As Tágides de “Os Lusíadas” podem muito bem atravessar o Tejo e passar pelo Barreiro de vez em quando. Pelo menos é nisso que acredita Samuel F. Pimenta, autor do novo “Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal”, um novo livro que reúne 71 figuras do imaginário popular português, entre mouras encantadas, monstros, gigantes e ninfas. O livro ilustrado por Helena Soares chega à Feira do Livro de Lisboa a 4 de junho, às 17 horas, no stand da Penguin.
Samuel mudou-se para o Barreiro em setembro e foi precisamente na cidade que terminou a fase final do atlas. Enquanto descobria a frente ribeirinha, os moinhos, os artistas locais e os antigos armazéns transformados, foi também aproximando o Barreiro desse universo de lendas e criaturas. “Ainda estou a descobrir a cidade, mas já deu para perceber que é uma cidade com muitos artistas e isso também é muito estimulante”, conta à NiB.
Se Samuel acabara de escrever um livro que localiza criaturas mágicas em território português, quais seriam as que vivem perto da sua nova casa? O escritor responde com cautela, consciente de que cada lenda exige tempo, pesquisa e escuta, mas acaba por abrir o mapa da vizinhança fantástica. Na Península de Setúbal, da qual o Barreiro faz parte, surge a Moura Encantada de Palmela. Mais abaixo, junto ao Portinho da Arrábida, aparece o Monstro da Anicha, associado à pequena ilha onde a tradição colocou uma presença inquietante. E no Tejo surgem as Tágides, ninfas celebrizadas por Camões em “Os Lusíadas”. Se pertencem ao rio que banha Lisboa, também podem atravessar para esta margem. “Certamente também estão do lado de cá e visitam o Barreiro vez ou outra”, diz Samuel.
A imagem é demasiado forte para ficar apenas como nota de rodapé. As Tágides a passarem pelo Barreiro, a rondarem o Mar da Palha, a espreitarem a frente ribeirinha, os moinhos e os caminhos junto ao rio parecem encaixar numa cidade que ainda carrega marcas industriais, mas que tenta contar-se de outras formas. Samuel vive a cinco minutos da ADAO, espaço que visita com regularidade, e já conheceu artistas que nasceram no Barreiro ou escolheram a cidade como centro de criação.
A mudança aconteceu num momento que considera particularmente interessante. O escritor ouve, nas palavras de quem é da terra, que o Barreiro mudou muito, passando de uma forte vivência industrial para uma fase de transformação cultural e urbana. Como recém-chegado, observa tudo com alguma distância, mas também com curiosidade. “Como artista, como escritor, agora cidadão do Barreiro, é muito estimulante estar numa cidade que tem toda esta movimentação e todo este potencial.” E garante que a mudança é para ficar. “Penso a longo prazo a minha vida no Barreiro.”

O “Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal” começou a ganhar forma antes desta mudança, em 2022, durante a pandemia, quando Samuel encontrou um mapa da Escócia que assinalava criaturas mágicas nos lugares a que pertenciam. O encontro levou-o a imaginar uma versão portuguesa, construída com seres vindos das lendas, do folclore, da mitologia e da tradição oral do País. O tema já o acompanhava há muito tempo. Em livros anteriores, sobretudo “Iluminações de uma Mulher Livre” e “Ophiussa”, tinha investigado este universo e reunido material sobre figuras presentes em relatos antigos, arquivos, memórias locais e histórias contadas de geração em geração.
Este é o décimo livro de Samuel Pimenta e o primeiro pensado sobretudo para miúdos. Ainda assim, o escritor prefere abrir a porta a mais leitores. Diz que é um livro “dos sete aos 107”, porque os adultos também se têm aproximado dele com curiosidade, muitas vezes para oferecer aos mais novos e outras para guardar nas próprias bibliotecas. O atlas inclui mapas, informação, humor, criaturas e ilustrações detalhadas. Para Samuel, pode funcionar como uma entrada na leitura porque convida os miúdos a gostarem do objeto livro antes de qualquer obrigação escolar. “Tem componente lúdica, informativa, imaginária e criativa.”
