Esqueça tudo o que o seu cérebro processa quando ouve a palavra coro. Se a imagem for a de um grupo de pessoas estáticas, vestidas de preto e com ar de quem está a ler um manual de instruções em latim, o Coral TAB fez reset ao sistema operativo em 2025, quando completou 32 anos.
O que aconteceu nesse aniversário, no palco do Auditório Municipal Augusto Cabrita, não foi apenas um concerto comemorativo: foi uma espécie de motim artístico onde o “preto básico” foi banido e a zona de conforto enviada para o fim da fila. E a culpa é de uma mistura explosiva de 32 anos de estrada com uma vontade miúda — mas persistente — de virar a mesa.
Imagine entrar num ensaio e, em vez da solenidade expectável, encontrar um microcosmo da cidade: o professor ao lado do recrutador de recursos humanos, o estudante a partilhar a pauta com a reformada, todos unidos por um fio invisível que nada tem a ver com ordenados ou estatuto. É o amor à música, sim, mas daquela que faz suar.
A New in Barreiro esteve num destes ensaios para perceber o que se passa num grupo de pessoas tão diversas que acabou por conquistar dois prémios em votação dos leitores da New in Barreiro: Melhor Concerto e Melhor Grupo Artístico de 2025. E encontrou algumas respostas — não é um grupo de pessoas que cantam juntas, é um grupo que respira a mesma nota. Foi essa “humanidade sem filtros” que lhes valeu o reconhecimento nos Prémios NiB 2025, embora o troféu seja apenas um dos brilhos de um bolo que levou décadas a amassar.
A génese desta audácia tem nome e apelido: Manuel Gonçalves, de 67 anos. Mas não o imagine como um maestro de conservatório rígido; pense nele como o miúdo que, aos 14 anos, construiu a própria guitarra eléctrica com restos de madeira porque o sonho de ser um Beatle não podia esperar por uma loja.
Manuel é a prova de que o destino também se trabalha à mão. Nascido de um início de vida que daria um drama neorrealista — fruto de um abuso, criado pelos avós, um bebé de cinco quilos que quase custou a vida à mãe — transformou cada dificuldade num acorde. A música não foi uma escolha: foi, e continua a ser, o oxigénio.
Onde tudo começou: oito pessoas, uma secretária vazia e uma ideia improvável
Recuemos até 1993. O cenário? Uma secretária vazia, oito pessoas curiosas e um desafio lançado pela Câmara Municipal. Foi do zero absoluto que este projeto nasceu, sob a direção de um homem que, apesar de formado em Química Analítica, sempre soube que a melhor reação química acontece entre uma voz e uma pauta.
No início, apenas mulheres responderam ao apelo para a formação do Coral TAB. Mais tarde, com o encerramento de outro projeto, homens da comunidade migraram para o grupo e hoje há seleção para entrar. “Já recusámos pessoas, infelizmente”, explica o maestro.
O nome mantém-se — TAB significa Trabalhadores das Autarquias do Barreiro —, mas hoje poucos são funcionários da Câmara. De lá para cá, o currículo do coro amador (ninguém recebe para cantar) parece ficção: atuaram em vários países da Europa e em todas as regiões de Portugal, estiveram frente a frente com o Papa Francisco, que lhes ofereceu um terço tirado do próprio bolso, e foram convidados por Marcelo Rebelo de Sousa para cantar em Belém. “Fomos ao Vaticano antes de irmos a Belém”, costuma brincar o maestro, com a ironia típica de quem sabe que o Barreiro não fica atrás de nenhuma capital do mundo.
O que começou, em Dezembro de 1993, por sugestão da então vereadora Carla Marina, como um grupo de trabalhadores das autarquias para animar concertos de Natal, rapidamente ganhou vida própria. O primeiro grande teste não foi num laboratório, mas no lançamento do CD Natal Português, em 1995. A verdadeira ousadia viria dois anos depois, com o Fado Coral. Numa época em que o fado era visto como território sagrado e individual, o TAB decidiu que músicas como a “estranha forma de vida” também podiam ser cantadas por dezenas de vozes em harmonia.
A longevidade não se constrói apenas com pautas, faz-se de quilómetros. O grupo atravessou fronteiras, conquistou um segundo lugar no Festival Internacional de Malgrat de Mar, em Barcelona, e levou o nome do Barreiro a festivais na Áustria e na República Checa. Pelo caminho, Manuel Gonçalves multiplicou o projeto: nasceram o Mini TAB, o coro juvenil BVoice e até uma Orquestra de Cavaquinhos. Hoje, o critério de entrada é rigoroso, mas a base continua a ser a mesma de 1993: a amizade.
