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Este barreirense começou a lutar aos 12 anos. Agora, quer arbitrar nos Jogos Olímpicos

Depois de perder a mãe e a avó, fez das lutas a sua âncora. Foi cinco vezes campeão nacional e trabalhou no Rio 2016 e em Paris 2024.

João Vitor Costa já entrou duas vezes nos Jogos Olímpicos com credenciais ao peito. No Rio de Janeiro, em 2016, trabalhou como voluntário. Em Paris, em 2024, regressou como oficial técnico de Wrestling. Conhece os bastidores, a tensão antes dos combates e a dimensão do maior acontecimento desportivo do mundo, mas continua a faltar-lhe a credencial que procura desde que escolheu a arbitragem. Aos 42 anos, o barreirense quer tornar-se o próximo português a dirigir um combate de Wrestling num tapete olímpico.

A viagem começou longe das grandes arenas. Em 1996, aos 12 anos, João entrou no pavilhão do Galitos Futebol Clube, em Santo André, para experimentar basquetebol. Sofria de bullying na escola e procurava um desporto que lhe desse confiança e capacidade para se defender. O encontro com o mestre Lídio Alecrim desviou-o do cesto e apresentou-lhe as Lutas Olímpicas. A experiência que deveria ocupar um treino atravessou os 30 anos seguintes.

Os primeiros passos na modalidade coincidiram com um período doloroso. João perdeu a mãe e a avó e foi acolhido na Casa dos Rapazes do Centro Social e Paroquial de Santo André. Levou consigo o desporto que acabara de descobrir e proporcionou a vários jovens da instituição o primeiro contacto com as lutas. Enquanto tentava reorganizar a própria vida, o tapete oferecia-lhe um lugar onde a força podia ser treinada, medida e controlada.

“Apesar das sucessivas adversidades, dos momentos de abandono e das mudanças que marcaram o meu percurso, encontrei sempre na modalidade a minha âncora de vida”, recorda. Entre afastamentos e regressos, João recusou deixar que uma interrupção se transformasse no fim da carreira. “Foi através da resiliência, da dedicação e da capacidade de nunca desistir que me mantive ligado às Lutas Olímpicas. Encontrei nelas um espaço de superação, mas também uma força para construir o meu caminho e singrar na vida.”

Cinco títulos e 13 emblemas

A fase competitiva levou-o por 13 clubes e estruturas desportivas de diferentes zonas do País. João conquistou cinco títulos nacionais individuais em Luta Livre Olímpica e Luta Greco-Romana, representou a seleção portuguesa, venceu o Ranking Nacional e recebeu a distinção de Melhor Sénior na gala da Federação Portuguesa de Lutas Amadoras.

Seixal, Moita e Sesimbra estão entre os municípios que já assinalaram o percurso do atleta, também homenageado por alguns dos clubes que representou. O Barreiro, onde nasceu e iniciou a carreira, continua ausente dessa lista de reconhecimentos.

A ligação entre o concelho e as lutas antecede a chegada de João ao Galitos. O arquivo da RTP conserva imagens de um torneio de luta greco-romana realizado no Barreiro, em abril de 1962. O pequeno filme, captado para o Noticiário Nacional, mostra o público no pavilhão, combates e grandes planos dos atletas. Mais de três décadas depois dessa prova, outro miúdo barreirense entrava num clube de Santo André e encontrava a modalidade que o levaria aos Jogos Olímpicos.

Quando competir deixou de ser o centro da carreira, João procurou outras formas de permanecer junto ao tapete. Começou a treinar jovens em 2003, formou campeões regionais e nacionais e participou na criação de secções dedicadas às Lutas Olímpicas. Em Palmela, fundou a Associação JVC Wrestling Academy para desenvolver a modalidade no concelho.

O trabalho cresceu também dentro das estruturas desportivas. João desempenhou funções como diretor técnico regional da Associação de Lutas do Distrito de Setúbal e, entre 2020 e 2024, foi vice-presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Portuguesa de Lutas Amadoras.

