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Vírus que deixou médicos em alerta está cada vez mais próximo. Como pode proteger-se?

Antes, estava presente apenas em destinos tropicais. Agora, já circula por França e Itália (e é provável que chegue cá).

O vírus Chikungunya não é uma doença nova, mas tem vindo a ganhar destaque na Europa devido ao aumento de casos e à possibilidade de transmissão local, fenómeno que preocupa a comunidade médica. O alargamento da área geográfica do mosquito que transporta o vírus obriga, então, a uma vigilância mais apertada.

Segundo o que o infecciologista Hélder Pinheiro conta à NiT, já se trata de uma patologia conhecida há vários anos. Normalmente, é associada a viagens para regiões tropicais e subtropicais. Durante muito tempo, os casos observados em Portugal surgiram quase exclusivamente em viajantes regressados dessas zonas endémicas.

Nos últimos anos, contudo, a situação começou a mudar. Além dos casos importados, têm sido identificadas cadeias de transmissão local na Europa, o que levou a que a doença passasse a ser considerada emergente no continente. “Temos aqui o inseto responsável pela transmissão do vírus ao ser humano. Isso permite que possam surgir surtos quando existem as condições certas”, refere.

Os principais vetores associados à transmissão são o Aedes aegypti e o Aedes albopictus, que já foram identificados na Madeira, na Área Metropolitana de Lisboa e também no norte do País. O alargamento geográfico do mosquito está sobretudo ligado às condições meteorológicas.

“Não há transmissão entre humanos. É preciso que um mosquito infetado pique várias pessoas para criar um surto e isso depende muito do clima”, explica. A transmissão tende a ocorrer quando as temperaturas rondam os 24 a 26 graus. 

Afinal, têm sido as alterações climáticas o principal fator que favorece a expansão da doença para lugares onde antes não existia. No passado, a infeção era sobretudo associada à América do Sul, ao sudoeste asiático e a algumas regiões tropicais. Em 2025, porém, houve focos de transmissão local no sul de França e no norte de Itália, o que mostra que o vírus está cada vez mais próximo de Portugal.

Os sintomas da infeção podem ser confundidos com outras doenças transmitidas por mosquitos, como dengue, zika ou malária. A febre alta, as dores musculares e as dores articulares intensas são as manifestações mais frequentes. “Por vezes aparecem manchas vermelhas no tronco”, acrescenta Hélder Pinheiro.

Na maioria dos casos, trata-se de uma doença autolimitada, ou seja, melhora com o tempo sem necessidade de tratamento específico. Ainda assim, existem grupos mais vulneráveis.

O infecciologista alerta para possíveis complicações em pessoas com outras doenças ou em situações especiais, como durante a gravidez. “Quando a infeção ocorre numa grávida, o recém-nascido pode desenvolver infeção do sistema nervoso central, o que já pode ser grave”, refere.

Apesar de não existirem, para já, condições ideais para surtos no continente, o risco de transmissão local não é impossível. Para que isso aconteça, é necessário que uma pessoa infetada chegue ao País numa fase em que o vírus circula no sangue e seja picada por um mosquito capaz de transmitir a infeção a outra pessoa. “Basta um viajante infetado e a presença do mosquito para que se possa iniciar uma cadeia de transmissão local”, alerta.

Como se pode proteger?

A prevenção continua a ser a principal arma contra o vírus. Existem duas vacinas disponíveis, mas a sua utilização está limitada a situações específicas, sobretudo em viajantes para zonas com surtos ativos. “Não é uma vacina que esteja no Programa Nacional de Vacinação nem é recomendada para toda a gente. Usamos sobretudo em pessoas que vão permanecer durante muito tempo em zonas endémicas”, esclarece.

Fora desses casos, as medidas mais eficazes passam por evitar as picadas de mosquito e reduzir os locais onde estes se podem reproduzir. “Usar repelente, redes mosquiteiras, ar condicionado e evitar água parada em jardins ou varandas são medidas simples que reduzem muito o risco”. 

Não existe tratamento específico para a infeção por Chikungunya, sendo o acompanhamento médico importante sobretudo para excluir outras doenças potencialmente mais graves. Na maioria das situações, a abordagem é apenas de vigilância clínica e controlo dos sintomas. “A doença costuma ser autolimitada e não há um medicamento específico. Mas se houver febre muito alta ou dores muito intensas, é importante procurar cuidados médicos”, diz.

Apesar do aumento de casos na Europa, o especialista considera que não existe, para já, motivo para alarme excessivo, embora o fenómeno esteja a ser acompanhado com atenção. “Não é o vírus que mais nos preocupa. A malária continua a ser mais grave, mas qualquer doença que esteja a alargar a sua área geográfica merece vigilância”, afirma.

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