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Natureza, memória e ruína: quatro exposições (à borla) para visitar no início do ano

Os trabalhos cruzam ciência, autobiografia, território industrial e fotografia no Auditório Municipal Augusto Cabrita.

O Auditório Municipal Augusto Cabrita abre o ano a partir de uma pergunta simples e difícil ao mesmo tempo: como olhamos o mundo quando o observamos de perto, quando o lembramos, quando o vemos a ruir e quando tentamos perceber o lugar que ocupamos nele. A resposta chega sob a forma de quatro exposições de artes visuais que cruzam ciência, autobiografia, território industrial e fotografia, propondo diferentes formas de pensar o presente.

Numa das propostas, o desenho afasta-se do lirismo e aproxima-se do método. “Cem Peixes”, de Pedro Salgado, parte da ilustração científica e naturalista para propor um olhar rigoroso sobre o mundo vivo. Aqui, o traço é instrumento de observação e conhecimento, feito de detalhe, precisão e tempo. É uma exposição que exige pausa e atenção, contrariando a rapidez com que normalmente se consomem as imagens.

Noutro piso, o olhar vira-se para dentro. “Oleandras”, exposição de ilustração de Ana Biscaia, Liliana Lourenço, Paula Delcave e Rachel Caiano, trabalha a partir da autobiografia e da autofição. As obras funcionam como fragmentos de um diário visual, onde texto e imagem se cruzam para falar de memória, identidade e escrita íntima. Aqui, desenhar é um gesto de narração pessoal, feito de camadas, silêncios e reconhecimento.

A terceira proposta, de Ticiano Rottenstein entra diretamente na matéria do mundo contemporâneo. “Escombros Ecoantes” constrói-se a partir de refúgios industriais reciclados da Margem Sul, propondo uma imersão poética no processo de arruinamento. A exposição olha para estruturas gastas, paisagens industriais em transformação e vestígios de um modelo produtivo que deixou marcas profundas no território, transformando restos e desgaste em linguagem artística.

A este conjunto junta-se ainda “Entre Nós, Estamos Todos”, uma exposição de Luis Mileu, que parte da fotografia para pensar a comunidade, proximidade e presença. As imagens propõem um olhar atento sobre o outro e sobre o espaço partilhado, reforçando a ideia de que o mundo também se constrói a partir das relações, dos encontros e da forma como nos vemos uns aos outros.

As quatro exposições abrem em simultâneo a 31 de janeiro, no Auditório Municipal Augusto Cabrita. “Sem Peixes”, “Oleandras”, “Entre Nós, Estamos Todos” e “Escombros Ecoantes” ficam patentes até 22 de março. Um arranque de ano pensado para ser visto com tempo — e um bom motivo para marcar já na agenda e regressar mais do que uma vez para percorrer quatro formas distintas de pensar o presente através das artes visuais.

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