cultura

Novo espaço cultural no Barreiro estreia-se com exposição sobre guerra e mentira

O Armazém 150 ocupa o Parque Empresarial e estreia-se com cerca de 200 peças do Arquivo Ephemera e uma instalação interativa.

O Barreiro vai ganhar um novo espaço de cultura, arquivo e criação artística dentro do Parque Empresarial da Arco Ribeirinho Sul. O Armazém 150 tem pré-abertura marcada para a próxima terça-feira, 22 de setembro, às 17h30, e estreia-se com duas exposições de impacto: uma dedicada à propaganda em português durante a Segunda Guerra Mundial, com curadoria do Arquivo Ephemera / José Pacheco Pereira, e outra em formato de instalação audiovisual e tecnológica, assinada pelo 18—25 Research Studio, com produção da Space Collectors.

A abertura acontece no âmbito das Jornadas Europeias do Património 2026 e integra a programação de “Barreiro, A Cidade dos Arquivos”, que ao longo do mesmo dia propõe visitas, exposições e encontros em vários espaços ligados à memória documental, industrial, artística e social do concelho.

O novo Armazém 150 surge como a primeira fase de instalação de um equipamento que irá assumir funções de polo de dinamização cultural e artística no Parque Empresarial do Barreiro. A escolha do espaço também tem leitura simbólica: num território marcado pela memória industrial, o antigo contexto produtivo passa agora a acolher arquivo, arte contemporânea, tecnologia, som, imagem e reflexão histórica.

Cerca de 200 peças mostram a guerra da propaganda

Uma das exposições de abertura é “A Outra Guerra — Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial”, do Arquivo Ephemera. A mostra reúne cerca de 200 peças de um núcleo de aproximadamente 600 documentos conservados pelo arquivo e apresenta livros, folhetos, cartazes e outros materiais usados para disputar a leitura pública do conflito.

A exposição olha para a Segunda Guerra Mundial através de uma frente menos visível, mas decisiva: a propaganda. Entre 1939 e 1945, os países envolvidos recorreram a diferentes meios para contar a sua versão da guerra, influenciar perceções, moldar comportamentos e interferir na disposição das sociedades para o combate, a resistência ou a rendição.

Portugal surge como caso relevante, pela circulação de propaganda em português produzida por vários beligerantes. O percurso mostra técnicas, temas, alvos e estratégias usados para tentar conquistar o que a própria exposição descreve como a “conquista das almas”. A rádio, o cinema, a banda desenhada, a caricatura, os materiais impressos e as coreografias de comícios fazem parte desse universo.

Ainda durante a preparação da exposição, José Pacheco Pereira explicou à New in Barreiro que “A Outra Guerra” mostra a Segunda Guerra Mundial a partir de uma frente menos visível, mas decisiva: “a guerra da propaganda”. Esta dimensão do conflito era total, mundial e cada vez mais dependente das tecnologias, embora permanecesse diretamente ligada à guerra das armas.

O objetivo era aquilo que Pacheco Pereira descreve como a “conquista das almas”: criar perceções, moldar comportamentos e influenciar a disposição das nações para o combate, a resistência ou a rendição.

A propaganda interferia no confronto político entre regimes e recorria a mecanismos clássicos da mentira, como a falsidade, a sugestão de falsidade e a omissão da verdade. Rádio, cinema, banda desenhada, caricatura e comícios encenados tornaram-se, durante a Segunda Guerra Mundial, ferramentas centrais dessa disputa.

A frase que atravessa a proposta — “Na guerra a primeira vítima é a verdade” — ajuda a enquadrar uma exposição que parte do passado, mas toca diretamente debates contemporâneos sobre manipulação da informação, omissão, fabricação de consensos e disputa pela memória.

Luz, som e vigilância numa instalação reativa

A segunda proposta chama-se “O Som é Silêncio / The Sound is Silence” e foi concebida para o espaço industrial do Armazém 150. A instalação audiovisual e tecnológica tem curadoria de Paula Melâneo e é reativa ao visitante: a aproximação humana altera luz, convoca som, ruído, respiração, batimentos, vozes, palavras e silêncio.

A obra trabalha a partir de uma condição simples: entrar no escuro e ser reconhecido por um espaço cuja lógica permanece instável. A resposta pode surgir de imediato, aparecer com atraso, deslocar-se para outro ponto ou ser recusada. O visitante percebe que a sua presença tem consequências, mas a instalação evita transformar-se numa interface previsível.

No centro da obra está uma constelação de referências literárias, cinematográficas, históricas e sonoras. Fragmentos, ecos, vozes, frases, ritmos de propaganda, ruídos e textos surgem sem legenda, autoria ou cronologia fixa. A experiência cruza presença, vigilância, controlo, comportamento, linguagem e memória.

O 18—25 Research Studio foi responsável pela conceção de parte dos conteúdos apresentados no pavilhão português na Bienal de Arquitetura de Veneza 2025. A Space Collectors desenhou o projeto expositivo da representação portuguesa na Bienal de Arte de Veneza de 2026. No Barreiro, os dois projetos encontram-se numa instalação criada para dialogar com a escala e a atmosfera industrial do Armazém 150.

A programação das Jornadas Europeias do Património começa às 9 horas, junto ao Mausoléu de Alfredo da Silva, ponto de encontro para as visitas guiadas à Cidade dos Arquivos. O percurso passa pelo Arquivo Histórico da Fundação Amélia de Mello, Colectivo SPA, PADA Studios, Museu Industrial, Espaço Memória, Clube Chapas, Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra e Arquivo Ephemera. À tarde, a StartUp Barreiro recebe, às 15h30, a exposição “Dia D”, também com curadoria do Arquivo Ephemera / Pacheco Pereira.

No Armazém 150, as inaugurações das exposições estão marcadas para as 17h30. As duas exposições ficam patentes ao público até ao final do ano, às terças-feiras, sábados e domingos. A entrada é gratuita para a comunidade estudantil e académica e para o público em geral.

Programa de 22 de setembro

9 horas — Ponto de encontro junto ao Mausoléu de Alfredo da Silva
9h15 — Arquivo Histórico da Fundação Amélia de Mello
9h45 — Colectivo SPA
10h15 — PADA Studios
10h45 — Museu Industrial
11h15 — Espaço Memória
11h45 — Clube Chapas
12h15 — Arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra
12h45 — Arquivo Ephemera
15h30 — Exposição “Dia D”, na StartUp Barreiro
17h30 — Pré-abertura do Armazém 150, no Parque Empresarial do Barreiro
18 horas — Inauguração de “A Outra Guerra — Propaganda em Português na Segunda Guerra Mundial”
                  Inauguração de “O Som é Silêncio / The Sound is Silence”
19 horas — Sunset Archive Party, na Banda D’Além, em Palhais

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Armazém 150 - Rua 44, n°.61B Parque Empresarial do Barreiro
  • HORÁRIO
  • Terças-feiras, sábados e domingos | das 10h às 18h

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