As 71 criaturas resultaram de uma seleção e de um levantamento que levou o escritor a muitas mais figuras, mas era preciso construir um livro que pudesse ser lido, consultado e folheado com prazer. Entraram seres benéficos, maléficos e outros mais ambíguos, entre o aviso, o medo e o encanto. Muitas destas criaturas surgiram, ao longo dos séculos, ligadas a ritos de passagem ou a alertas muito concretos. Poços, precipícios, lugares desconhecidos e caminhos onde os miúdos deviam ter cuidado. O medo também servia para proteger. No livro, esse lado mais sombrio é equilibrado pelo humor, que permite olhar para as criaturas monstruosas sem lhes retirar mistério.

O trabalho com Helena Soares, ilustradora e responsável também pela componente gráfica do livro, teve uma camada que os leitores nunca verão diretamente. Além do texto publicado, Samuel escreveu aquilo a que chama o “texto invisível”, com indicações sobre paisagens, roupas, gestos, ambientes e características das criaturas para orientar a ilustração. Em alguns casos, a tradição trazia descrições muito precisas. Noutros, existia mais espaço para a imaginação. Foi aí que a liberdade criativa de Helena ganhou força, dando corpo visual a seres que durante muito tempo existiram sobretudo na oralidade.
Entre as criaturas de que mais gosta está a Moura Encantada dos Olhos de Água, associada às nascentes do rio Alviela, em Alcanena, perto da região de onde Samuel é natural. O lugar acompanha-o desde a infância e continua a visitá-lo pelo menos uma vez por ano. Colocar essa moura no livro permitiu-lhe regressar a uma paisagem familiar com outro olhar. Houve também descobertas inesperadas, como a Boa Hora e a Má Hora, duas entidades femininas que aparecem em conjunto. A primeira avisa que algo difícil se aproxima, seja doença, guerra ou escassez. A segunda chega depois. Uma prepara a aldeia, a outra traz o acontecimento.
A primeira impressão produziu cerca de 2200 exemplares e, segundo o autor, a editora ficou sem livros em armazém, com os exemplares já distribuídos e uma segunda edição em ponderação. “Nota-se que há uma sede das pessoas por este tema”, afirma. Para Samuel, esta procura mostra que as criaturas continuam vivas na curiosidade de leitores de várias idades, mesmo quando pareciam guardadas em livros antigos, arquivos municipais ou relatos familiares.
O projeto deu também origem a uma exposição itinerante com cerca de 20 ilustrações, divididas pelas regiões do livro, pensada sobretudo para os miúdos, mas aberta a todos os interessados neste imaginário. A mostra está na Casa do Jardim da Estrela até 20 de junho e segue depois para Santarém. Samuel quer trazê-la ao Barreiro, possivelmente para a biblioteca, e fazer também na cidade uma apresentação do atlas. Seria uma forma de fechar o círculo iniciado em setembro, quando se mudou para cá e trouxe consigo a etapa final de um livro sobre criaturas ligadas a lugares. O livro custa 14,99€ no site da Penguin.
Samuel nasceu a 26 de fevereiro de 1990, em Alcanhões, Santarém. Começou a escrever aos dez anos, publica desde os 19, licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e já editou dez livros. Tem poesia, romance, conto e crónica no percurso, participou em encontros literários nacionais e internacionais, recebeu prémios em Portugal e no Brasil, colaborou com publicações em vários países de língua portuguesa e, em 2025, recebeu o Prémio Alumni NOVA FCSH Revelação na área das Humanidades. Trabalha também como assessor de comunicação, mas quando lhe perguntam a profissão, a resposta continua a surgir sem hesitação: escritor, artista, poeta.








