cultura

Um dos festivais mais ousados da Europa movimenta o Barreiro e traz uma lenda do Japão

O OUT.FEST, festival internacional de música exploratória, regressa com quatro dias de concertos, 11 espaços e artistas de vários continentes.

Durante quatro dias, o Barreiro vai caber num mapa musical que começa numa conferência sobre música e deficiência, passa por uma máquina de tricô transformada em réquiem, atravessa a Indonésia, o Japão, a Gâmbia, o Brasil e a Venezuela e termina com uma descarga audiovisual saída da cabeça de uma das figuras mais imprevisíveis da música japonesa. É uma boa forma de apresentar o OUT.FEST 2026 sem tentar arrumar o festival dentro de um género.

Entre 1 e 4 de outubro, a 22.ª edição do Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro espalha-se por 11 espaços da cidade e volta a fazer aquilo que, desde 2004, se tornou a sua assinatura. Em vez de construir um recinto, ocupa auditórios, coletividades, uma biblioteca, uma oficina automóvel, a Quinta do Braamcamp, espaços associativos e ateliers. A música também escapa às divisões habituais, saltando da improvisação para a eletrónica, do free jazz ao noise, da música contemporânea ao rap, do metal ao clubbing e a territórios que ainda resistem a uma etiqueta. A organização contabiliza mais de 400 concertos desde a primeira edição e artistas oriundos de todos os continentes.

“Queremos continuar a oferecer elitismo para todos – sem simplificar, sem dar mais do mesmo, sem acreditar que as pessoas só gostam daquilo que já conhecem”, aponta Rui Pedro Dâmaso, diretor artístico da OUT.RA, que organiza o festival. E defende: “Temos de continuar a ser um pequeno espelho de uma forma de estar no mundo mais aberta e mais curiosa – e queremos que o Barreiro, pelo menos durante estes quatro dias, seja efetivamente uma Capital da Cultura.”

Ao longo de mais de duas décadas, o OUT.FEST conquistou reconhecimento fora de Portugal. A plataforma europeia tekhnē apresenta-o como um dos principais acontecimentos de música experimental do continente, enquanto a britânica “The Quietus” já destacou a ligação pouco habitual entre a programação, os músicos e a própria cidade. A presença em redes europeias dedicadas à criação de vanguarda, como a SHAPE+, coloca o projeto barreirense no mesmo circuito de festivais como o CTM, em Berlim, o Rewire, em Haia, ou o Unsound, em Cracóvia.

A edição deste ano já tinha começado a revelar alguns dos nomes que viriam ao Barreiro. Agora, o programa está fechado e mostra com maior nitidez a dimensão da viagem 2026. O cartaz junta artistas de Portugal, Estados Unidos, Indonésia, Brasil, Japão, Austrália, Venezuela, Bélgica, Reino Unido, Gâmbia e outros pontos de uma geografia musical que atravessa vários continentes.

Do Japão à Indonésia: um cartaz é feito de muitos mundos

Entre os nomes que ajudam a medir o peso desta edição do OUT.FEST está Yamantaka Eye, figura histórica da experimentação japonesa. Chega ao Barreiro com ∈Y∋ + C.O.L.O, novo projeto que se apresenta pela primeira vez em Portugal e encerra o festival na noite de domingo.

Outro dos grandes destaques é Pink Siifu, rapper norte-americano que tem cruzado hip-hop, jazz, punk e produção experimental e que atua pela primeira vez a sul do Tejo. Klein regressa ao OUT.FEST depois de se afirmar como uma das autoras mais singulares da última década na desconstrução de linguagens ligadas ao R&B, ambient e noise.

EYE @ Marc Broussely_Redferns
Yamantaka Eye, artista histórica da experimentação japonesa.

A lista continua com os indonésios Senyawa, conhecidos pelo encontro entre tradições musicais do seu país, voz extrema e instrumentos construídos pelos próprios músicos; os brasileiros DEAFKIDS, que regressam ao Barreiro com novo disco e o trio formado pelas norte-americanas Whitney Johnson, Lia Kohl e Macie Stewart, em estreia nacional depois do lançamento de “BODY SOUND”.

A programação reserva ainda espaço para a obra de Phill Niblock, compositor e cineasta fundamental da música minimalista e experimental, através de uma instalação e de peças interpretadas por Rafael Toral, Manuel Mota, Margarida Garcia e André Gonçalves.

O primeiro dia, 1 de outubro, abre longe da imagem tradicional de um festival. A Casa da Cidadania Cabós Gonçalves recebe a conferência “These Abilities: Perspectives on Music & Disability”, dedicada às relações entre música e deficiência. Ao final da tarde começa, em O Espaço, a instalação “The Movement of People Working”, de Phill Niblock. A noite segue para o Auditório Municipal Augusto Cabrita, com Xavier Paes e Inês Tartaruga Água e o trio Whitney Johnson, Lia Kohl e Macie Stewart, antes de Paixão fechar o percurso em O Espaço.

Na sexta-feira, dia 2, a programação do OUT.FEST cresce em volume e velocidade. Os Penicheiros recebem obras de Phill Niblock interpretadas por André Gonçalves, Manuel Mota, Margarida Garcia e Rafael Toral, seguidas por JJJJJerome Ellis. A partir das 22 horas, a ADAO concentra uma das noites mais fortes do festival, com Klein, _farming, DEAFKIDS, Senyawa, Pink Siifu e Josey Rebelle.

