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Melhor Projeto FIT do Barreiro combina surf no Tejo e skate no asfalto

A Gasoline foi eleita nos Prémios NiB 2025 como o Melhor Projeto Fit da cidade. Mas as ondas do Tejo correm o risco de desaparecer.

Há algo de poético e ligeiramente surreal em ver alguém de prancha debaixo do braço, a caminhar pelo areal do Bico do Mexilhoeiro, enquanto o perfil industrial do Barreiro desenha o horizonte. Não estamos na Ericeira, nem em Peniche. Aqui, o salitre mistura-se com a história das fábricas e o swell não vem do Atlântico, mas dos motores dos catamarãs que ligam as duas margens do Tejo. E foi ali, onde o Tejo parece adormecido, que Ricardo Carrajola aprendeu a ler a linguagem dos motores.

O percurso da Gasoline não se mede apenas em troféus, mas na escala das suas conquistas improváveis ao longo de mais de uma década. Antes de qualquer distinção oficial, a associação já tinha provado que o Barreiro não tinha limites: foi o tema central de filmes premiados, atraiu um dos maiores surfistas de todos os tempos às suas águas e tornou-se um fenómeno de culto internacional. Em 2025, por votação dos leitores, venceu o Prémio NiB 2025, na categoria de Melhor Iniciativa FiT, um reconhecimento natural e um abraço da própria cidade a um projeto consolidado no imaginário do surf português.

Para entender o que é a Gasoline, é preciso entender a mente de Ricardo Carrajola. Aos 44 anos, este barreirense de gema é o exemplo perfeito da resiliência local. Formado em mecânica industrial, Ricardo habituou-se a olhar para as máquinas e a perceber como funcionam. Quando os antigos cacilheiros foram substituídos pelos modernos catamarãs, a maioria das pessoas viu apenas barcos mais rápidos; Ricardo viu uma oportunidade hidrodinâmica.

A Gasoline é uma associação sem fins lucrativos que utiliza o desporto como ferramenta de coesão social. O nome é uma homenagem crua e honesta à génese da onda: o cheiro a combustível (gasoline) deixado pelos barcos e a line, a linha perfeita que o surfista desenha na parede de água. Com sede num dos moinhos históricos da cidade, a associação funciona como um porto seguro onde os associados pagam uma quota simbólica de 1€ por mês. O objetivo nunca foi o lucro, mas sim garantir que qualquer jovem do Barreiro, independentemente do seu contexto económico, pudesse ter acesso a uma prancha e a um fato.

Do cinema ao altar de McNamara

A história da Gasoline não demorou a extravasar as fronteiras do concelho. O fenómeno das “ondas de barco” gerou curiosidade internacional após um artigo na revista Surf Portugal. Mas o grande salto aconteceu através da Sétima Arte. Quando o festival SAL – Surf at Lisbon convidou Ricardo para colaborar, ele, com a audácia típica de quem não tem nada a perder, afirmou que já estava a gravar um filme para concorrer. Uma jogada criativa que se materializou numa produção real: o filme não só foi feito, como ganhou o prémio de melhor produção nacional no Cinema São Jorge. Foi nesta rampa de lançamento que a Gasoline ganhou estatuto de projeto.

A consagração máxima chegou em 2014, quando Garrett McNamara, o recordista mundial das ondas gigantes da Nazaré, decidiu trocar o canhão de água salgada pela calma do Tejo. Habituado a montanhas de água de 30 metros, McNamara encontrou no Barreiro um desafio técnico inesperado. “Se não fosse o Ricardo a dar-me as dicas de posicionamento, teria sérias dificuldades”, admitiu o surfista. Ver o maior nome do surf mundial a surfar nas barbas da CUF foi a prova de que o segredo do Barreiro era, afinal, um tesouro nacional. A partir daí, a Gasoline começou a ser vista como um símbolo de autenticidade urbana.

A ampliação: onde o asfalto e a cultura se encontram

A Gasoline percebeu cedo que o rio era apenas uma parte da equação. A cultura urbana é feita de múltiplas camadas e a associação soube abraçá-las todas. O skate tornou-se o segundo pilar fundamental da casa. O Skate Park do Parque da Cidade é o monumento vivo desta expansão. Construído num processo do it yourself com a ajuda do atleta da Red Bull Tayran Costa, o parque é o ponto de encontro de gerações.

Todos os meses, no quarto sábado, a Gasoline oferece aulas gratuitas de skate, mantendo viva a chama da modalidade que Ricardo pratica desde miúdo. “Gosto sempre de dizer que o trabalho que desenvolvemos não é voltado para formar atletas, mas para a vivência destes desportos e do território. É a vivência hard core”, explica Ricardo.

Mas o projeto vai mais longe, entrando diretamente nas salas de aula. Através de um protocolo pioneiro com o Agrupamento de Escolas Augusto Cabrita, o surf no Tejo passou a integrar o currículo do curso profissional de desporto. É a educação formal a encontrar a liberdade do rio.

Além disso, a associação tornou-se um polo cultural eclético. A sede recebe exposições de arte urbana, sessões de cinema ao ar livre e eventos que celebram a música e a criatividade local. É um espaço aberto, sem limites de idade, onde se prova que uma associação desportiva pode ser, simultaneamente, uma galeria de arte e um centro de intervenção social. “Estamos sempre abertos para acolher qualquer manifestação cultural”, explica Ricardo.

O grito de alerta: o rio que corre o risco de ficar plano

Mas 2025 chegou com uma encruzilhada para o projeto do surf. A Gasoline enfrenta hoje o seu maior desafio existencial: o desaparecimento da sua matéria-prima. Devido à redução da velocidade de cruzeiro dos catamarãs — uma decisão operacional que visa a eficiência, mas ignora o impacto colateral — a onda que tornou o projeto famoso está a desvanecer-se.

O que antes era uma parede técnica de água é hoje, muitas vezes, apenas uma amostra desses tempos. “E nem sempre conseguimos ter ondas para surfar. Agora depende de muitos outros fatores, inclusive dos que conduzem os barcos. Alguns gostam do nosso projeto e de nos ver na água e ajudam a provocar ondas mais interessantes, mas não é sempre que conseguimos”, explica.

Ricardo Carrajola tem sido incansável na luta para que a velocidade dos barcos volte ao normal, argumentando que a onda do Tejo é um património imaterial da cidade. Já levou o problema às instâncias públicas, alertando que, sem a ondulação artificial, o projeto social perde o seu maior íman de atração para os jovens.

Esta é a nova batalha da Gasoline: garantir que o progresso tecnológico não apaga a identidade desportiva de uma margem que aprendeu a surfar contra a corrente. “No mundo há uma moda de implantação de ondas artificiais. Nós temos aqui uma estrutura natural e estamos prestes a perder isso”, analisa.

O futuro e o reconhecimento

A vitória na categoria de Melhor Iniciativa FIT nos Prémios NiB 2025 é o oxigénio que a associação precisava para continuar a remar. O prémio reconhece não só os resultados desportivos, mas o bem-estar mental e social que a Gasoline proporciona a centenas de jovens. “Não trabalhamos para prémios, mas é interessante ter estas referências. Indicam-nos que estamos a fazer algo bem feito e que contribui para a cidade e para a juventude.”

Os Prémios NiB são a celebração anual do talento e da audácia barreirense. Ao distinguir a Gasoline com o Prémio NiB 2025, os leitores distinguiram a capacidade de um projeto envolver a comunidade para transformar gasóleo em poesia, betão em rampas e um rio parado num mar de oportunidades.

Carregue na galeria para conhecer as atividades da Gasoline.

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