Uma fundação literária não se ergue sobre cimento, mas sobre memórias partilhadas. Em maio de 2022, o Clube de Leitura da Biblioteca do Barreiro assentou a sua primeira pedra com o Memorial do Convento. Ali, entre a vontade de construir um convento e a necessidade de voar de Blimunda e Baltasar, nasceu um compromisso que já conta com 38 capítulos. José Saramago abriu o caminho para uma ocupação cívica da palavra, transformando a biblioteca num estaleiro de ideias onde, todos os meses, se desconstrói a solidão da leitura.
“É um espaço de empatia e de respiração, em que falamos de coisas simples e, por vezes, muito profundas. Num mundo em que estamos sempre a correr, ali falamos entre todos sobre um livro, o seu autor e a sua história”, explica Lurdes Lopes, que conduz este projeto com a paixão literária de quem conhece o peso de cada livro.
Em conversa com a New in Barreiro, Lurdes aponta que o clube se tornou um ponto de contacto essencial na cidade. O objetivo inicial de limitar a sala a 20 pessoas ruiu perante a curiosidade coletiva. Hoje, a porta aberta acolhe quem quiser participar da conversa e, em alguns encontros, a sala já chegou a contar com 30 participantes.
São desconhecidos que, através das páginas, se tornaram próximos. Como Lurdes observa, o convívio transformou o grupo numa estrutura de suporte, quase uma família unida pelo hábito de ler e interrogar o mundo.
“Os participantes são muito diferentes. Temos pessoas de todas as idades, mais mulheres que homens e com formação muito distinta. A maior parte não se conhecia entre si. Estão sempre a aparecer pessoas novas, mas também existem participantes que estão desde o início. Por vezes, parecemos quase uma família”, conta Lurdes.
De José Saramago a Valérie Perrin
A cartografia deste grupo é vasta e recusa fronteiras. Depois de José Saramago, o clube lançou-se numa viagem sem passaporte. Atravessou a Nigéria com Chimamanda Ngozi Adichie em “A Cor do Hibisco”, sentiu a humidade da Colômbia em “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, e enfrentou a melancolia francesa de Valérie Perrin em “A Vida Breve das Flores”. O critério de escolha é um equilíbrio constante: vozes femininas e masculinas, autores portugueses e estrangeiros, clássicos que resistem ao tempo e obras contemporâneas que o desafiam.
Dentro destas quatro paredes, o Barreiro já foi o cenário de “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso, e sentiu a crueza de “A Gorda”, de Isabela Figueiredo. O grupo mergulhou na linguagem inventiva de Valter Hugo Mãe em “O Apocalipse dos Trabalhadores” e na densidade emocional de Lídia Jorge em “Misericórdia”. Cada livro funciona como uma bússola que aponta para latitudes diferentes — do Japão à Rússia, de Moçambique ao México —, provando que a literatura é a ferramenta mais eficaz para exercitar a empatia.
No dia 21 de março, às 15 horas, o 38.º encontro traz para a mesa o livro “Capitães da Areia”, de Jorge Amado. Trazer os miúdos de rua da Bahia para o centro da cidade é um convite ao desassossego. Discutir a sobrevivência, a liberdade e o abandono daqueles personagens é, no fundo, discutir as próprias margens. É um espaço de oxigenação onde, durante duas horas, se fala de coisas simples e de questões existenciais com a mesma honestidade.
A escolha de Jorge Amado para o mês de março é estratégica: um livro que vive da coletividade, da força do bando e da lealdade entre iguais, espelhando a própria dinâmica que o clube construiu nestes quase quatro anos. Se Pedro Bala e o seu grupo ocupavam o trapiche em busca de um lugar no mundo, os leitores do Barreiro ocupam a biblioteca para garantir que a literatura continue a ser um território de resistência. É uma obra que exige participação ativa, feita de sol, lama e uma humanidade que se recusa a ser silenciada pela indiferença.
Esta construção coletiva terá um momento de visibilidade pública em abril. Para assinalar o Dia Mundial do Livro, a biblioteca organiza uma exposição dedicada aos livros da vida dos seus participantes. É uma forma de retirar o leitor da sombra e colocá-lo no centro da narrativa. Ao expor os títulos que moldaram a identidade de cada membro do clube, o Barreiro celebra a leitura como um processo de construção de cidadania.
O Clube de Leitura da Biblioteca do Barreiro prova que um livro só se completa quando é devolvido à conversa. Entre as 15 e as 17 horas de cada terceiro sábado do mês, a inteligência coletiva ocupa o lugar do ruído. A palavra deixa de ser estática e ganha corpo através de quem a lê e, sobretudo, de quem tem a coragem de a partilhar.

LET'S ROCK