O sábado será o dia mais extenso e disperso. Começa de manhã, na Quinta do Braamcamp, com o passeio sonoro “Backstage”, de Alëna Koleso, e continua pela Biblioteca Municipal, Penicheiros, Sala 6, Atelier Botânico Ana Oliveira, oficina Ruiforauto, Gasoline e ADAO. Pelo caminho surgem nomes como Maggie Nicols, Manja Ristić, Demdike Stare & Cherrystones, Karen Willems, NikNak, Guttersnipe, Slikback e Deli Girls.

Uma das propostas mais invulgares acontece dentro de uma oficina automóvel. Bujiwa, Sofia Nunes e Marta Nunes apresentam “Réquiem para uma máquina de tricô”, com duas sessões na Ruiforauto. Pouco depois, a programação divide-se entre concertos e atuações na Gasoline e na ADAO até perto das duas da manhã.

O domingo, a manhã regressa à Quinta do Braamcamp e a tarde passa pela instalação de Phill Niblock, pela Biblioteca Municipal e pelos Penicheiros, onde atuam Megabasse, Susana Santos Silva com Oren Ambarchi e Shane Parish. Este último leva ao Barreiro “Autechre Guitar”, trabalho em que transpõe para guitarra acústica música da dupla eletrónica Autechre.

O encerramento acontece na ADAO. Xavier Paes e Inês Tartaruga Água abrem a última sequência, seguidos por Carla dal Forno e pelos venezuelanos Weed420. Às 22h40 entra em cena ∈Y∋ + C.O.L.O.

Os bilhetes já estão à venda. O passe geral para os quatro dias custa 65€, enquanto os bilhetes diários ficam por 12€ para 1 de outubro, 24€ para dia 2, 35€ para sábado e 22€ para domingo.

Durante o festival haverá também bilheteiras nos próprios espaços, com horários diferentes em cada dia. Parte do programa tem entrada gratuita, incluindo a conferência “These Abilities”, a instalação de Phill Niblock, o passeio sonoro de Alëna Koleso, as sessões “Listening Room: Sub Rosa” e o “Réquiem para uma máquina de tricô”. O acesso às propostas gratuitas fica sujeito à lotação e o passeio sonoro exige inscrição prévia. Todos os espetáculos têm classificação M/6.

Tome nota do cartaz completo do OUT.FEST.

Quinta-feira, 1 de outubro

Casa da Cidadania Cabós Gonçalves
10 às 17 horas — These Abilities: Perspectives on Music & Disability

O Espaço
18 à 1 da manhã — Phill Niblock — The Movement of People Working

Auditório Municipal Augusto Cabrita
21h15 — Xavier Paes & Inês Tartaruga Água — Berrante
21h45 — Whitney Johnson, Lia Kohl, Macie Stewart

O Espaço
23 horas — Paixão — convivium

Sexta-feira, 2 de outubro

O Espaço
15 às 22 horas — Phill Niblock — The Movement of People Working

Atelier Botânico Ana Oliveira
17h30 — Xavier Paes & Inês Tartaruga Água — Passage to Crystallization

SIRB Os Penicheiros
18 horas — Phill Niblock — G2,44 & First Out E, por André Gonçalves, Manuel Mota, Margarida Garcia & Rafael Toral
19h10 — JJJJJerome Ellis

ADAO
22 horas — Klein
22h45 — _farming
23h30 — DEAFKIDS
00h15 — Senyawa
1 da manhã — Pink Siifu
02h05 — Josey Rebelle

Sábado, 3 de outubro

Quinta do Braamcamp
11 horas — Alëna Koleso — Backstage

O Espaço
15 às 22 horas — Phill Niblock — The Movement of People Working

Biblioteca Municipal do Barreiro
15h30–16h40 — Listening Room: Sub Rosa, com Guy-Marc Hinant

SIRB Os Penicheiros
16 horas — Manja Ristić
17 horas — John Also Bennett
18 horas — Rita Silva & Mbye Ebrima
19 horas — Demdike Stare & Cherrystones

Sala 6
17 horas — sa🎀ra
17h55 — Maggie Nicols

Oficina Ruiforauto
17h15 e 18h10 — bujiwa, Sofia Nunes & Marta Nunes — Réquiem para uma máquina de tricô

Atelier Botânico Ana Oliveira
19 horas — Xavier Paes & Inês Tartaruga Água — Variações para piões nº1

Gasoline
20h15 — Engrenagem Necrofilia
21h05 — Junkie Money presenting Bloodyfranko, G6Revy, xandre, ukiyø, HeyRicoo, Littleboy55k, 1Goshi, Xando, wi1nter, Oxyn, DJ Frescodrip
22h05 — Slikback
23 horas — BLEID

ADAO
22 horas — Karen Willems
22h45 — NikNak
23h30 — Guttersnipe
00h15 — TNL
01 hora — Deli Girls
01h50 — Helviofox

Domingo, 4 de outubro

Quinta do Braamcamp
11 horas — Alëna Koleso — Backstage

O Espaço
14 às 20 horas — Phill Niblock — The Movement of People Working

Biblioteca Municipal do Barreiro
15h30–16h40 — Listening Room: Sub Rosa, com Guy-Marc Hinant

SIRB Os Penicheiros
16h45 — Megabasse
17h45 — Susana Santos Silva & Oren Ambarchi
18h45 — Shane Parish — Autechre Guitar

ADAO
20h15 — Xavier Paes & Inês Tartaruga Água — Puro Spirito
20h45 — Carla dal Forno
21h40 — Weed420
22h40 — ∈Y∋ + C.O.L.O

Carregue na galeria para ver imagens do OUT.FEST 2025.

ARTIGOS RECOMENDADOS