Aos 60, 70 ou 80 anos, alguém pode começar a aprender italiano, descobrir como funciona a Inteligência Artificial, entrar numa aula de Krav Maga, pegar num pincel pela primeira vez, estudar fotografia, cantar numa tuna ou percorrer a pé o caminho entre o paredão, a praia e os passadiços. A vida muda depois de certa idade, mas a curiosidade está longe de ter uma data de reforma para os chamados seniores.
É sobre essa parte da vida que o Barreiro decidiu construir um mês inteiro. O projeto “MaiorIdade” começou esta quinta-feira, 1 de outubro, com uma caminhada às 9 horas, junto à Piscina Municipal, e segue até dia 29 com dez propostas espalhadas pelo concelho. Pelo caminho cabem uma comédia no AMAC, defesa pessoal, conversas sobre aterosclerose e alimentação, uma marcha solidária, um jogo intergeracional, memórias da Revolução de Abril e até o aniversário de uma universidade onde os estudantes chegam depois dos 50.
Vista apenas como cartaz, a programação parece juntar atividades demasiado diferentes. Vista a partir de quem envelhece, a escolha ganha outra lógica. Caminhar trabalha a mobilidade, uma aula obriga a aprender, um espetáculo tira alguém de casa, uma tertúlia devolve valor à memória de quem viveu acontecimentos que os mais novos conhecem pelos livros. Já uma universidade cria horários, relações, compromissos e razões para continuar a descobrir assuntos novos.
E esta programação acontece num concelho onde a idade deixou há muito de ser um assunto periférico. O envelhecimento do Barreiro percebe-se melhor quando se colocam as gerações lado a lado. Em 2025, segundo os dados da Pordata, existiam no concelho 180 pessoas com 65 ou mais anos por cada 100 crianças e jovens com menos de 15. Dito de outra forma, por cada dez residentes mais novos, o Barreiro tinha 18 idosos. Em 2021, essa diferença era ainda maior: chegava aos 194 idosos por cada 100 jovens. A descida registada desde então significa que a relação entre as duas gerações se tornou um pouco menos desequilibrada, embora continue a haver bastante mais população idosa do que jovem.
Pensar políticas para pessoas mais velhas apenas como assistência significaria ignorar uma parte crescente do que hoje se sabe sobre longevidade. A Organização Mundial da Saúde deslocou há vários anos a discussão do número de anos vividos para o que uma pessoa consegue continuar a fazer durante esses anos. Relações, mobilidade, autonomia, participação na comunidade e possibilidade de desempenhar papéis com significado fazem parte desse conceito de envelhecimento saudável.
Em 2025, a OMS elevou ainda mais o tom sobre uma dimensão frequentemente tratada como secundária. A organização estima que cerca de uma em cada quatro pessoas mais velhas esteja socialmente isolada e aproximadamente uma em cada dez experimente solidão. A ligação social passou a ser tratada como questão de saúde pública, associada à saúde física, mental, qualidade de vida e longevidade. É difícil olhar para o programa do “MaiorIdade” sem encontrar essa preocupação, mesmo quando ela aparece disfarçada de passeio ou espetáculo.
Depois dos 50, voltar a ter colegas de turma
No Barreiro existe uma experiência com 24 anos que leva esta lógica bastante mais longe. Em 2002, a Câmara criou a Universidade Sénior do Barreiro, a UTIB, destinada a pessoas em situação de inatividade profissional, preferencialmente a partir dos 50 anos. O projeto é gratuito, funciona com voluntários e reúne atualmente mais de 800 participantes nas atividades regulares, em articulação com escolas, coletividades, associações e instituições do concelho.
A palavra “universidade” merece atenção. Aqui, aprender deixa de estar associado à obtenção de um diploma ou à preparação para uma profissão. Aos 70 anos, ninguém precisa de estudar inglês para construir um currículo. Pode fazê-lo porque quer finalmente conversar nessa língua, viajar com maior autonomia ou simplesmente porque ficou durante décadas com essa vontade adiada.
