Portugal é conhecido como um País soalheiro. Quando está sol, passam-se horas em esplanadas, jardins e, claro, na praia, um dos cenários favoritos dos portugueses ao longo do ano. No entanto, tem vindo a crescer um fenómeno que está a ter impacto direto na saúde de muitas pessoas: a heliofobia. O termo descreve o medo da exposição ao sol e, segundo Andreia Monteiro, especialista em medicina preventiva da Clínica Pilares da Saúde, é hoje muito comum na Europa e no mundo — 2,3 por cento da população sofre deste problema.
Esse receio, alimentado ao longo de vários anos por alertas — muitos deles legítimos — sobre os perigos da radiação solar, está a levar a um paradoxo difícil de ignorar: mesmo num País com muitas horas de sol por ano, Portugal apresenta níveis elevados de défice de vitamina D na população.
Esta vitamina é produzida no nosso corpo através da exposição aos raios ultravioleta B, um tipo específico de radiação solar. “É uma hormona produzida por todas as células do nosso corpo e é fundamental para várias funções, como a saúde óssea, o sistema imunitário e o equilíbrio hormonal”, conta à NiT a especialista.
O que muitos não sabem é que “nem todo o sol é igual”. No inverno, devido à inclinação com que os raios solares chegam ao nosso território, a radiação UVB é insuficiente para garantir uma produção adequada de vitamina D.
No verão, por sua vez, muitos portugueses passam os dias fechados em escritórios, transportes e casas, o que reduz drasticamente o tempo de exposição solar eficaz. “As pessoas pensam que no verão não precisam de fazer nada porque estão a produzir vitamina D suficiente por causa do calor, mas isso não é verdade”, alerta.
Há ainda outro fator determinante para este problema: o uso constante de protetor solar. Apesar de ser essencial para prevenir queimaduras e reduzir o risco de cancro de pele, estes produtos bloqueiam a produção da vitamina. O mesmo acontece quando se apanha sol através de uma janela ou quando o corpo está coberto com roupa. O resultado “é um défice silencioso, mas com consequências profundas para a saúde”.
Entre as mais conhecidas estão as doenças ósseas. Nos países nórdicos, onde o sol é, muitas vezes, raro, todos os miúdos recebem suplementação de vitamina D até aos cinco anos. “Há uma consciência clara de que se não forem suplementados podem desenvolver raquitismo, uma condição infantil caracterizada por deformações ósseas”, explica.
Nos adultos, a carência pode manifestar-se como osteomalácia, uma dor óssea profunda e persistente que muitas pessoas não sabem explicar. Nos idosos, o problema mais comum é a osteoporose, que aumenta o risco de fraturas.
Mas os efeitos da falta de sol vão muito além dos ossos. A vitamina D desempenha um papel central no sistema imunitário e influencia a ativação de células de defesa como os neutrófilos, que ajudam a fortalecer a imunidade.
Os défices estão associados a infeções frequentes, inflamação crónica e também a patologias autoimunes. Nestes casos, o corpo deixa de proteger o organismo e começa a atacá-lo. “O paciente pode ter a doença adormecida e ela manifesta-se devido à falta de vitamina D, que funciona como um gatilho”, explica.
A nível hormonal, o impacto é igualmente significativo. Afinal, esta vitamina está na base da produção e regulação das hormonas sexuais, e a sua deficiência pode contribuir para desequilíbrios graves. “Temos pessoas jovens a entrar em menopausa precoce devido a esta carência”, refere Andreia Monteiro, sublinhando que este défice afeta praticamente todo o corpo.
Nada disto invalida os riscos reais da exposição solar excessiva. O cancro da pele continua a ser uma ameaça, sobretudo quando há exposição prolongada nas horas de maior intensidade solar e sem proteção adequada.
A questão, segundo a médica, não é evitar os raios ultravioleta a todo o custo, mas aprender a usá-los de forma inteligente. A recomendação passa por sair de casa sem protetor solar durante um curto período, suficiente para estimular a produção da vitamina D, e só depois aplicar a proteção. “Pessoas de pele mais clara precisam de menos tempo; pessoas de pele mais escura precisam de mais”, explica.
Para saber quando se deve proteger, basta olhar para a pele. Quando começar a ficar ligeiramente vermelha, está na hora de o protetor solar entrar em ação. Os suplementos também são, claro, uma boa aposta.

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