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Veio do Bangladesh, fundou uma startup no Barreiro e quer conquistar a Web Summit

Sk Mehedi Hasan Akash chegou a Portugal em 2023, escolheu o Barreiro para viver e prepara-se agora para levar a startup UINQO à Web

Antes de haver uma startup, seis agentes de Inteligência Artificial (IA) ou uma participação na Web Summit, houve uma viagem de barco entre Lisboa e o Barreiro que fez Sk Mehedi Hasan Akash abrandar o suficiente para imaginar que talvez pudesse construir ali a vida que tinha vindo procurar em Portugal. Vinha do Bangladesh, tinha passado mais de uma década a trabalhar como programador e chegara ao País poucas semanas antes.

Durante a travessia do Tejo reparou no rio, na paisagem e, sobretudo, na sensação de pausa. Do outro lado encontrou uma cidade que, recorda, “não tentou impressionar-me”. Gostou disso. “O Barreiro parecia real. Foi suficiente.”

Akash tinha 31 anos quando se instalou na cidade, a 1 de outubro de 2023, pouco mais de um mês depois de chegar a Portugal. Hoje tem 34, vive no Barreiro e prepara-se para levar à Web Summit uma empresa que nasceu sem investidores, sem uma grande equipa e sem aqueles milhões que costumam acompanhar as histórias mais vistosas do universo das startups.

A UINQO cresce com dinheiro gerado pelo próprio trabalho do fundador e com uma estrutura que parece quase uma provocação à lógica tradicional das empresas tecnológicas: duas pessoas e seis agentes de IA. A melhor maneira de perceber o que Akash está a tentar construir talvez seja deixá-lo fazer o que terá de repetir muitas vezes durante a Web Summit: explicar a UINQO rapidamente a alguém que acabou de conhecer.

“Todos os eventos profissionais do mundo geram milhares de cartões de visita e quase nenhum seguimento. A UINQO é a primeira aplicação que fecha essa lacuna — digitaliza um contacto, recebe um e-mail e marca uma reunião, tudo em menos de dois minutos. Temos 200 utilizadores em seis países, estamos a crescer sem orçamento de marketing e queremos chegar a todos os profissionais alguma vez participaram numa conferência.”

A ideia nasceu de uma irritação muito menos sofisticada do que a tecnologia usada para resolvê-la. Akash frequentava eventos profissionais, trocava contatos, prometia falar novamente com pessoas e chegava a casa com o telemóvel cheio de nomes aos quais acabava por nunca escrever. Via acontecer o mesmo com os outros. O cartão era entregue, a conversa parecia promissora e, alguns dias depois, desaparecia no meio do trabalho quotidiano. “O obstáculo não é a intenção, mas o esforço”, diz.

A UINQO tenta retirar esse esforço do caminho. Um contacto pode ser digitalizado, guardado com informação sobre a pessoa e acompanhado por notas sobre a conversa. A aplicação prepara depois o seguimento, ajuda a redigir a mensagem e permite avançar para uma reunião. Para Akash, o produto começa onde termina a troca tradicional de contatos: naquele momento em que quase toda a gente sabe que deveria escrever a alguém, mas adia até esquecer.

Construir essa solução parecia um passo natural para alguém que programa profissionalmente desde 2011, embora o percurso até aqui tenha passado longe de uma carreira académica convencional. Akash entrou em Engenharia Informática no Bangladesh e abandonou o curso durante o terceiro ano. Guarda a formação como uma base importante, mas atribui aos anos seguintes o que considera a verdadeira aprendizagem. “A sala de aula dá-nos teoria, o trabalho dá-nos instinto.”

Durante cerca de 13 anos trabalhou em desenvolvimento web, aplicações, automação, segurança e arquitetura de servidores, muitas vezes como freelancer e para clientes de diferentes países. Passou boa parte desse período a construir produtos pensados por outras pessoas, até começar a sentir vontade de experimentar o contrário: decidir o problema, desenhar a solução e assumir também o risco de descobrir se alguém estaria disposto a usá-la.

A saída do Bangladesh nasceu dessa inquietação. Depois de mais de uma década a trabalhar a partir do País, queria perceber se conseguiria construir algo para competir internacionalmente. Portugal chamou-lhe a atenção pela ligação ao mercado europeu e pelo ecossistema tecnológico que encontrava em crescimento. Chegou a 20 de agosto de 2023. A mudança para o Barreiro veio pouco depois.

A escolha acabou por influenciar a própria possibilidade de criar a empresa. Num negócio financiado com recursos próprios, a diferença entre gastar mais numa estrutura ou canalizar esse dinheiro para o produto ganha outra dimensão. Akash encontrou no Barreiro custos mais baixos, ligação rápida a Lisboa e um ritmo que lhe permitia trabalhar com concentração.