É essa liberdade que torna interessante olhar para a oferta da UTIB em 2026/2027. São 59 disciplinas e a lista quase funciona como um retrato das vidas que continuam depois do trabalho. Alemão, francês, italiano e inglês convivem com Arraiolos, azulejaria, bordados regionais, macramé, pintura e corte e costura. Existem canto coral, Cante Alentejano, Biodanza, dança criativa, ritmos latinos, teatro, fotografia, literatura e escrita criativa. Quem procura cuidar do corpo e da mente encontra Chi Kung terapêutico, meditações guiadas, bem-estar emocional ou estimulação cognitiva e psicologia sénior.
Depois aparecem disciplinas que desmontam uma das imagens mais persistentes sobre a velhice. Existe Informática de Iniciação, Internet, Excel, Word, PowerPoint e uma formação sobre fraudes informáticas, além da Comunicação na Era Digital e da Introdução à Inteligência Artificial.
Num momento em que serviços bancários, marcações médicas, transportes, informação, relações familiares e uma parcela crescente da vida quotidiana passam por um ecrã, aprender tecnologia depois dos 60 ou 70 anos pode ter uma dimensão muito mais concreta do que dominar um computador. Pode significar depender menos de filhos e netos para resolver tarefas básicas.
Também aqui a investigação permite ir além da intuição. Um estudo português publicado em 2026 acompanhou 45 alunos de uma universidade sénior, entre os 60 e os 84 anos. Os participantes relataram melhorias nas dimensões psicológica, social e ambiental da qualidade de vida, além de aumento da autoestima, das redes de apoio e da sensação de utilidade social.
Atividades para seniores: uma aula de defesa pessoal aos 70?
Talvez a proposta mais inesperada do “MaiorIdade” aconteça a 15 de outubro. Às 9h45, o CDIR 31 de Janeiro “Os Celtas” recebe uma aula de defesa pessoal de Krav Maga, promovida pela ASSAV, com apoio da Câmara e da coletividade.
A escolha mexe com a maneira como se representa uma pessoa mais velha. Em vez de uma programação limitada a atividades sedentárias ou ocupacionais, alguém decidiu colocar defesa pessoal no cartaz. No dia anterior, 14 de outubro, o corpo tinha estado sentado numa plateia. A proposta é a comédia “Rádio e Cassete Pirata”, às 14h30, no Auditório Municipal Augusto Cabrita, com participação sujeita a inscrição através da UTIB. Quatro dias antes, o assunto era a aterosclerose, numa sessão de entrada livre na Casa da Cidadania.
A 16 de outubro, muda novamente. “Comer para Viver Melhor: alimentação, saúde e autonomia no envelhecimento” leva a enfermeira Sónia Oliveira à Associação Unitária de Reformados, Pensionistas e Idosos do Lavradio. O título da conversa contém uma palavra decisiva: autonomia. Comer, movimentar-se, compreender informação sobre saúde e manter capacidade para decidir sobre a própria vida pertencem ao mesmo território.
Quando a memória de alguém passa a ser património da cidade
O programa reserva ainda espaço para uma matéria que dificilmente cabe numa aula de ginástica: a memória. No dia 20, o Moinho de Maré Pequeno recebe uma tertúlia sobre o impacto da Revolução de Abril na população do Barreiro e as mudanças nos hábitos sociais, na saúde e nos comportamentos aditivos. A sessão propõe uma partilha intergeracional de experiências, reflexões e curiosidades.
No Barreiro, esta conversa ganha uma espessura particular. Quem hoje chega aos 70 anos tinha cerca de 18 quando aconteceu o 25 de Abril de 1974. Quem tem 80 já era adulto. São pessoas que conheceram diretamente o Barreiro industrial, as suas relações de trabalho, os bairros, as coletividades e as profundas transformações sociais das últimas cinco décadas. Colocá-las numa sala com outras gerações significa transformar experiência pessoal em fonte de memória coletiva.
