O treino que Paula Sousa criou no Barreiro começou sem a intenção de excluir os homens. A treinadora queria aproveitar alguns horários livres do espaço, onde já dava aulas de karaté, e experimentar uma turma de treino funcional aberta a quem aparecesse. Aconteceu outra coisa. Foram sobretudo mulheres que começaram a chegar, o grupo ganhou uma dinâmica própria e Paula percebeu que havia ali uma razão para continuar assim. Quatro épocas depois, as aulas mantêm-se exclusivamente femininas e regressam a 1 de setembro, na sede do Galitos FC, na Quinta da Lomba.
“Começaram a juntar-se mais mulheres e achei que seria melhor dirigir o treino apenas a elas, porque é um sítio onde estão à vontade, sejam gordas, magras, tenham muita condição física ou pouca”, explica à New in Barreiro. A preocupação de Paula nunca passou por construir uma turma onde todas tenham de acompanhar o mesmo ritmo. “Se quiserem treinam de top ou de calções. Não têm de estar preocupadas com complexos.”
As sessões decorrem às terças e quintas-feiras, das 19 horas às 19h50, num espaço com um tatame normalmente utilizado para as aulas de karaté. A primeira experiência é gratuita, permitindo que qualquer mulher conheça o grupo antes de decidir se quer continuar.

Quem entrar também não precisa de ter experiência anterior de treino. Paula trabalha com mulheres habituadas a fazer exercício e com outras que chegam depois de períodos longos de sedentarismo. Os exercícios são ajustados e a quantidade de repetições acompanha o que cada participante consegue fazer naquele momento.
“Se não fizerem 20, fazem dez. Se não fizerem dez, fazem cinco”, diz. “A intenção é criar uma condição física geral, mas também fazer com que tenham algum tempo para elas. São duas horas por semana em que saem de casa e reservam aquele tempo para se dedicarem a elas próprias e ao seu bem-estar.”
Essa possibilidade de começar sem a obrigação de saber utilizar equipamentos ou de chegar já em boa forma é uma das razões pelas quais Paula acredita que o formato funciona. Aos 39 anos, pratica karaté desde 1997 e conhece há vários anos a realidade dos ginásios. Na sua experiência, muitas mulheres querem fazer exercício, mas sentem-se desconfortáveis quando entram sozinhas numa sala de musculação.
“O ginásio obriga a algum conhecimento e isso assusta. Muitas chegam à sala e não sabem mexer nas máquinas, não sabem o que fazer e não estão confortáveis para ficar ali sozinhas”, explica. “Acabam por procurar mais as aulas de grupo, mas em ginásios grandes tudo pode ser muito impessoal. As pessoas entram, fazem a aula e vão embora.”
No grupo da Quinta da Lomba, Paula quis conservar outra relação entre quem treina. “Tento que seja uma coisa muito próxima, que dê vontade de ir. Às vezes, a pessoa até pode não estar com vontade de treinar naquele dia, mas vai porque sabe que estão lá as amigas.”
Essa convivência já ultrapassou as duas sessões semanais. Algumas mulheres combinam caminhadas na Mata da Machada ou na zona do Polis e mantêm contacto fora do treino. “Acaba por tornar-se um grupo muito íntimo, em que todas estão à vontade”, conta Paula.
Quem já frequenta as aulas descreve uma experiência semelhante. Ana Candeias escreveu no Instagram que “o melhor treino não é apenas sobre o cansaço físico ou os minutos no cronómetro”, destacando também “o abraço que acolhe depois de um dia difícil” e “uma mão estendida para te levantar”. Para ela, “não é só treino, é a nossa família”. Carina Matos fala da “excelente energia das aulas de grupo”, dos exercícios adaptados ao ritmo de cada participante e de um ambiente em que “apoiamo-nos todas”.
Quanto custa?
O preço é uma das informações que Paula prefere dar diretamente a quem a contactar. Não se trata, garante, de esconder uma mensalidade elevada. O motivo vai no sentido contrário.
“É muito barato”, diz. O valor foi pensado para ficar ajustado à realidade do Barreiro e para que não se transforme numa barreira a quem quer começar a mexer-se. Paula prefere, ainda assim, manter esse primeiro contacto com cada potencial aluna, explicar como funcionam as sessões e esclarecer as condições antes da inscrição. Quem quiser saber o preçário pode enviar-lhe uma mensagem através do Instagram. A primeira aula continua a ser gratuita.
O grupo nasceu num percurso profissional muito ligado ao karaté. Paula treina a modalidade desde 1997 e, em 2011, abriu com o marido uma escola no Paivense. Mais tarde, o casal começou também a dar aulas no Galitos FC, dividindo atualmente a atividade entre os dois espaços.
“O karaté sempre foi um pouco a nossa vida”, conta. O treino funcional feminino apareceu depois, quando surgiu a possibilidade de aproveitar horários em que o espaço estava disponível. O que começou quase como uma experiência chega agora à quarta época. Em setembro, Paula volta a encontrar as mulheres que já treinam consigo e deixa a porta aberta a outras que nunca se sentiram confortáveis num ginásio, que perderam a rotina de exercício ou que preferem mexer-se acompanhadas.
“Quero que estejam à vontade e que percebam que podem fazer exercício ao ritmo delas”, resume. Duas vezes por semana, durante 50 minutos, é essa a regra que continua a organizar o grupo: treinar sem ter de provar nada a quem está ao lado.
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