Quando um coro decide dançar, vestir-se e baralhar as regras
Mas falemos da “ruptura” de 2025, o espectáulo que baralhou as cartas. O Coral TAB decidiu que, aos 32 anos, estava na hora de aprender a dançar. Pela primeira vez na história do grupo, os coralistas deixaram de ser apenas vozes para se tornarem também atores. Saiu a sobriedade, entraram figurinos de época, saias rodadas, penteados cuidados e uma movimentação cénica que obrigou toda a gente a sair do lugar — literalmente. “No início houve resistência, sobretudo com a mudança das roupas. Hoje, depois da boa recepção, já perguntam qual é a roupa do próximo espectáculo”, conta o maestro.
A audácia foi total e teve o ritmo de um gira-discos imparável. O palco do AMAC transformou-se numa passadeira internacional onde o coro saltou do lirismo italiano de Il Silenzio para o espanhol vibrante de La La La, sem esquecer a elegância francesa de Tous les garçons et les filles. Ver 50 vozes a interpretar Ele e Ela, de Madalena Iglésias, com a mesma entrega com que atacavam Sugar Sugar, dos Archies, foi a prova de que a música não tem passaporte, nem idade.
O ponto alto ficou reservado para quando o preto básico deu lugar à energia crua do Rock N Twist que moldaram gerações. “Venus” e “Massachusetts” puseram o auditório a vibrar, “The House of the Rising Sun” confirmou que aquele não era um concerto para se ver sentado, e “Can’t Help Falling in Love”, de Elvis, fez o público render-se. Mas foi entre “My Way” e a loucura de “Tutti Frutti” que o Coral TAB selou o destino: não ganharam prémios por serem certinhos, mas por terem tido a coragem de ser uma banda de rock com 50 cabeças a celebrar a vida.
Foi essa coragem que conquistou o público. Não estavam ali apenas para cantar notas perfeitas, mas para contar histórias de uma época em que a música mudou o mundo. E mudaram, pelo menos naquela tarde, o mundo de quem os viu.
Nos ensaios, a magia continua sem luzes de palco. É aí que encontramos pessoas como Ana Paula Nereu e Jocélia Gomes Presidente e Vice-presidente do Coral TAB), ambas no grupo há mais de 30 anos. Elas regem o funcionamento do coral para lá da voz. “Nunca imaginaria que, 30 anos depois, teríamos feito tantos espetáculos incríveis”, conta Ana Paula.
“E as surpresas não param. Nunca pensei que, nesta fase do grupo, teríamos coragem de mudar tudo, como no espectáulo de 2025”, acrescenta Jocélia. A mais jovem integrante do coro é a estudante Margarida Pinto, 20 anos. O mais velho, João Simões, 87 anos. “Cheguei aqui há muitos anos, quando não aguentei mais as convocatórias de dois amigos. E cá estou até hoje”, diz o ex-sapateiro e ex-torneiro mecânico já reformado do trabalho, “mas não vou me reformar do coro”, ressalta.
Na plateia, há sempre miúdos: filhos ou netos de integrantes do grupo, que crescem a afinar o ouvido com a voz dos familiares e dos amigos. E praticamente todos os elementos são familiares. “Temos pais com filhos, avós com netos, primos, irmãos… Na verdade, é uma grande família”, comentam Ana Paula e Jocélia.

É essa rede de afetos que permite ao Coral TAB sobreviver a pandemias e crises. Quando 52 pessoas decidem mudar tudo — o visual, a forma de estar em palco, o género musical — e o fazem com um sorriso de orelha a orelha, percebe-se que o Prémio NiB 2025 foi apenas uma consequência natural da felicidade partilhada. A história do Coral TABA está registada em livro, que mostra a trajetória do grupo e foi lançado para comemorar os 30 anos de atividade.
No fim, o Coral TAB lembra-nos que a idade é apenas uma sugestão e que a zona de conforto é um lugar perigoso onde nada cresce. Venceram porque foram divertidos, humanos e imprevisíveis. O Barreiro, terra de operários e artistas, viu-se refletido naquela mistura de rock’n’roll e vozes polifónicas. E o maestro? Talvez Manuel nunca tenha sido um dos quatro de Liverpool, mas para quem o vê dirigir este coro-banda, é o Beatle que o Barreiro adoptou — e de quem não abdica por nada. Quem sabe se um dia não haverá um espetáculo inteiro dedicado aos Beatles, com Manuel de guitarra na mão, a tocar aquela que ganhou do avô.
Para quem quiser ver o espetáculo vencedor do Prémio NiB 2025, há uma nova oportunidade no próximo dia 1 de Fevereiro, às 16 horas, na Igreja de Santo André. A entrada é gratuita.
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