“O Barreiro escolheu-me mais do que eu o escolhi”, conta. “Quando cheguei a Portugal, procurava um sítio onde me pudesse concentrar e construir sem o ruído e o custo de uma grande cidade.” Existe também uma dimensão menos contabilizável na relação que criou com a cidade. Akash diz que encontrou uma comunidade onde nunca se sentiu estrangeiro, algo a que atribui importância num período em que estava simultaneamente a adaptar-se a outro País e a tentar construir uma empresa do zero.

Foi também no Barreiro que recebeu um tipo de ajuda que, para alguém sem investidores, pode valer tanto como um cheque. A StartUp Barreiro disponibilizou-lhe espaço de trabalho e mentoria. Akash fala desse apoio como uma das condições que tornaram os primeiros tempos da UINQO menos pesados. “Para um fundador que se financia a si próprio faz uma diferença enorme. É o tipo de apoio ao qual é difícil atribuir um preço. Sem eles, as fases iniciais da UINQO teriam sido muito mais difíceis.”

O dinheiro continua, aliás, a atravessar a história da empresa de uma maneira pouco habitual num setor habituado a medir sucesso pela dimensão das rondas de investimento. Quando questionado que pergunta gostaria que um jornalista lhe fizesse, Akash escolheu uma que raramente ocupa os títulos sobre startups: “Como se constrói uma startup tecnológica quase sem orçamento e sem financiamento de investidores?”

A resposta ajuda a explicar tudo o que veio antes. A UINQO é paga com receitas da Jetboosters, a empresa de serviços tecnológicos de Akash. Em vez de contratar uma equipa numerosa, o fundador começou a criar agentes de IA para executar tarefas de investigação, conteúdo, testes e automação. É daí que surge a estrutura atual de duas pessoas e seis agentes.

“As limitações forçam a criatividade. Quando não se pode fazer as coisas da forma cara, encontram-se formas mais inteligentes. E, por vezes, acabam por ser melhores.”

O fracasso faz parte do caminho para chegar ao sucesso

Essa ideia de continuar com o que existe, em vez de esperar pelas condições ideais, aparece várias vezes quando Akash fala sobre o próprio percurso. A origem dessa forma de encarar o trabalho, porém, leva-o de volta ao Bangladesh e a duas pessoas que ficam distantes do imaginário das startups. “Os meus pais. Quero dar-lhes todo o crédito.”

Da mãe, Akash diz ter aprendido a acreditar em si próprio e em Deus. É nela que pensa quando descreve a confiança necessária para continuar durante períodos em que nada parece funcionar e ninguém consegue garantir que o projeto terá futuro. Do pai ficou outra frase, repetida ao longo dos anos: o fracasso faz parte do caminho para chegar ao sucesso. “Carrego ambas as lições em cada projeto que construo.”

Talvez seja também por isso que a entrada na Web Summit tem um peso que vai além da possibilidade de exibir uma aplicação. A UINQO chegará ao evento com pouco mais de 200 utilizadores em seis países e uma equipa mínima, enquanto à volta vão estar startups financiadas por milhões, investidores internacionais e grandes empresas tecnológicas. Akash conhece essa diferença de escala e fala dela sem tentar disfarçá-la.

“Somos uma equipa pequena, estamos sediados no Barreiro e não num grande hub tecnológico, e competimos com empresas que já angariaram dezenas de milhões de euros.” A estratégia que encontrou cabe numa frase: “Não podemos ganhar pelo orçamento, por isso ganhamos pelo foco.”

Na Web Summit, quer sobretudo encontrar clientes e parceiros capazes de colocar a UINQO dentro de empresas e eventos. Investidores e visibilidade também interessam, mas aparecem depois. “Os investidores seguem a tração”, diz. O plano é chegar ao encontro com um produto funcional e histórias reais de utilização, em vez de uma ideia à espera de dinheiro para começar.

Até ao final de 2027, quer clientes empresariais em, pelo menos, três países europeus e pretende tornar a UINQO reconhecida entre profissionais que frequentam conferências. Para daqui a dez anos, imagina-a integrada na rotina de um advogado em Lisboa, de um diretor comercial em Berlim ou de um consultor em São Paulo, usada com a naturalidade com que hoje se abre um calendário.

Antes de tudo isso, porém, existe uma imagem mais pequena e talvez mais reveladora da história: um homem que chegou sozinho a um País novo, atravessou o Tejo de barco, gostou da cidade que encontrou do outro lado e resolveu ficar. Menos de três anos depois, Akash continua a fazer a mesma travessia entre o Barreiro e Lisboa, mas agora leva consigo uma empresa que começou quase sem dinheiro e uma oportunidade de descobrir até onde ela consegue chegar.

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