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Beth e John adotaram uma cadela de três patas e ganharam uma nova comunidade no Barreiro

Nala recebe os coworkers do Moinho Novo, corre no Parque Catarina Eufémia e acabou por aproximar o casal britânico dos vizinhos.

Beth Toms e John Reynolds chegaram ao Barreiro depois de vários anos em Lisboa. O casal britânico queria aproximar-se da vida portuguesa e encontrou uma cidade onde podia caminhar junto ao rio, acabando por abrir o Moinho Novo, o primeiro espaço exclusivamente dedicado ao coworking no concelho.

Apesar desse currículo, muitos moradores reconhecem-nos por outro motivo quando os encontram no Parque Catarina Eufémia, às oito da manhã. “Agora somos conhecidos como o casal britânico com a cadela de três patas”, conta Beth à NiB.

A responsável pela alcunha chama-se Nala. Entrou na família depois da mudança para o Barreiro, passou a acompanhar os passeios em Alburrica e levou Beth e John a conhecer os donos dos cães com quem brinca diariamente. “A Nala foi a razão pela qual hoje temos uma comunidade no Barreiro. Conhecemos todos os cães e encontramo-nos todas as manhãs, às oito horas, no Parque Catarina Eufémia, para brincarem.”

O desejo de adotar começou durante as caminhadas pela zona dos moinhos de Alburrica e da praia fluvial. Beth e John gostavam de percorrer aquele lado da cidade e pensaram que um cão lhes daria mais um motivo para aproveitar os espaços exteriores. A adoção já era a escolha do casal, que acompanhava há algum tempo o trabalho da Associação Bianca, em Sesimbra, e as histórias dos animais resgatados pela instituição.

A equipa do abrigo apresentou-lhes vários cães durante a visita. Nala prendeu-lhes a atenção antes de qualquer pergunta sobre raça, tamanho ou condição física. “Vimos os olhos da Nala e soubemos que era ela. Depois percebemos que só tinha três patas e, nessa altura, tivemos mesmo de a levar connosco. É uma guerreira.”

Um brinquedo pela primeira vez

A história conhecida de Nala começara na rua, quando tinha apenas dois meses. Um acidente de viação partiu-lhe a pata dianteira direita na zona de crescimento do osso. A Associação Bianca recolheu-a, reuniu apoio para pagar a cirurgia e acompanhou o tratamento. A gravidade da lesão levou à amputação.

Nala permaneceu no abrigo desde setembro de 2024. A ficha criada para procurar uma família descrevia-a como meiga, brincalhona e cheia de energia. Pesava 16 quilos, tinha porte médio e já aparecia nas fotografias adaptada a apoiar o corpo em três patas. O anúncio também explicava o acidente, a cirurgia e os meses passados à espera de adoção.

Beth e John levaram-na para casa cerca de um ano depois. A cadela que hoje corre pelo Barreiro passou os primeiros três dias a dormir quase continuamente. “Estava a descomprimir da vida no abrigo”, recorda Beth. “Nunca tinha tido um brinquedo. Aos poucos, começou a relaxar e a aproveitar a nova vida.”

O primeiro brinquedo pertencia a uma rotina inteiramente desconhecida para Nala. No abrigo, dividira espaço, atenção e horários com muitos animais. Em casa, precisava de se habituar aos sons, aos movimentos dos donos e à possibilidade de dormir durante horas sem o ruído à sua volta.

Beth e John também estavam a aprender. As três patas fizeram o casal temer que os passeios em Alburrica fossem demasiado longos ou que as escadas se transformassem num problema diário. Assim que recuperou a energia, Nala encarregou-se de corrigir aquelas expectativas. “Pensávamos que talvez tivesse dificuldade em caminhar durante muito tempo ou em subir escadas. Afinal, é muito rápida e adora correr.”

A amputação obrigou-a a distribuir o peso de outra forma, mas deixou-lhe intacta a vontade de acompanhar os donos. Nala caminha, sobe escadas, corre no parque e percorre os lugares que Beth e John queriam explorar quando decidiram adotar um cão.

O encontro das oito da manhã

Os passeios encontraram um horário e um ponto de encontro. Por volta das oito horas, Nala segue para o Parque Catarina Eufémia, onde os cães correm enquanto os donos conversam. As mesmas pessoas regressam na manhã seguinte, retomam assuntos interrompidos e passam a reconhecer os animais antes de saberem o nome de todos os tutores.