Três dias depois, essa memória aparece em versão lúdica. O “Igual(idade)”, na Escola Conde Ferreira, será um concurso de perguntas sobre efemérides, música e personalidades dos anos 50, 60 e 70. A atividade integra as comemorações do Dia Municipal para a Igualdade. Desta vez, saber quem cantava determinada música ou reconhecer uma personagem de outra década deixa de ser nostalgia e passa a valer pontos.
O mês aproxima-se do fim com uma Marcha Solidária da Associação Mulheres com Patologia Mamária, no dia 25, a partir do Parque da Cidade. Depois chega uma data que explica parte da dimensão de todo o programa: a UTIB comemora 24 anos no dia 28 de outubro, às 15 horas, no Moinho Grande de Maré. A autarquia apresenta a celebração como o ponto alto do “MaiorIdade”.
A última atividade acontece na manhã seguinte e talvez seja um bom retrato do que se tentou construir ao longo do mês. Helena Bonfim, professora voluntária da Universidade Sénior, troca a posição de quem ensina pela de autora e apresenta “Cabeça de Coco — Uma História Autobiográfica”, às 10 horas, no auditório da Biblioteca Municipal Manuel Cabanas. Uma autobiografia é, afinal, alguém decidir que os anos vividos ainda têm qualquer coisa para contar.
Sábado, 10 de outubro
15 horas — Seminário “Compreender a Aterosclerose”, no Auditório Cabós Gonçalves, na Casa da Cidadania. Entrada livre. Organização da Associação FRATER, com apoio da Câmara Municipal do Barreiro.
Quarta-feira, 14 de outubro
14h30 — Comédia “Rádio e Cassete Pirata”, no Auditório Municipal Augusto Cabrita. Sujeita a inscrição; informações no secretariado da UTIB, pelo 212 068 653.
Quinta-feira, 15 de outubro
9h45 — Aula de defesa pessoal de krav maga, no CDIR 31 de Janeiro “Os Celtas”. Organização da ASSAV, com apoio da Câmara Municipal do Barreiro e da coletividade.
Sexta-feira, 16 de outubro
11h30 — “Comer para Viver Melhor: alimentação, saúde e autonomia no envelhecimento”, com a enfermeira Sónia Oliveira, na Associação Unitária de Reformados, Pensionistas e Idosos do Lavradio. Organização da UCC/ULSAR.
Terça-feira, 20 de outubro
15 horas — Tertúlia “Impacto da Revolução de Abril na população do Barreiro e nos seus hábitos sociais, de saúde e nos comportamentos aditivos”, no Moinho de Maré Pequeno. Partilha de experiências entre gerações, organizada pelo Polo Arco Ribeirinho e pela Equipa de Prevenção do CRI da Península de Setúbal, do ICAD.
Sexta-feira, 23 de outubro
15h30 — “Igual (idade)”, concurso de perguntas sobre efemérides, música e personalidades dos anos 50, 60 e 70, na Escola Conde Ferreira. Integrado nas comemorações do Dia Municipal da Igualdade e organizado pela Câmara Municipal do Barreiro.
Domingo, 25 de outubro
10 horas — Marcha Solidária, com partida do Parque da Cidade. Organização da Associação Mulheres com Patologia Mamária, com apoio da Câmara Municipal do Barreiro.
Quarta-feira, 28 de outubro
15 horas — Comemoração do 24.º aniversário da Universidade Sénior do Barreiro, no Moinho de Maré Grande. Organização da Câmara Municipal do Barreiro.
Quinta-feira, 29 de outubro
10 horas — Apresentação do livro “Cabeça de Coco — Uma História Autobiográfica”, de Helena Bonfim, escritora e professora voluntária da UTIB, no auditório da Biblioteca Municipal Manuel Cabanas.







