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Quem é a artista que está a desenhar à mão todos os artistas das Festas do Barreiro

A arquiteta e ilustradora acompanha os concertos com papel e aguarelas e entrega a cada músico um retrato feito durante a atuação.

Na quarta-feira em que milhares de pessoas estavam com os olhos postos no eclipse, Daniela Azul Luís fez algo bastante menos contemplativo: pegou no telemóvel e enviou uma mensagem para o Instagram das Festas do Barreiro. Tinha uma ideia ainda sem forma definida. Em vez de acrescentar mais fotografias às imagens que seriam feitas durante os dez dias de concertos, propunha sentar-se diante do palco, abrir o caderno e desenhar à mão quem por ali passasse. A resposta chegou depressa. Disseram-lhe que sim.

Dois dias depois, enquanto Julinho KSD atuava para uma multidão no Palco das Marés, havia alguém nos bastidores a tentar apanhar em traços rápidos o que uma câmara resolve numa fração de segundos. “Ando a enviar mensagens a muitas pessoas a apresentar o meu trabalho e deixei de ter medo de perguntar. Mesmo que me digam que não, penso: pelo menos tentei”, conta Daniela Luís, de 35 anos, à New in Barreiro.

“Na quarta-feira, quando estávamos a ver o eclipse, mandei contactei as Festas do Barreiro e disse que podia ser interessante oferecer aos artistas algo diferente, aproveitar também os artistas da terra.”

Nasceu assim, quase em cima da abertura das Festas, um projeto que vai acompanhar as dez noites do Palco das Marés. Daniela desenha os músicos enquanto eles atuam e, no final, entrega-lhes um retrato. O calendário começou a 14 de agosto com Julinho KSD, passou no sábado pela Noite Funk e continuou este domingo, 16, com Satiro e na segunda, Irina Barros. Até 23 de agosto, o palco recebe ainda, Bandidos do Cante, Toy, Badoxa, Maninho, Festa M80 e Bárbara Bandeira.

O primeiro desenho serviu também para perceber se o que tinha imaginado funcionava fora da cabeça. Quando Julinho KSD recebeu o trabalho acabado, a reação ficou-lhe guardada. “Ele olhou e disse: ‘Mas isto foi feito agora? É incrível.’” Na noite seguinte, com vários artistas em palco na Noite Funk, voltou a acontecer algo semelhante. “As pessoas não estão à espera. Estão a atuar, a fazer o que gostam e que sabem, o público está a vibrar e não imaginam que há alguém no backstage a fazer algo para elas enquanto estão em palco.”

A página do Traço Azul no Instagram mostra que os desenhos ao vivo já faziam parte do trabalho de Daniela antes de as Festas entrarem na história. O projeto apresenta-se hoje entre pintura, desenho, urban sketching e live sketching, além de trabalhos por encomenda e eventos. Em casamentos, por exemplo, faz retratos rápidos dos convidados, mas também já criou convites, porta-alianças e outras peças personalizadas.

No Palco das Marés, Daniela precisa de olhar enquanto o artista se mexe, escolher o gesto que quer guardar e decidir rapidamente o que entra e o que fica de fora. A aguarela vem depois dar cor ao desenho. “Depois destes primeiros dias, já tenho a minha dinâmica, já sei melhor o que quero oferecer ao artista, como quero fazer e que momentos quero apanhar. Estou ali a ouvir música, tenho boa companhia e estou a fazer o que gosto.”

Num recinto onde quase toda a gente tem um telemóvel apontado ao palco, o papel acaba por causar surpresa justamente porque demora. Não existe uma sequência de dezenas de fotografias entre as quais escolher a melhor pose. Daniela tem de decidir enquanto vê. Um traço errado fica ali, uma mancha de aguarela também, e o resultado leva consigo os minutos em que aquela pessoa esteve a ser observada.

“A arte é importante para as pessoas. O facto de um desenho fazer alguém sorrir já me faz o dia”, diz. Durante muito tempo, porém, Daniela não teve a mesma confiança no próprio trabalho. “Era algo que achava que fazia mal e agora estou a perceber que afinal o meu traço tem valor. Gosto disto, faz-me mesmo feliz. E ver alguém feliz com algo que gosto de fazer deixa-me completamente fascinada.”

Essa relação começou muito antes do Traço Azul. Daniela desenhava desde pequena e lembra-se dos pais a incentivarem a desenvolver esse interesse. Quando chegou a altura de escolher um curso, optou por Arquitetura. A faculdade, conta, foi uma fase difícil e o desenho acabou praticamente abandonado. “Foi um curso muito duro, uma época muito complicada da minha vida. Houve momentos em que ouvi coisas que me fizeram acreditar que nunca iria ser ninguém. Como não tinha tempo, deixei a pintura. Tinha de conseguir acabar a faculdade.”

