Numa antiga zona industrial do Barreiro, um armazém com cerca de mil metros quadrados continua a produzir. Já não sai dali matéria química, nem maquinaria pesada, mas pintura, escultura, tecelagem, metal, investigação e circulação internacional de artistas. Instalado no Parque Industrial da Baía do Tejo, a PADA Studios ocupa um espaço onde o passado industrial não foi apagado para dar lugar à arte: foi absorvido por ela.
Desde 2018, a estrutura transformou-se num centro de residências artísticas que já recebeu mais de 500 criadores de vários países. No próximo dia 28 de março, volta a abrir as portas ao público para mostrar o resultado mais recente desse movimento contínuo.
A exposição final da Residência 56, com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues, reúne trabalhos desenvolvidos ao longo de dois meses por um grupo internacional de artistas que esteve a trabalhar no Barreiro.
Ao mesmo tempo, os open studios vão permitir visitar os ateliers e perceber melhor como funciona este lugar singular: uma estrutura independente, sem fins lucrativos e gerida por artistas, onde o processo importa tanto como a obra final.
Mais do que um conjunto de estúdios, a PADA foi-se afirmando como um ponto de contacto entre geografias, linguagens e contextos. Um lugar onde a arte circula, se discute e se contamina. Um nó cada vez mais forte, se imaginarmos a arte como uma rede que envolve o mundo.
A New in Barreiro foi conhecer a PADA para entender melhor este verdadeiro acelerador de partículas criativas. A estrutura foi criada pelo artista Tim Ralston, vindo de uma Londres saturada, que encontrou nestes armazéns a escala necessária para a liberdade.
O que antes servia para processar químicos, hoje processa conceitos. A visita foi guiada por Tânia Geiroto Marcelino e Fábio Nóbrega, dois dos quatro rostos que gerem este ecossistema. Ambos descrevem o espaço como uma estrutura viva.
“Isto é um grande laboratório”, explicam, enquanto percorremos os corredores onde o pó do mármore convive com o brilho da seda. A arte surge aqui como uma necessidade física de ocupação.

À primeira vista, a escala impõe-se. São dois pisos, mezzanine, galeria, oficina, cozinha comum, biblioteca, áreas de estar, estúdios e espaço de investigação. Há dez ateliers destinados à residência internacional, um espaço para a Bolsa Barreiro, outro para antigos residentes que regressam para dar continuidade a projetos, e ainda um programa pensado para quem trabalha sobretudo com escrita, curadoria ou investigação.
Em plena capacidade, a PADA pode acolher 13 artistas ao mesmo tempo. A estrutura foi sendo afinada nos últimos anos, mas a lógica central manteve-se: oferecer tempo, espaço e condições de trabalho num ambiente colaborativo, instalado num território com forte densidade histórica.
É precisamente essa combinação que explica parte da singularidade do projeto. A PADA não está num bairro criativo montado de raiz, nem num edifício neutralizado para receber arte contemporânea. Está num antigo parque industrial com raízes no século XIX, num espaço onde a escala fabril ainda se sente nas paredes, na arquitetura e na envolvente.
Esse contexto não aparece apenas como pano de fundo. Entra no trabalho. A equipa faz questão de apresentar o Barreiro aos artistas que chegam, não apenas como cidade de acolhimento, mas como matéria ativa de reflexão e criação.
Tânia Geiroto Marcelino, curadora da estrutura, descreve esse processo como uma forma de criar condições para que o trabalho se faça em diálogo e não em isolamento.
“Existe sempre a possibilidade de aprendizagem entre pares e isso é uma prioridade nossa”, diz. Tânia reforça que há um esforço deliberado de mediação: mostrar a cidade, aproximar os residentes da cena artística local, organizar visitas, apresentar infraestruturas, criar pontes com galerias, fornecedores, instituições e outros espaços expositivos.
Fábio Nóbrega, gestor de comunicação, resume essa dinâmica de forma mais direta: “Acaba por ser uma pequena comunidade artística.” A estrutura vive da intensidade das relações que consegue criar entre as pessoas e entre essas pessoas e o lugar onde estão.
Esse lugar, neste caso, é o Barreiro. E essa não é uma relação decorativa. Ao longo da conversa, tanto Tânia como Fábio insistiram na importância do contexto local. Os artistas são levados ao Museu Industrial, percorrem a zona envolvente, conhecem a história do parque, percebem o que foi aquele território e o que ainda resta dessa memória.
Muitos acabam por trabalhar a partir dessa matéria, seja de forma mais direta, ou através de objetos encontrados, estruturas reaproveitadas ou referências ao passado industrial que os rodeia durante a residência.
A arte como rede e o Barreiro no centro
É aqui que a PADA se torna mais interessante do que um simples programa de residências. O projeto não recebe apenas artistas vindos de fora. Organiza uma rede e coloca o Barreiro num ponto de passagem que dificilmente teria sem uma estrutura deste tipo. Este movimento cria um sistema de contatos, trocas, referências e continuidades que ligam esta margem sul a circuitos artísticos mais amplos.
Na residência 56, por exemplo, estão artistas do Canadá, Portugal, Venezuela, Espanha, Estados Unidos, Austrália, Irlanda, Alemanha e Reino Unido. A lista vai além de uma soma de nacionalidades e mostra a amplitude geográfica que um espaço deste género já conseguiu alcançar a partir do Barreiro.
Segundo a equipa, mais de dois mil artistas candidataram-se ao projeto desde o seu início. Mais de 500 já passaram por ali. O número, por si só, ajuda a medir a dimensão do que foi construído num espaço que, fora dos circuitos especializados, continua relativamente desconhecido de uma parte do público.
PADA abre espaço para artistas locais
Há, porém, outro dado importante. A PADA não se limita a receber artistas estrangeiros. Ao longo dos últimos anos, foi criando programas para equilibrar essa circulação com mecanismos de inserção local e nacional.
A Bolsa PADA destina-se a artistas portugueses ou residentes permanentes em Portugal e integra-os na residência internacional. A Bolsa Barreiro, apoiada pela Câmara Municipal, foi criada para artistas plásticos originários ou radicados no concelho.
Há ainda uma bolsa dirigida a artistas ligados a Odemira. A ideia é usar a estrutura internacional para abrir espaço a quem está mais perto, mas nem sempre tem os mesmos recursos para aceder a este tipo de programas.
Essa lógica torna-se particularmente visível no caso da Bolsa Barreiro. Todos os anos, três artistas locais emergentes passam pelo programa principal durante três meses cada.
No fim do ciclo anual, apresentam o seu trabalho numa exposição colectiva. É uma forma de criar continuidade com o território e evitar que a residência se transforme num corpo estranho dentro da cidade. Pelo contrário: a ideia é fazer com que a cidade entre no projecto e o projecto devolva alguma coisa à cidade.