Dos combates para a televisão

A experiência acumulada nos clubes encontrou espaço fora dos pavilhões. João criou o blogue “Mundo da Luta Olímpica” e o Prémio Wrestling All Star, colaborou com a revista desportiva “O Praticante” e integrou a equipa de comentadores da Eurosport. Na televisão, explicou Europeus, Mundiais e Jogos Olímpicos a quem via dois corpos em confronto, mas desconhecia o valor técnico de uma projeção, de um controlo ou de um assentamento. Atualmente, escreve sobre MMA no “FightNews”.

A arbitragem começou a ganhar terreno em 2001, quando realizou o primeiro curso de Wrestling. O percurso levou-o à internacionalização através da United World Wrestling, entidade que tutela a modalidade a nível mundial. Em 2016, iniciou também a arbitragem de artes marciais mistas e alcançou a credenciação internacional da International Mixed Martial Arts Federation.

Desde então, João já arbitrou torneios internacionais, campeonatos europeus, africanos e mundiais. É responsável pela arbitragem de MMA e formador da Federação Portuguesa de Lutas Amadoras. Cada nova função prolongou a relação iniciada no Galitos, embora com outras regras e responsabilidades. “Os títulos contam, mas o que realmente define uma carreira é a capacidade de permanecer, evoluir e reinventar o nosso papel”, afirma.

 

 
 
 
 
 
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Da areia ao Senegal

O Beach Wrestling mudou o chão debaixo dos pés e alargou o mapa da carreira. A participação no circuito mundial da United World Wrestling levou João a diferentes países e continentes, onde passou a dirigir combates disputados na areia. As viagens juntaram competição, culturas e pessoas que dificilmente se cruzariam fora do desporto.

“Este percurso permitiu-me participar em competições internacionais, viajar pelo mundo, conhecer novas culturas e pessoas e perceber que, através do desporto, a areia pode ser também uma ponte entre diferentes povos e realidades.”

Essa variante das lutas vai levá-lo, em novembro, aos Jogos Olímpicos da Juventude de Dakar. A competição decorre no Senegal entre 31 de outubro e 13 de novembro e recebe o Beach Wrestling pela primeira vez. As provas estão marcadas para 7 e 8 de novembro, na praia de Saly. João prepara-se para integrar o evento e acrescentar um novo capítulo olímpico ao currículo.

Rio, Paris e o lugar que ainda falta

A primeira participação nos Jogos Olímpicos aconteceu no Rio de Janeiro, em 2016, exatamente 20 anos depois do treino que mudou a sua vida. João esteve no Brasil como voluntário, ao serviço do Wrestling. Oito anos depois, Paris recebeu-o com uma responsabilidade diferente. Regressou ao maior palco do desporto mundial como National Technical Official, função técnica exercida junto da competição.

Na prática, João integrou a equipa que assegurou o funcionamento técnico da competição de Wrestling. A função colocou-o dentro da operação desportiva, junto das áreas reservadas aos atletas e oficiais, mas ainda fora da equipa internacional escolhida para arbitrar os combates. É essa última credencial que procura alcançar.

“Estive no Rio 2016 como voluntário e, oito anos depois, regressei em Paris 2024 como National Technical Official, sempre a servir o Wrestling. Espero que esteja para breve uma nova participação.” A próxima presença terá, se o objetivo for cumprido, um significado distinto. João quer continuar a progredir na hierarquia internacional da United World Wrestling, alcançar novos patamares na arbitragem da IMMAF e tornar-se o próximo português a arbitrar Wrestling num tapete olímpico.

Quando a New in Barreiro perguntou se há chances deste sonho ser realizado já nos próximos jogos em 2028, João é realista: “Na próxima edição dos Jogos Olímpicos será difícil estar, mas em 2032, espero que seja a minha vez. Para isso deverei conseguir realizar todos os requisitos difíceis da UWW para poder ser selecionado”, explica.

Se o nome de João Vitor Costa vier a surgir entre os árbitros de uma próxima edição dos Jogos Olímpicos, a estreia terá começado muito antes da convocatória internacional. Começou num pavilhão de Santo André, com um rapaz de 12 anos que entrou à procura do basquetebol e encontrou um lugar do qual, 30 anos depois, ainda se recusa a sair.

Carrega na galeria para conhecer um pouco mais da trajetória do João Vitor Costa.

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