O jogo ainda nem começou e já há um motivo extra para torcer por Cabo Verde no Barreiro. Esta sexta-feira, 3 de julho, a seleção cabo-verdiana defronta a Argentina nos 16 avos de final do Mundial 2026, em Miami, e o Cachupa Brr vai abrir portas para receber quem quiser viver a partida com comida e cerveja. A promessa foi feita por Estevão Gomes: por cada golo de Cabo Verde no tempo regulamentar, sai uma ronda de cerveja e um pastel de milho para os clientes que estiverem no restaurante. Os penáltis, caso existam, ficam fora da brincadeira.
O desafio não podia ser maior. De um lado está Cabo Verde, estreante no Mundial e já uma das histórias mais improváveis da competição. Do outro, a Argentina, campeã do mundo em título, com Lionel Messi no centro de uma equipa habituada a carregar favoritismo. O jogo está marcado para as 23 horas em Portugal continental, uma hora que transforma qualquer restaurante aberto num ponto de encontro para resistentes, emigrantes, curiosos e adeptos que já perceberam que esta seleção deixou de ser apenas uma surpresa africana.
No Cachupa Brr, a noite não terá música ao vivo antes do jogo. Estevão pensou no ambiente, nos vizinhos e no barulho inevitável que o futebol já traz. “Vamos fazer o barulho do futebol”, diz, entre o entusiasmo e o cuidado de quem conhece bem o prédio onde trabalha. A festa ficará guardada para os lances, os remates, as defesas e, se tudo correr como os cabo-verdianos querem, para os golos.
A escolha do pastel não é aleatória. No restaurante da Rua Almirante Reis, 22 B, no Barreiro, este é um dos petiscos tradicionais da carta e um dos sabores que acompanham a cachupa, o grogue, o ponche e a comida cabo-verdiana que Estevão e Filomena servem há sete anos.
O percurso de Cabo Verde até aqui já bastaria para encher a sala. A seleção passou a fase de grupos depois de enfrentar Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, três jogos que colocaram o país no mapa de quem talvez nunca tivesse visto a equipa jogar. Para Estevão, o simples facto de chegar a esta fase já tem dimensão de vitória. Cabo Verde tem pouco mais de meio milhão de habitantes, uma diáspora espalhada pelo mundo e, agora, um jogo contra uma das maiores seleções da história.
“Estamos a jogar contra uma grande equipa”, resume. O dono do Cachupa Brr sabe bem a diferença de escala entre os dois países, mas também sente o que mudou nas últimas semanas. Há portugueses a torcer, cabo-verdianos a aparecer, mensagens a chegar e uma simpatia internacional que foi crescendo jogo a jogo. “Para já, já é uma vitória”, diz, sem esconder a confiança de quem também ouviu muitos adeptos repetir que Cabo Verde pode ganhar.
O restaurante já tinha sido ponto de encontro nos jogos anteriores da seleção. Na estreia frente a Espanha, cabo-verdianos e portugueses sofreram juntos. Contra o Uruguai e a Arábia Saudita, a casa voltou a funcionar como sala de estar da comunidade, com a cachupa a servir de âncora para quem queria ver o Mundial sem ficar sozinho no sofá. Desta vez, a Argentina muda o tamanho da noite.
A cachupa continua a ser o prato central da casa. Filomena comanda a cozinha e prepara a base que depois pode ganhar diferentes caminhos, com versões tradicionais ou sugestões com bacalhau, camarão, carne de vaca ou peixe. A dose ronda os 10€. Para petiscar, há pastel de milho por 1,5€. A cerveja média custa 1,9€, o grogue sai a 2,5€ e o ponche aparece como alternativa mais doce para quem prefere ficar longe do destilado de cana.
Estevão nasceu em Cabo Verde, em 1959, e deixou o país em 1984. Viveu no Senegal, Espanha, Portugal e Reino Unido, antes de se fixar no Barreiro, cidade onde já tinha ligação desde os anos 90. O restaurante nasceu como casa de comida e encontro, mas o Mundial deu-lhe outra função: nos dias de jogo, o Cachupa Brr tornou-se uma embaixada emocional, com pratos na mesa, camisolas, nervos e a certeza de que nenhuma seleção pequena continua pequena depois de obrigar o mundo a falar dela.
Na sexta-feira à noite, a conta será simples. Se Cabo Verde marcar, o restaurante celebra. Se marcar duas vezes, a festa repete-se. Se não marcar, ficam a cachupa, os pastéis, a cerveja e uma comunidade reunida para ver a seleção que já fez história antes de a bola começar a rolar contra a Argentina.