Conseguiu. Fez um estágio, começou a trabalhar como arquiteta no Barreiro e os lápis ficaram reservados para situações ocasionais. A ligação à Paróquia de Santo André manteve alguma criação artística pelo caminho: pintou Círios Pascais, trabalhou em velas de batismo e desenvolveu outras peças ligadas à igreja. Entre trabalhos anteriores estão também o desenho de um vitral da igreja paroquial de Santo André e projetos relacionados com a Jornada Mundial da Juventude de 2023, incluindo os confessionários do Parque do Perdão e elementos litúrgicos da capela instalada no mesmo espaço. A própria tese de mestrado de Daniela está relacionada com arquitetura religiosa.

O regresso regular à pintura por causa de uma sardinha

Em 2022, o filho mais velho estava numa turma em que a educadora pediu às famílias um desenho de uma sardinha. Daniela já era casada, tinha filhos e descobriu que, em casa, praticamente não existiam materiais para pintar. Saiu para os comprar e, no meio das compras, levou também umas aguarelas.

“Foi um impulso. Pensei: já tenho idade suficiente para me borrifar um bocadinho na opinião dos outros e fazer experiências outra vez com a pintura.” A sardinha abriu uma porta que ficou cada vez mais difícil de fechar. Uma amiga pediu-lhe um desenho para o casamento, depois apareceram retratos de família e outros pedidos. O contacto com os Urban Sketchers do Barreiro trouxe-lhe novas maneiras de observar e de desenhar no local. A própria apresentação atual do Traço Azul situa em 2022 esse regresso aos lápis e pincéis, depois da pausa provocada pelos anos de faculdade.

Daniela percebeu também que as horas passadas a desenhar produziam um efeito que não estava à procura quando comprou aquelas aguarelas. “O desenho ajudava-me muito na ansiedade, no controlo da respiração. Tenho trabalhos rápidos, mas também tenho desenhos muito complexos. Num dos Círios Pascais, fiz um Cristo durante cerca de cinco horas seguidas. Isso obriga-me a controlar a respiração, os dedos, as mãos. Percebi que me fazia bem.”

A partir daí, o Traço Azul começou a ocupar mais espaço. Vieram encomendas, eventos e o desenho ao vivo. Num casamento, um retrato pode ficar pronto em cinco ou sete minutos. Noutros trabalhos, Daniela passa dias na mesma imagem. Também recebe pedidos que exigem outra espécie de atenção, quando alguém procura juntar num desenho pessoas que já não conseguiram estar juntas numa fotografia.

 
 
 
 
 
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“Fascina-me alguém vir ter comigo e dizer: ‘Daniela, perdi a minha avó e gostava de ter uma imagem dela com o meu pai’, ou ‘gostava de estar nesta fotografia’. Gosto desta possibilidade de conhecer as pessoas através dos desenhos.”

Aos 35 anos, porém, não pretende transformar essa descoberta numa escolha que apague tudo o resto. Pelo contrário. Daniela acaba de deixar o emprego que mantinha e prepara-se para voltar a estudar, agora na área da conservação, restauro e reabilitação. O objetivo é aproximar a formação de arquiteta de um campo que a acompanha há muito tempo: o património religioso.

“Um dia, quero poder dedicar-me à conservação e ao restauro de edificado religioso porque é uma área da arquitetura que me fascina. Aprendi que sou várias coisas e quero ser várias coisas. Não quero ser só uma.”

O projeto do Palco das Marés nas Festas também funciona como experiência, contacto com outros artistas e oportunidade de testar o desenho numa situação que nunca tinha enfrentado desta maneira.

Daniela nasceu em Lisboa por uma questão de maternidade, como a mãe gosta de recordar, mas foi registada no Barreiro e nunca teve dúvidas sobre a terra que considera sua. “Os meus pais já viviam aqui, fiz tudo aqui, trabalhei aqui. Esta é a minha terra, o meu lugar, as minhas pessoas.”

Em casa, a aventura das Festas passou rapidamente a ser assunto diário. O marido pergunta todas as noites como correu e os dois filhos, de sete e quatro anos, acompanham fascinados a ideia de a mãe estar a desenhar os artistas que veem passar pelo grande palco da cidade.

Daniela ainda está a perceber onde isto a vai levar. Antes da primeira noite, admite, limitou-se a “atirar-se de cabeça”. Agora já sabe onde se sentar, quando observar, que momentos procurar e como quer entregar cada trabalho. A experiência vai repetir-se até à última noite, quando Bárbara Bandeira fechar o Palco das Marés e Daniela tiver completado uma espécie de arquivo paralelo das Festas de 2026. O oficial ficará cheio de fotografias e vídeos. O dela caberá em folhas de papel, com tinta, água e as pequenas imperfeições de quem precisou de desenhar enquanto tudo acontecia.

“Sou aquela pessoa que está sentada no chão ou num canto a desenhar o que está à minha volta”, diz. Durante dez noites, no entanto, escolheu um canto onde vai ser difícil passar despercebida.

Carrega na galeria para conhecer mais o trabalho da Daniela Azul nas Festas do Barreiro.

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