O Estuário do Tejo vai deixar de ser apenas paisagem para passar a ser a grande inspiração de um novo jogo de tabuleiro. Chama-se Guardiões do Tejo, é um jogo cooperativo criado pela Associação NÓS em parceria com a Science4You, e será apresentado oficialmente a 20 de maio, às 10 horas, no Parque da Cidade do Barreiro. A iniciativa quer juntar escolas, famílias e comunidade em torno da missão de proteger o rio.
O jogo parte de um território bem conhecido dos barreirenses, mas nem sempre observado com a atenção que merece. O Estuário do Tejo, um dos maiores da Europa, revela-se nas muitas espécies de aves, nos barcos, nas zonas húmidas, nas memórias ligadas à pesca e no horizonte diário da cidade. Em “Guardiões do Tejo”, esse cenário ganha forma num tabuleiro que representa um ecossistema vivo, com espécies, habitats, ameaças e decisões que obrigam os jogadores a pensar nas consequências de cada escolha.
A lógica do jogo afasta-se do modelo tradicional em que alguém vence e os restantes perdem. Aqui, todos jogam do mesmo lado. Cada participante assume um papel diferente, como pescador, voluntário ou político local. Cada figura tem responsabilidades próprias, mas todos dependem uns dos outros para cumprir a missão de proteger a biodiversidade do estuário e responder aos desafios que surgem ao longo da partida.
“Isso é uma metáfora para a sociedade que queremos construir”, resume Humberto Candeias, diretor-geral da Associação NÓS, em entrevista à New in Barreiro. Segundo o responsável, o objetivo passa por criar “instrumentos educativos que favoreçam uma atitude de colaboração e negociação”. A intenção foi desenvolver uma ferramenta capaz de juntar lazer, educação ambiental e inclusão, sem perder atratividade para jovens e famílias.
Humberto Candeias explica que a inspiração passou também pelo trabalho de especialistas ligados ao estudo da biodiversidade, como Pedro Salgado, autor de obras dedicadas aos peixes de Portugal. “Esta riqueza natural que nós temos ainda é, infelizmente, muito desconhecida de uma comunidade tão próxima”, afirma. O jogo foi pensado para aproximar crianças e adultos do território onde vivem, ajudando-os a compreender as fragilidades do estuário e a importância das decisões coletivas na proteção ambiental.

No site da Associação NÓS, “Guardiões do Tejo” é apresentado como um jogo para dois a cinco participantes, com duração aproximada de 30 minutos e recomendado para maiores de oito anos. Está à venda por 29,99€. A caixa inclui tabuleiro, baralho com 52 cartas, oito peões, marcador de ronda, 15 sinais de risco, bases, dado de madeira e folha de instruções.
A primeira edição teve mil unidades produzidas, segundo Humberto Candeias. O jogo já está disponível através da Associação NÓS e da Science4You, e deverá chegar também a outros pontos de venda e divulgação, incluindo espaços ligados ao Barreiro, como postos de turismo. A associação já disponibilizou exemplares a agrupamentos escolares, numa fase que o responsável descreve como de “disseminação e divulgação”.
A dimensão educativa é uma das grandes apostas do projeto. “Guardiões do Tejo” foi pensado para circular em escolas, associações, famílias e espaços comunitários. Cada partida transforma conceitos como sustentabilidade, biodiversidade, cooperação e inclusão em decisões práticas. Os jogadores conversam, negociam prioridades e percebem que um ecossistema funciona através de ligações entre todos os elementos.
Essa lógica está também ligada à missão da Associação NÓS. Humberto Candeias sublinha que a instituição trabalha com pessoas em situação de vulnerabilidade, deficiência, risco social, dificuldades económicas ou necessidade de inserção, mas procura ir além das respostas sociais tradicionais. “Não queremos participar na construção de uma sociedade só de serviços e de respostas sociais”, afirma. “Queremos dar um contributo para que a comunidade se desenvolva através de iniciativas de cidadania.”
Este é apenas o primeiro passo de uma estratégia mais ampla da Associação NÓS na área dos jogos cooperativos. Humberto adianta que existem outros projetos em desenvolvimento, incluindo uma parceria com a Universidade Lusófona para criar novos projetos colaborativos ligados ao Estuário do Tejo. Alguns poderão ficar disponíveis em formato digital e, mais tarde, também em versão física.
A associação está ainda a desenvolver um novo projeto dedicado ao estuário. O espaço, com o nome provisório de Tejo com Vida, já surge referido dentro do próprio jogo. A ideia passa por criar no Barreiro um local dedicado à educação ambiental, lazer, contemplação, inclusão e contacto com produtos naturais e biológicos. “Temos a necessidade de casar aquilo que é o conhecimento do Estuário do Tejo com um espaço de educação, lazer e contemplação”, explica Humberto.







