Se nos tempos de infância alguém dissesse ao “bastante tímido” José Rolão que viria a ter um perfil no Instagram com cerca de 50 mil seguidores, o mais provável é que nunca acreditasse. Hoje, com 29 anos, o barreirense conta um pouco do seu percurso à NiB.
“A escola era o sítio onde a minha timidez vinha mais ao de cima. Quando estava em casa ou com os amigos mais próximos, lá me soltava”. Como qualquer outro miúdo, passava os dias a brincar na rua, a jogar futebol, a andar de bicicleta e a correr, e “ia sempre de férias para o Alentejo”. A certa altura, começou a fazer algumas atividades com o tio.
“Íamos muitas vezes à pesca ou então ia com ele e com a minha tia para a horta que eles tinham. Nunca queria ir. Para mim era super aborrecido”, recorda. Anos mais tarde, o gosto pelas ciências humanas levou-o a escolher o curso de Antropologia, embora a escolha não tenha sido planeada.
“No secundário, não tinha muita ideia do que é que queria seguir na universidade. Sabia que queria ir, mas não tinha a certeza do que faria”. Acabou por candidatar-se ao Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP), onde concluiu a licenciatura e o mestrado em 2022. Um ano depois, e após não ter conseguido encontrar emprego na sua área, acabou por seguir uma sugestão da companheira, Daniela, e inscreveu-se numa pós-graduação em Marketing Digital, que concluiu em 2024.
“Ela viu que eu estava assim um pouco perdido, sem saber bem o que fazer, e disse-me: ‘Olha, por que é que não vais tirar esta pós-graduação no IPAM? É uma área com bastante saída’. Aceitei o conselho e acabei por gostar mesmo muito”.
José e Daniela conheceram-se no primeiro dia de faculdade, durante a praxe. Ambos tiraram Antropologia, embora frequentassem anos diferentes. “Criámos logo uma grande ligação”, conta. A verdade é que ainda continuam juntos e acabou por ser precisamente Daniela a dar o pontapé de saída para o projeto que hoje se conhece como “Abelha 7 Trevos”.
A ideia surgiu em 2018, enquanto a jovem fazia uma investigação para a tese de mestrado, no âmbito da qual conversou com consumidores éticos, que abordaram o tema de ter uma horta e alimentos produzidos sem químicos. Estas conversas levaram-na a tomar a decisão de explorar a atividade. “Eu ajudava-a no que podia, tirava e publicava algumas fotografias no Instagram, mas ainda não tinha o bichinho da horta”. Só mais tarde, em 2019, é que José começou também a plantar. “A partir daí é que o processo se foi desenvolvendo”.
Na altura, tinham duas hortas, uma no Seixal (em casa da Daniela) e outra no Barreiro (na casa de José), ambas em moradias, com quintal. Hoje, só mantêm a do Barreiro. Inicialmente, o projeto tinha o nome “Abelha Mágica” — inspirado na importância das abelhas e dos polinizadores — mas José teve de alterá-lo, por já existir uma marca com essa designação. Assim nasceu o “Abelha 7 Trevos”.
O projeto teve várias fases. Começou com a venda de plantas excedentes em plataformas como a OLX e com a partilha de dicas no Instagram. Com o tempo, o foco passou a ser outro. “Quis criar uma comunidade e provar que qualquer pessoa pode ter uma horta em casa, seja em vasos, numa varanda ou num quintal, mesmo que não perceba nada acerca do assunto. Tal e qual como aconteceu connosco, que não tínhamos formação nenhuma em agricultura e errámos muito até chegarmos onde estamos hoje”.
A aprendizagem foi feita sobretudo de forma autodidata. “Foi através de muita pesquisa na Internet. Também aprendemos muito com pessoas mais velhas que conhecíamos e a partir das interações na página. Há muita gente que nos ensina diariamente nos comentários. Ainda hoje aprendemos. Costumo dizer que é uma coisa mútua — não sei mais do que ninguém”.
Ao longo destes anos, já plantaram de tudo um pouco, desde tomateiros a alfaces, couves, nabos, limoeiros, alhos franceses, alhos, batatas, batata-doce, chuchu, aromáticas. Tudo para consumo próprio, até porque as vendas, que chegaram a acontecer no início, eram residuais. “Era só para ganhar uns trocos”.
Sobre o impacto do projeto na comunidade, José não tem a certeza se foi ele (juntamente com a namorada) quem influenciou os seguidores a começar as suas hortas, mas garante que as mensagens chegam. “As pessoas mostram-nos as suas hortas, fazem perguntas, dizem que estão a começar. Se fomos nós a influenciar ou não, não sei, e acho que nem é importante saber. O importante é contribuir para a comunidade”.
Hoje, o perfil do “Abelha 7 Trevos” tem 48 mil seguidores e continua a crescer. Desde o início, houve parcerias com marcas que se identificaram com o projeto. Uma das primeiras foi a “SIRO — Substratos Profissionais”, ainda antes de José e Daniela atingirem os 500 seguidores. “Enviaram-nos dois sacos de substrato e, sempre que precisamos, falamos com eles. Nunca duvidaram do projeto”, explica. Ao longo do tempo, outras parcerias foram surgindo, com marcas de sementes, produtos sustentáveis ou materiais para cuidar da terra.

Entretanto, José lançou dois livros. Primeiro, um e-book com dicas — uma versão mais organizada do conteúdo que já existia no Instagram. Depois, um livro físico com o nome “Abelha 7 Trevos — Uma jornada verde”. Este último, lançado no ano passado, é mais completo.
“Tem dicas, um tutorial passo-a-passo e muito da nossa jornada ao longo destes seis anos. Os erros, os acertos, as peripécias. Uma vez, por exemplo, fomos a uma loja e pedimos sementes de alho — e o alho não tem sementes. Usa-se o dente”. O livro é um reflexo da experiência de quem começou do zero. “É para mostrar que não sabíamos mesmo nada e que, mesmo assim, conseguimos construir algo”.
Apesar das vendas, José não promove o livro com frequência. “Se o promovesse mais, teria mais vendas, mas chego a estar duas ou três semanas sem dizer que tenho um livro. Porque o objetivo não é esse. A ideia nunca foi ganhar dinheiro”. O foco do projeto também não é esse. “A Daniela tem um trabalho a full-time e eu tenho o meu. Isto é um hobby. Às vezes, traz algum dinheiro, que é bem-vindo, mas está longe de ser esse o motivo pelo qual o fazemos”, conclui.
Carregue na galeria e veja algumas imagens do projeto “Abelha 7 Trevos”.







