como se movimenta no mar e o que espera melhorar. Ao mesmo tempo, Ricardo alimentava outra paixão, as viagens, reforçada por uma experiência profissional anterior, quando acompanhava grupos de clientes de uma empresa ligada aos eletrodomésticos em deslocações de incentivo e visitas a feiras.
Na primavera de 2025, decidiu juntar as duas áreas. A Underdogz Explore passou a organizar viagens de grupo dedicadas ao surf, com programas próprios e parcerias com professores, treinadores e outros profissionais da modalidade. Ricardo deixou a atividade que mantinha em paralelo e passou a dedicar-se por completo à agência e às pranchas, agora reunidas no mesmo projeto.
“Sempre gostei de viajar e tive a sorte de começar bastante novo. Quando passei a dedicar mais tempo ao surf, aquilo que mais me atraía era juntar as duas coisas: conhecer ondas novas e sítios diferentes, mas também descobrir culturas, pessoas e praias mais escondidas. Para muita gente que surfa, essa combinação é uma grande motivação”, conta.
A primeira viagem organizada pela empresa aconteceu entre o final de abril e o início de maio, nas Maldivas. O grupo, composto por dez pessoas, passou 11 dias entre sessões de surf, deslocações de barco e a vida numa ilha habitada. A experiência serviu para testar o formato imaginado por Ricardo: grupos pequenos, acompanhamento próximo e dias construídos em função das condições do mar, sem abdicar do contacto com o destino.
O alojamento fica em Himmafushi, uma pequena ilha do Atol Kaafu, onde a pesca, a construção dos barcos tradicionais e a rotina da população continuam bem presentes. A escolha traduz a filosofia da Underdogz Explore. Os grupos ficam em alojamentos confortáveis, mas próximos da vida local, e passam boa parte do tempo fora deles. A piscina do resort dá lugar a barcos, praias, mercados, trilhos, bairros e refeições partilhadas.

“Procuramos viagens mais dinâmicas, com aventura, atividade e uma componente cultural. Gostamos de ficar em alojamentos próximos das populações e de conhecer o sítio e as pessoas. O projeto foi pensado para quem quer descobrir, em vez de passar os dias dentro de um resort”, afirma.
O formato também difere do de uma agência tradicional. A Underdogz Explore apresenta partidas com datas, grupos e conceitos definidos, em vez de organizar férias individuais à medida de cada cliente. Quem se inscreve integra uma pequena comunidade que começa a formar-se antes do voo e continua durante toda a viagem. Muitos participantes chegam sozinhos, conhecem os restantes elementos através do grupo criado pela organização e partilham quarto com alguém de perfil semelhante.
Ricardo quer ainda reunir profissionais que já levam alunos e clientes para surfar fora de Portugal. Professores, escolas, lojas e treinadores costumam organizar estas viagens de forma autónoma, assumindo reservas, contactos e responsabilidades que exigem tempo e estrutura. A Underdogz Explore, registada como agência de viagens, pretende funcionar como base comum para esses projetos.
“Há muita gente ligada ao surf a organizar viagens individualmente: um professor com o seu grupo, uma escola com os alunos, um treinador que faz videoanálise ou uma loja que junta clientes. A minha ideia é trazer essas pessoas para uma estrutura comum, capaz de tratar da organização de forma profissional e de criar melhores condições para todos”, explica.
Foi assim na primeira ida às Maldivas e voltará a acontecer entre 1 e 10 de outubro. Ricardo divide a liderança desta viagem com Lucas Bez, do Tainha Surf Project, responsável pelo acompanhamento técnico do grupo. Durante os dez dias, os participantes recebem indicações dentro de água, veem as sessões gravadas e analisam aspetos como o posicionamento, o momento de entrada na onda e a leitura do mar. O surf continua a ser o motivo principal da viagem, acompanhado por uma equipa que ajuda cada participante a evoluir.
A ligação às pranchas regressa através da Underdogz Board Experience. Ricardo leva três ou quatro modelos para o grupo experimentar durante a estadia, uma possibilidade especialmente adequada às Maldivas, onde as ondas são longas e o transporte do equipamento é mais simples. Na primeira viagem, as pranchas passaram de mão em mão e permitiram comparar diferentes formatos sem depender de uma compra feita às cegas.
“Levei quatro pranchas para as pessoas poderem experimentar à vontade e vou repetir a experiência na próxima viagem, especialmente nas viagens com facilidade de inclusão de pranchas nos voos. As Maldivas têm ondas longas e perfeitas, que ajudam a perceber bem as diferenças entre os modelos. É também um destino onde conseguimos transportar as pranchas com maior facilidade”, refere.
O pacote de outubro custa 1690€ e inclui nove noites de alojamento, quatro refeições por dia, transferes entre o aeroporto e Himmafushi, saídas de barco para as ondas, acompanhamento local, surf coaching, análise de vídeo, pranchas para teste, equipamento de snorkeling, sessões de mobilidade e seguro de viagem com cobertura para surf. O voo não está incluído e é adquirido por cada participante depois de a viagem atingir o número mínimo de inscrições.
A programação no Brasil abre espaço para quem gosta da ideia da viagem, mas prefere ficar em terra enquanto o resto do grupo entra no mar. A partida está marcada para março de 2027, com passagem por Florianópolis e Praia do Rosa. O preço é de 1290€ para surfistas e de 1100€ para os restantes participantes.
O programa inclui praias, trilhos, uma remada de canoa havaiana ao amanhecer, uma roda de samba e uma passagem pela Surfland, a piscina de ondas instalada em Santa Catarina. Há ainda uma aula para iniciantes, pensada para quem nunca experimentou surf. O alojamento, os pequenos-almoços, os transferes locais, as atividades e algumas refeições fazem parte do pacote. Os voos e vários almoços e jantares ficam a cargo dos viajantes.
Ricardo conheceu esta região do Brasil no ano passado e encontrou uma combinação próxima daquilo que procura para a empresa: praias com perfis diferentes, natureza, cultura local, gastronomia, música e atividades capazes de reunir surfistas e acompanhantes.
“Nunca tinha surfado no Brasil e adorei Santa Catarina. A Praia do Rosa e as praias de Florianópolis são lugares muito interessantes, com boas ondas e muitas coisas para fazer fora do mar. Foi um destino que fez logo sentido trazer para o projeto”, recorda.
Sri Lanka, Costa Rica e novas edições das Maldivas estão entre as viagens previstas para 2027. Algumas regressarão todos os anos, enquanto outras poderão ter apenas uma edição, consoante o interesse dos grupos. A empresa prepara também experiências ligadas a outras atividades, embora o surf continue a definir a sua identidade, as parcerias e a forma como Ricardo escolhe cada destino.
Há ainda uma lista pessoal de lugares onde gostaria de entrar no mar pela primeira vez. Havai, Nicarágua, Fiji, Taiti, Austrália e Califórnia surgem rapidamente na conversa, seguidos pela África do Sul, onde as ondas despertam curiosidade e os tubarões introduzem alguma hesitação.
“O que não me falta são destinos para conhecer e surfar. Espero conseguir chegar a muitos deles e levar outras pessoas comigo”, diz Ricardo.
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