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Os miúdos já não terminam as palavras e os psicólogos estão cada vez mais preocupados

Este fenómeno começou a surgir nos últimos anos devido aos vídeos rápidos de redes sociais como o TikTok e o YouTube.

Entre vídeos de TikTok, streams de gaming e conteúdos acelerados no YouTube, há cada vez mais miúdos e adolescentes a adotar uma nova forma de falar: cortam as últimas sílabas das palavras e deixam frases suspensas no ar. A tendência chama-se “corte seco” e está a preocupar pais, professores e psicólogos.

Ainda não existem grandes estudos científicos sobre este fenómeno, mas a psicóloga Patrícia Câmara conta à NiT que está ligado a um padrão cada vez mais comum nas redes sociais: a aceleração constante. Segundo a especialista, mais do que uma questão puramente linguística, isto revela “uma dificuldade crescente em permanecer nas coisas até ao fim”.

Muitos miúdos já não cortam apenas sílabas: começam também a eliminar verbos e partes inteiras das frases. Em vez de dizerem “quero comer pão”, passam a dizer apenas “quero pão” ou “posso pão”.

“Tal como o próprio nome indica, o corte seco introduz um corte no que deveria ser a continuidade”, explica. Para a psicóloga, este comportamento acaba por refletir a forma como miúdos e adolescentes vivem atualmente grande parte das experiências digitais: conteúdos rápidos, estímulos constantes e pouca tolerância à espera ou à profundidade.

A tendência terá começado por influência de criadores de conteúdos que usam edições rápidas, com cortes bruscos nas frases para tornar os vídeos mais dinâmicos. Com o tempo, os jovens começaram a transportar esse ritmo para a linguagem do dia a dia.

Mas o fenómeno vai além da simples imitação. A adolescência é, por definição, uma fase de pertença e identificação social. Os jovens procuram referências nos grupos e nos influenciadores que seguem diariamente. E, neste caso, este fenómeno funciona quase como um código geracional.

Isto pode acabar por ter consequências na forma como os jovens escutam e se relacionam. Ao habituarem-se a mensagens interrompidas e rápidas, acabam por perder espaço interno para ouvir até ao fim aquilo que os outros têm para dizer.

“Os adolescentes precisam de se identificar com os outros”, afirma. “E este tipo de identificações a situações ou pessoas que parecem ser muito complacentes com esta ideia da ausência da necessidade de estar nas coisas até ao fim tem a desvantagem de não dar espaço interno para ouvir até ao fim o que foi dito.”

Nos últimos meses, vários meios internacionais e especialistas em educação têm chamado a atenção para o fenómeno. Há professores que relatam alunos a reproduzirem o “corte seco” dentro da sala de aula e pais que começam a notar dificuldades na construção de frases completas.

“Se tivermos muitos cortes secos na vida, chega-se a adulto com muita dificuldade de fazer coisas com continuidade”, alerta. “Há dificuldade em estar verdadeiramente nas relações com os outros.”

Para os pais, a solução não passa por proibir palavras ou corrigir constantemente a forma de falar dos filhos. O mais importante, defende a psicóloga, é criar espaço para experiências mais lentas e completas — algo que contrarie o ritmo acelerado das redes.

A especialista sublinha que os adultos também precisam de estar verdadeiramente disponíveis quando passam tempo com os filhos. “Mais importante do que a quantidade de horas é a qualidade da presença”, realça.

Outro dos conselhos passa por os pais trocarem os ecrãs dos miúdos por atividades mais lúdicas, como a leitura. No entanto, devem “ler livros que tragam complexidade e com coisas que não se entendem à primeira”. Depois, devem dialogar e debater ideias até chegarem a uma conclusão final. “Mostrar o prazer que é estar em conjunto” também é, para Patrícia Câmara, uma das ferramentas mais importantes no combate ao corte seco.

Carregue na galeria para conhecer também os desenhos animados que não são recomendados para os miúdos.

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