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Depressão “Marta” destruiu-lhe o negócio. Agora, prepara a abertura de um novo espaço

A tempestade reduziu a escombros a academia de estética, onde já formou mais de 750 mulheres, mas não travou a visão da empresária de 28 anos.

No início de fevereiro, a passagem da depressão meteorológica ironicamente batizada de “Marta” reduziu a escombros a maior academia de estética do Barreiro. O teto da Rua Miguel Bombarda cedeu, mas a estrutura que o segurava já era, há muito, imaterial.

Para qualquer observador externo, a imagem de um salão destruído pelas chuvas seria o retrato de uma derrota. Para Marta Candeias, a empresária de 28 anos que dá nome ao espaço, o colapso foi o gatilho para uma evolução inevitável.

Num dia, o negócio estava funcional, no outro, a perda era total. Contudo, a marca Marta Candeias nunca dependeu apenas de quatro paredes, mas sim de uma visão de autonomia, que começou a ser desenhada muito antes das primeiras fendas no teto.

Para compreender a resiliência demonstrada perante os escombros, é necessário recuar ao momento em que Marta, recém-licenciada em Relações Públicas pela Universidade Lusófona, decidiu o seu destino. A passagem pelo mercado de trabalho convencional durou apenas um trimestre.

Entrada no universo da estética

Três meses foram o limite da sua tolerância à subordinação. Ali, no silêncio de um escritório que não lhe pertencia, Marta selou um compromisso vitalício: nunca mais trabalharia para outrem. Esta não foi uma decisão baseada em arrogância, mas em autoconhecimento. A jovem percebeu que a sua capacidade estratégica exigia um palco onde pudesse ter um guião completo.

A entrada no mundo da estética não foi uma vocação de infância, mas uma análise pragmática de mercado. Perante a escassez de oportunidades na sua área de formação, Marta identificou na estética do olhar uma porta de entrada para a independência financeira.

Especializou-se no Estoril e, com a velocidade que se tornaria a sua marca registada, abriu o primeiro salão na Baixa da Banheira oito semanas após terminar a formação. Um ano depois, abriu no centro do Barreiro uma academia para ensinar o que sabia sobre empreendedorismo e liberdade financeira.

A transição de esteticista para mentora aconteceu de forma orgânica. Ao fundar a Marta Candeias Academy, percebeu que a técnica do design de sobrancelhas e pestanas era apenas a superfície de uma necessidade muito mais profunda das mulheres que a procuravam. Ao longo de quatro anos e mais de 750 formações, Marta consolidou um método que subverte o ensino tradicional da estética.

empreendedora

Na sua academia, o domínio da pinça é secundário perante o domínio do lucro. Marta compreendeu que o mercado estava saturado de técnicas, mas órfão de gestão. Por isso, nas suas formações — que agora assumem um caráter de exclusividade, rejeitando o modelo de turmas em massa —, Marta ensina administração, estratégia de preços e visão de negócio.

Longe de formar apenas esteticistas, equipa mulheres com a armadura financeira necessária para a liberdade. Este encadeamento é o que torna o seu negócio resiliente: criou uma comunidade de mulheres que veem nela não apenas uma prestadora de serviços, mas um modelo de viabilidade empresarial.

Aposta na hotelaria

A inquietação de Marta Candeias nunca permitiu que se instalasse no conforto de um único setor. O sucesso na estética deu-lhe o capital e o à vontade para arriscar na hotelaria, uma área que sempre a fascinou. Após uma experiência agridoce com uma hamburgueria — que encerrou não por falta de clientes, mas por uma análise lúcida sobre a gestão do seu próprio tempo —, Marta lançou o Ay Maria.

Este gastrobar, que celebra o primeiro aniversário a 8 de março, é talvez o projeto onde a sua formação em Relações Públicas e a sua história pessoal mais comunicam. O nome é uma ode à mãe, mas o conceito é uma crítica às estruturas que tentam limitar a ambição feminina. O logótipo, representando uma figura sacra de olhos vendados, simboliza a rutura com uma educação religiosa e conservadora. No Ay Maria, a mulher é a figura que gere o balcão, a cozinha e o destino.

A destruição do antigo estúdio pela tempestade Marta acabou por ser o catalisador para uma mudança de paradigma que a empresária já maturava. A reabertura está agendada o Dia Internacional da Mulher: “Estamos focados para conseguir abrir as portas nesta data”, explicou à New in Barreiro. Situado na Rua Miguel Bombarda, o novo espaço abandona a lógica da “loja de rua” convencional.

Marta decidiu elevar o posicionamento da marca. O Lounge foca-se na exclusividade e na experiência do cliente, afastando-se do fluxo impessoal, para se tornar um refúgio de poder feminino. O encerramento forçado pela chuva permitiu-lhe reconstruir não apenas o teto, mas o próprio conceito de atendimento, focando-se na personalização que uma carteira de clientes fiel exige. É a prova de que, na gestão de Marta Candeias, um desastre natural é apenas uma variável de ajuste para uma estratégia de crescimento mais ambiciosa.

A trajetória de Marta não conhece pontos finais, apenas vírgulas. Nos seus planos imediatos está o regresso ao setor que a apaixonou: os hambúrgueres artesanais. Mas desta vez, o palco será o centro antigo do Barreiro. 

Contudo, talvez a maior prova do sucesso desta estratégia não resida apenas nos números de alunas formadas ou nos cocktails servidos. Com o fruto do seu trabalho e da sua gestão, Marta conquistou o sonho de comprar a casa própria no Barreiro.

No dia 8 de março, o Barreiro não celebra apenas a inauguração de um salão ou o aniversário de um bar, mas a confirmação de que, para certas mulheres, mesmo quando o céu cai sobre as suas cabeças, elas utilizam os escombros para construir escadas.

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