fora de casa

fora de casa

Casal britânico abre coworking no Barreiro para combater trabalho solitário

O Moinho Novo só tem 12 lugares, aceita animais de estimação e quer ligar nómadas digitais à vida local.

O Barreiro começa a atrair outro tipo de investimento. Chega sem placa de multinacional, torre envidraçada ou discurso de grande operação imobiliária. Tem duas secretárias de trabalho remoto, uma cadela portuguesa resgatada, fotografias antigas da cidade nas paredes e uma marca desenhada a partir das calçadas que Beth Toms e John Reynolds encontraram pelo caminho.  

Chama-se Moinho Novo e abre portas na segunda feira, 11 de maio. O novo espaço de coworking nasce para responder a uma mudança silenciosa na forma como muitos passaram a viver e a trabalhar na margem sul. Há cada vez mais pessoas com emprego noutros países, reuniões feitas por computador, equipas espalhadas por vários fusos horários e dias inteiros passados dentro de casa. Beth e John conhecem bem esse mundo. Vieram dele.

Os dois são britânicos, vivem no Barreiro há quase dois anos e trabalham ligados a startups tecnológicas. Beth tem 32 anos e é diretora de recursos humanos para empresas de tecnologia. John tem 35 e é diretor de tecnologias de informação no mesmo universo. Conheceram-se enquanto construíam escritórios para o Monzo Bank, o banco digital britânico que se tornou uma das referências da nova banca no Reino Unido. Anos depois, a experiência com equipas, espaços de trabalho e cultura empresarial ganhou outro endereço, desta vez no Barreiro.

Antes do Barreiro, viveram em Lisboa durante alguns anos. A capital tinha movimento, trabalho e uma comunidade internacional pronta a acolher quem chega de fora. Mesmo assim, faltava qualquer coisa. “Vivemos em Lisboa, mas sentíamos que tínhamos experimentado pouco da verdadeira cultura portuguesa”, conta Beth. Começaram então a explorar outras cidades em redor de Lisboa. O Barreiro conquistou o casal.

A primeira memória forte aconteceu à mesa. “Jantámos pela primeira vez no Coffee Box e soubemos que seríamos felizes aqui”, recorda. A frase podia parecer apenas uma lembrança simpática, mas acabou por orientar uma escolha de vida e de negócio. O Moinho Novo fica a poucos metros do local do primeiro jantar, numa zona que mistura passeio, comércio, novas obras e pequenas rotinas de bairro.

A Rua Heliodoro Salgado convenceu os fundadores pela localização e pela relação com a cidade. Para quem vem de Lisboa, a travessia de barco demora cerca de 20 minutos. Depois, são mais 15 minutos a pé até ao espaço.

Para quem vive no Barreiro, o caminho passa por uma frente urbana em transformação, com novos negócios e projetos a nascerem perto uns dos outros. Ao lado, Beth e John apontam novo cabeleireiro e um supermercado gourmet. A escolha da rua acompanha essa energia discreta de mudança, feita de portas abertas, vizinhos, obras, cafés e gente que começa a olhar para o Barreiro com outra atenção.

O Moinho Novo terá capacidade para 12 pessoas. A escala pequena foi pensada para criar um ambiente de trabalho concentrado, sem perder o lado humano. O espaço oferece mesas, internet rápida e fiável, cabines acústicas para videochamadas, mesas ergonómicas, ar condicionado e café fresco.

Também aceita animais de estimação, uma decisão que encaixa na história pessoal do casal. Beth e John vivem com Nala, uma cadela portuguesa resgatada que perdeu uma pata. Acabou por se tornar parte da família e também ajuda a contar a forma como os fundadores se ligaram ao país e à cidade.

Até o logotipo da marca nasceu desse olhar de quem observa o lugar antes de o transformar em negócio. Beth e John inspiraram-se nas calçadas do Barreiro para criar a identidade visual do Moinho Novo. Em vez de importar uma estética anónima de coworking, escolheram um elemento que já existia no chão da cidade. A marca passou a carregar essa memória gráfica quotidiana, vista por moradores todos os dias, muitas vezes sem grande atenção.

 

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Uma publicação partilhada por Moinho Novo (@moinho.novo)

 

O mesmo cuidado aparece dentro do espaço. Os fundadores vão expor fotografias de arquivo para ajudar quem ali trabalha a conhecer o passado industrial do Barreiro. A decisão aproxima o coworking da história local e evita que o projeto funcione como uma bolha isolada da cidade.

O Barreiro cresceu ligado ao rio, aos caminhos de ferro, às fábricas, aos bairros operários e a uma cultura de trabalho que deixou marcas fundas na paisagem. O Moinho Novo entra nesse território com outra forma de produção, feita de computadores, equipas remotas e trabalhadores independentes.

Para Beth e John, o coworking deve servir também para combater o isolamento de quem trabalha a partir de casa. “O Moinho Novo começou com uma ideia simples: trabalho remoto não deve significar trabalho solitário”, explicou Beth. A formulação deles parte de uma experiência concreta. Quem passa o dia atrás de um ecrã pode viver numa cidade durante meses e, ainda assim, conhecer pouco da rua onde mora.

John resume a ambição do projeto com o mesmo foco comunitário. “Criámos o Moinho Novo, um espaço de trabalho acolhedor onde os trabalhadores remotos se podem concentrar durante o dia e, ao mesmo tempo, integrar-se naturalmente na comunidade do Barreiro.”

O plano inclui encontros sociais, eventos comunitários e parcerias com empresas locais, incluindo restaurantes e prestadores de serviços da cidade. A intenção passa também por incentivar estrangeiros a aprender português, conhecer a história do Barreiro e participar em ações de voluntariado.

Os preços ficam entre a flexibilidade diária e a rotina mensal. O passe diário custa 12€. A mesa dedicada mensal fica por 200€. A lotação reduzida, com 12 lugares, reforça a aposta num formato próximo, pensado para trabalhadores remotos, freelancers, moradores e recém chegados que procuram um sítio para trabalhar, mas também uma porta de entrada para a cidade.

Carregue na galeria para conhecer por dentro o novo cowork.

ARTIGOS RECOMENDADOS