Esse movimento já produziu resultados concretos. Durante a conversa, a equipa recordou o caso de uma artista cuja obra, desenvolvida a partir da experiência na residência e fortemente inspirada no que viu no Museu Industrial, vai integrar a colecção permanente do próprio museu.
A peça, explicaram, nasceu do contacto com as máquinas, com a memória do espaço e com a história industrial do Barreiro. É um exemplo feliz do que a PADA tem vindo a tentar fazer: transformar a residência num ponto de encontro onde a cidade não serve apenas de cenário, mas deixa marca efetiva na obra.
Há também outra dimensão menos evidente, mas importante, nesta rede. Nem todos chegam para pintar ou esculpir. Um dos programas acolhe investigadores, curadores e escritores. É o caso de Dedipta Bhattacharjee, atualmente em residência de investigação.
Durante a visita, a equipa falou dela como exemplo de uma presença que amplia o tipo de trocas possíveis dentro do espaço. A investigadora e poeta, ligada a Nova Iorque, está a trabalhar questões relacionadas com feminismo, linguagem e escrita, cruzando a investigação com a poesia.
A sua presença ajuda a perceber que a comunidade da PADA não se constrói apenas entre quem partilha técnicas manuais ou processos visuais, mas também entre quem traz outras formas de pensamento e criação.
O que vai acontecer a 28 de março
A exposição final da residência 56 abre ao público a 28 de março, entre as 18 e as 21 horas, no número 2 da Rua 42, no Parque Industrial do Barreiro. Mais do que mostrar peças concluídas, o momento serve para abrir temporariamente a estrutura a quem a queira conhecer de perto.
Os open studios permitem entrar nos espaços de trabalho, ver materiais, perceber processos e aproximar-se de um tipo de criação que normalmente chega ao público já filtrado pela montagem final. Aqui, essa distância reduz-se.
Participam nesta edição Aralia Maxwell (Canadá), Beatriz Santos (Portugal), Gerardo Ros (Venezuela), Janna Yotte (Canadá), Laura Armengol (Espanha), Nickolas Roblee-Strauss (EUA), Nicole Clift (Austrália), Silvia Koistinen (Irlanda), Theresa Goessmann (Alemanha) e Zhengwei Li (UK).
Em paralelo, a residência de investigação acolhe Dedipta Bhattacharjee (EUA) e a Bolsa Barreiro está atualmente a ser desenvolvida por Cristiano Spencer (portugal), conhecido como Sculptural Cr1sys.
O conjunto confirma aquilo que a PADA tem procurado construir: um programa suficientemente aberto para juntar práticas e percursos distintos, sem diluir a exigência do trabalho
O que se vai ver a 28 de março será, por isso, apenas uma parte da história. A parte visível. A outra começou muito antes da montagem final: nas apresentações entre artistas, nas conversas de acompanhamento, nas visitas ao Barreiro, nas idas ao museu, nos materiais encontrados pelo caminho, nas oficinas, nas trocas informais, nas tentativas falhadas, nos ajustes de última hora.
É essa dimensão processual que dá ao projecto a sua densidade e transforma um antigo armazém industrial num dos pontos mais improváveis e sólidos de circulação artística em Portugal.
Carregue na galeria para conhecer a PADA Studios.

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