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Mito ou realidade: afinal, há mães com leite mais fraco?

Entre os fatores que podem gerar dúvidas sobre a eficácia da amamentação estão questões técnicas, como a pega incorreta.

A ideia de que algumas mães têm leite fraco continua profundamente enraizada na sociedade e ainda hoje influencia a forma como muitas mulheres olham para a amamentação, criando inseguranças sobre o crescimento do bebé. A verdade é que isto não passa de um mito, garante Lígia Morais, doula e especialista em aleitamento materno.

Segundo o que conta à NiT, a persistência do mito do leite fraco está ligada a transformações sociais ocorridas durante a Revolução Industrial, período em que muitas mulheres passaram a trabalhar fora de casa e deixaram de conseguir amamentar em livre demanda. A necessidade de alternativas alimentares levou ao desenvolvimento das fórmulas infantis e, paralelamente, à ideia de que o leite materno poderia não ser suficiente.

“Houve uma tentativa de justificar porque é que os bebés precisavam de outro alimento, e a explicação encontrada foi dizer que o leite da mãe não chegava”, afirma. Ainda hoje, acrescenta, essa narrativa mantém-se viva, sobretudo quando o aumento de peso do bebé não corresponde exatamente às tabelas de referência.

No entanto, a avaliação do crescimento deve ser feita de forma individual, tendo em conta fatores como a genética familiar, o comportamento do bebé e a dinâmica da amamentação. Afinal, nem todos os miúdos seguem o mesmo percentil de crescimento, o que não significa necessariamente um problema alimentar. “Muitas vezes olha-se apenas para números e esquece-se de olhar para o bebé real”, refere.

Entre os fatores que podem gerar dúvidas sobre a eficácia da amamentação estão questões técnicas, como a pega incorreta, bem como a ideia de que os bebés devem mamar durante um tempo específico. “Não existe um cronómetro na amamentação”, afirma. “Há bebés que terminam rapidamente e outros que precisam de mais tempo, e ambos estão a fazer exatamente o que precisam”, realça.

A especialista é clara ao afirmar que a qualidade do leite materno não varia entre mães saudáveis. Quando surgem dificuldades, estas estão geralmente associadas ao processo de amamentar e não ao leite em si. Ainda assim, reconhece que existe uma pequena percentagem de mulheres com produção insuficiente devido a características fisiológicas específicas. “Nesses casos não falamos de leite fraco, falamos de produção limitada por razões biológicas.”

Outro equívoco frequente prende-se com o aspeto do leite materno. Muitas mães interpretam um leite mais claro como sinal de menor valor nutritivo, algo que a especialista rejeita. O leite humano altera naturalmente a sua composição ao longo do tempo, adaptando-se às necessidades do bebé. “O leite não é sempre igual porque o bebé também não é sempre igual. Ele transforma-se constantemente.”

Nos primeiros dias após o parto surge o colostro, seguido pelo leite de transição e, posteriormente, pelo leite maduro. Estas mudanças fazem parte de um processo fisiológico normal. A adaptação ocorre não apenas ao longo dos meses, mas também no próprio dia. “O leite da noite ajuda o bebé a relaxar e o leite do dia estimula a atividade”, explica.

A capacidade de adaptação vai ainda mais longe. Quando o bebé adoece, o organismo materno responde automaticamente, ajustando a composição do leite para reforçar a proteção imunológica. “O corpo da mãe recebe informação através da amamentação e responde quase como um sistema inteligente de defesa”, descreve.

Perante dúvidas sobre a quantidade de leite ingerida, Lígia Morais defende que o principal indicador continua a ser o comportamento do bebé, mais do que a duração ou a aparência do leite. “Um bebé satisfeito mostra-o no corpo: fica relaxado, larga a mama ou adormece naturalmente. A mão aberta é muitas vezes o sinal mais simples de que já está saciado.”

Leia o artigo da NiT para descobrir outros mitos sobre a amamentação.

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