Beth e John procuravam este tipo de proximidade quando trocaram Lisboa pelo Barreiro. Durante os anos passados na capital, encontraram movimento, trabalho e uma comunidade internacional pronta a receber quem chegava de fora. Sentiam, porém, que tinham conhecido pouco da vida quotidiana portuguesa.

No Barreiro, os encontros criados por Nala dispensaram apresentações formais. Uma pergunta sobre a pata amputada, um comentário sobre a velocidade da cadela ou a repetição dos mesmos percursos serviram para iniciar conversas. A alcunha de “casal britânico com a cadela de três patas” tornou-se um sinal de que os três já pertenciam à paisagem diária do bairro.

Depois das brincadeiras no parque, Nala acompanha os donos até à Rua Heliodoro Salgado. Ali funciona o Moinho Novo, coworking aberto em maio a partir da experiência de Beth e John com o trabalho remoto. Os dois conheciam o isolamento de passar o dia diante do computador, longe de uma equipa e com poucas oportunidades para conversar.

 

 
 
 
 
 
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A anfitriã do Moinho Novo

O Moinho Novo tem 12 lugares, um formato reduzido que favorece o contacto entre profissionais independentes e trabalhadores à distância. Os membros podem reservar uma secretária por dia ou manter um lugar fixo, utilizar a sala de reuniões e fazer pausas nas zonas comuns. Os animais de estimação também são recebidos.

Nala chega com Beth e John e passa o dia entre as mesas, as secretárias e a porta de entrada. A presença oferece um assunto imediato a quem visita o espaço pela primeira vez. A conversa costuma começar na pata amputada, avança para a adoção e depressa envolve pessoas que, minutos antes, trabalhavam em silêncio. “A Nala vem ao Moinho Novo todos os dias e tornou-se uma parte essencial da comunidade”, afirma Beth.

O Instagram do coworking acompanha esse lugar conquistado pela mascote. Entre os destaques do perfil existe um identificado com a fotografia de Nala e um emoji de cão. As publicações reunidas ali mostram a relação com a Associação Bianca e os donativos mensais feitos pelo espaço ao abrigo.

Numa publicação partilhada pelos perfis do Moinho Novo e da associação, o casal escreveu: “A Nala foi resgatada pela Bianca depois de ter sido encontrada na rua com uma pata partida. Tinha apenas dois meses. A Bianca cuidou dela e agora é ela quem dá as boas-vindas a todos os que chegam ao Moinho Novo.”

A mesma mensagem está numa moldura exposta no coworking, em português e inglês. Junto à fotografia de Nala, os membros encontram a explicação para a parceria: “Eles já acolheram a Nala, que está aqui para dar as boas-vindas a todos, todos os dias.”

A frase descreve o que acontece na sala sem atribuir à cadela um papel decorativo. Enquanto Beth e John criaram um local de trabalho para reduzir o isolamento, Nala recebe os membros, acompanha as pausas e facilita as primeiras aproximações entre desconhecidos.

Cinco por cento das receitas regressam ao abrigo

A Associação Bianca foi fundada em 2002 e criou, quatro anos depois, um abrigo inicialmente preparado para 50 animais. As instalações acolhem atualmente cerca de 400 cães e quase 100 gatos, segundo os números publicados pela organização. A média mensal atinge os 40 novos animais, todos dependentes de alimentação, cuidados veterinários, medicamentos e trabalho voluntário.

Quando preparavam a abertura do Moinho Novo, Beth e John incluíram nas contas do negócio um compromisso com a instituição que tratou de Nala. Cinco por cento das receitas do coworking são entregues todos os meses à associação. “Ela significa tudo para nós e tivemos muita sorte por a encontrar. Existem tantos cães a precisar de uma casa”, diz Beth. “Quando criámos o Moinho Novo, sabíamos que queríamos retribuir à Bianca depois de terem resgatado a Nala.”

O destaque dedicado à cadela também funciona como registo desta contribuição. Em julho, a utilização do Moinho Novo permitiu entregar 46,80€ à associação. O perfil publicou igualmente o donativo referente a agosto, mostrando aos membros que parte do valor pago por uma secretária, uma reunião ou um dia de trabalho segue para Sesimbra.

Nala regressará ao Parque Catarina Eufémia na manhã seguinte e encontrará os cães que já reconhece. Depois seguirá para o Moinho Novo, onde uma moldura conta a sua história e os membros esperam pela anfitriã. Foi neste percurso diário, entre o parque e o coworking, que Beth e John deixaram de ser apenas um casal britânico recém-chegado ao Barreiro.

Carregue na galeria para conhecer o Moinho Novo onde Nala passa os dias.

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