Durante anos, a passagem dos catamarãs que ligam o Barreiro a Lisboa ajudou a erguer uma onda rara no Tejo. Foi o ponto de partida para sessões de surf, um filme premiado e a criação da Gasoline, a associação que transformou o fenómeno em escola e projeto comunitário.
Agora, a redução da velocidade dos barcos ameaça esse equilíbrio e coloca em causa a continuidade de uma onda que virou marca afetiva, desportiva e simbólica do Barreiro.
A história já ultrapassou há muito o registo da curiosidade local. Ricardo Carrajola, 45 anos, do Barreiro, ficou ligado a esta paisagem improvável do Tejo, onde o surf encontrou um terreno próprio e uma leitura muito diferente da praia aberta.
Pelo caminho houve artigos, projeção internacional, um prémio de melhor produção nacional para um filme nascido desta experiência e a consolidação da Gasoline, associação fundada em 2013, com atividade no surf, no skate, na arte urbana e em iniciativas culturais de base comunitária.
Hoje, porém, a atenção desloca-se para outro ponto: a onda continua a aparecer, mas com menos força, regularidade e muito mais dependente de uma combinação precisa entre maré, fundo e velocidade na passagem das embarcações.
“Hoje, as ondas dos barcos que veem de Lisboa já não resultam. E está bem mais complicado conseguir surfar com as ondas que rebentam da passagem dos barcos que saem do Barreiro”, explicou Ricardo.
Segundo Ricardo, a alteração na velocidade dos barcos mexeu diretamente com a formação da ondulação. A mudança, segundo o relato da empresa, estará ligada a questões operacionais na travessia e ao impacto junto ao pontão do Seixal. Para quem olha de fora, pode parecer um ajuste técnico sem grande consequência.
Dentro de água, o efeito mede-se de forma imediata. Uma das direções da onda perdeu consistência, outra ficou mais curta e o que antes surgia com uma rotina quase certa passou a pedir uma margem maior de sorte e de acerto.
Em alguns dias ainda saem boas ondas. Noutros, a sensação é de fragilidade, como se um mecanismo que durante anos funcionou com naturalidade tivesse entrado numa fase mais estreita. “Por acaso peguei boas ondas há uma semana, quando estive lá com surfistas amigos e com meu filho. Mas é necessária a cooperação de quem guia as embarcações“, explicou.
Ricardo aguarda uma oportunidade para reunir com a Soflusa para explicar que há uma saída orgânica para o problema. Explica que o surf no Tejo só é possível na maré baixa. Portanto, manter a velocidade antiga dos barcos neste período não impactaria no pontão do Seixal. “Na maré baixa, as ondas não chegam ao Seixal e, portanto, não prejudicam os barcos de lá. A saída seria manter a velocidade antiga nas marés baixas. Isso garantiria a prática do surf”, argumenta.
Para Ricardo, o que está em causa no Barreiro ultrapassa a perda de uma boa sessão de surf e entra no terreno das oportunidades desperdiçadas. Cita o caso da Alemanha, que mesmo sem onda, tem um dos mais bem sucedidos projetos de fluxo turísticos voltados para o surf.
“Em Munique, os alemães transformaram uma onda estática num símbolo. Criou movimento à volta dela e conseguiu projetar-se como destino forte do turismo de surf; já o Barreiro, com uma raridade criada pela passagem regular dos barcos e com potencial para se afirmar como caso único, continua longe de tirar pleno partido dessa singularidade”.
Na sua leitura, se um fenómeno semelhante tivesse surgido em território alemão, já teria sido trabalhado como imagem de marca, ativo turístico e argumento de promoção internacional, porque há uma capacidade maior de reconhecer valor, organizar narrativa e converter exceção em identidade.
Associação Gasoline
Esse estreitamento bate diretamente na Gasoline, iniciativa vencedora nos Prémios NiB 2025 como melhor projeto FIT. A associação nasceu desta relação com o rio e cresceu a partir dela.
Fundada em 2013, abriu-se à comunidade, criou uma escola de surf alternativa, integrou programas escolares e alargou a atividade ao skate e a eventos culturais.
Os associados pagam uma quota simbólica, há aulas gratuitas em várias frentes e existe trabalho com o Agrupamento de Escolas Augusto Cabrita, no curso profissional de desporto. Ricardo refere ainda uma turma regular, a rondar os 30 alunos, número suficiente para mostrar que esta onda serve de base a muito mais do que uma imagem bonita para reportagem. “Hoje, a associação tem várias vertentes, mas o surf é a nossa base”, explica.
A própria origem da Gasoline ajuda a perceber essa dimensão. O que começou com amigos a surfarem as ondas dos barcos ganhou visibilidade através de um artigo na revista Surf Portugal, abriu caminho a filmagens e levou Ricardo a inventar, num primeiro impulso, um filme que ainda só existia como ideia.
O filme acabou por ser feito e venceu um prémio. Durante as filmagens surgiu também a vontade de abrir uma escola. A associação apareceu logo depois, já com ambição suficiente para ligar desporto, cultura e comunidade. O nome seguiu a mesma lógica entre humor e observação do terreno: o cheiro a gás deixado pelos barcos e a linha da onda cruzaram-se em Gasoline.
Ao longo dos anos, esse universo trouxe atenção mediática e ajudou a dar ao Barreiro uma imagem singular. Houve reportagens para marcas, presença em conteúdos internacionais e até a passagem de Garrett McNamara pelo projeto, dentro de uma ideia de surf urbano na periferia de Lisboa.
Ricardo olha para tudo isso como prova de um potencial ainda longe de estar esgotado. Na visão dele, o Barreiro tem ali um caso raro à escala mundial: uma escola de surf alimentada por uma onda criada por um barco que entra com frequência regular e criou uma cultura própria em torno do rio.
É essa raridade que hoje pesa mais. Quando a onda perde força, o impacto vai muito além do plano desportivo. Fica em risco uma prática construída ao longo de anos, um método de leitura do rio que só se aprende com tempo, um projeto social já enraizado e uma espécie de assinatura local que ajudou a distinguir o Barreiro no mapa do surf e da cultura urbana.
A onda ainda aparece. Só que agora surge com outra fragilidade, outra margem de incerteza e uma dependência maior de fatores que fogem ao controlo de quem está dentro de água. Para uma cidade que fez daquela rebentação um símbolo improvável, isso já basta para transformar um fenómeno antigo numa notícia nova e urgente.
Carregue no vídeo de 2025, que mostra a experiência do surfista Luís Perloiro nas águas do Tejo.









