cultura

Mulheres de 5 países juntam-se no Barreiro para aprender bordado centenário do Punjab

Gul E Raana ensina uma técnica tradicional a partir de um xaile centenário que atravessou vários países até chegar às suas mãos.

Na mesa estão mulheres de Portugal, Brasil, Estados Unidos, França e África do Sul. Todas recebem o mesmo kit, o mesmo desenho e começam a aprender os mesmos pontos de Phulkari, uma técnica de bordado tradicional do Punjab que Gul E Raana quer ajudar a preservar.

A designer paquistanesa conduz a oficina em inglês, francês e português, mudando de língua à medida que passa de uma participante para outra. Quando uma explicação se torna mais difícil, Gul pega no tecido e mostra o movimento com as mãos. A agulha acaba por resolver o resto.

Antes de começarem a bordar, Gul apresenta uma peça que explica por que razão aquela aula lhe é tão importante. É um antigo xaile Phulkari com mais de 100 anos, feito antes da Partição do subcontinente indiano, que deu origem à Índia e Paquistão. Os pontos que atravessam o tecido pertencem a uma tradição em que mulheres do Punjab registavam histórias familiares, episódios da vida quotidiana, sonhos e referências ao folclore.

A peça chegou às mãos de Gul depois de uma longa procura. A designer encontrou o Phulkari através de uma pessoa na Dinamarca, que o tinha comprado a alguém nos Estados Unidos. “Durante a Partição, a maioria dos tecidos Phulkari perdeu-se, como muitas coisas da minha avó. Hoje em dia, a maior parte dos Phulkaris está espalhada pelo mundo”, conta à New in Barreiro.

Mais de um século depois de aquele tecido ter sido bordado, os mesmos pontos voltam a passar de mulher para mulher. No Barreiro, cinco nacionalidades sentam-se à mesma mesa e aprendem técnicas que permanecem guardadas naquele Phulkari centenário. Gul explica a origem de cada uma, conta o que significavam na cultura onde cresceram e entrega às participantes o material necessário para continuarem o bordado depois da oficina.

Todas trabalham sobre o mesmo desenho. O kit criado pelo Wenlin Studio — StartUp criada por Gul e que hoje tem sede no Barreiro — inclui um painel de linho de 32 por 32 centímetros, com o motivo previamente desenhado, oito meadas de algodão, agulhas, bastidor e um guia onde aparecem os pontos, as cores e a sequência do trabalho.

O tecido é tingido com raiz de ruiva-dos-tintureiros, um corante natural usado historicamente nos têxteis da região. Para este desenho, Gul partiu do verão. Colocou um sol ao centro e, à sua volta, animais, pássaros e formas inspiradas nos astros.

Peça proposta no workshop

Uma história que se bordava em vez de se escrever

O modelo escolhido para a aula vem do Sainchi Phulkari, uma das vertentes mais narrativas desta tradição. Sainchi pode ser traduzido aproximadamente como “história”. Os bordados representavam cenas das aldeias, animais, pessoas, episódios do quotidiano e imagens do folclore. As mulheres tinham liberdade para compor essas cenas e acabavam por deixar no tecido registos daquilo que conheciam, viviam ou imaginavam.

Muito antes de chegar a uma mesa da StartUp Barreiro, o Phulkari fazia parte da vida doméstica e social das mulheres do Punjab, região hoje dividida entre o Paquistão e a Índia. O Philadelphia Museum of Art documenta a produção destes bordados, pelo menos, desde o início do século XIX.

As mulheres trabalhavam sobre tecidos de algodão e as peças eram usadas sobretudo como grandes xailes em casamentos e noutros momentos importantes. As raparigas aprendiam com mulheres mais velhas da família e da comunidade, e muitos desses trabalhos integravam o enxoval que levavam quando casavam.

Há exemplares cobertos por flores e geometrias e outros onde aparecem animais e cenas de aldeia. A curadora Cristin McKnight Sethi descreveu estes tecidos como superfícies onde uma mulher podia deixar desejos e uma visão própria do mundo através de linha e agulha.

A coleção, estudada pelo museu de Filadélfia, permite também acompanhar o que aconteceu em 1947, quando a Partição dividiu o Punjab entre a Índia e o novo Paquistão. Comunidades foram deslocadas, famílias separaram-se e parte deste património desapareceu durante as migrações forçadas.

O xaile de Gul atravessou parte dessa história, embora a designer conheça apenas os seus proprietários mais recentes. O percurso que conseguiu reconstruir passa pelos Estados Unidos, Dinamarca e Portugal. A história anterior ficou por descobrir. Os pontos sobreviveram, mas os nomes de quem os bordou perderam-se.

Gul leva o exemplar para as aulas para que as participantes possam observar de perto como essas mulheres trabalhavam. Os pontos feitos há mais de cem anos tornam-se uma referência prática quando chega o momento de experimentar a técnica no bastidor.

Antigo xaile Phulkari com mais de 100 anos, feito antes da Partição do subcontinente indiano.

O Philadelphia Museum of Art conserva uma importante coleção deste património. Em 2017, reuniu 19 peças da coleção de Jill e Sheldon Bonovitz numa exposição dedicada ao Phulkari e à relação destes têxteis com a identidade pessoal, familiar e regional do Punjab.

Entre os exemplares apresentados encontravam-se Sainchi Phulkaris do início do século XX, alguns bordados com cenas figurativas e diferentes tipos de pontos.

Cinco países à volta do mesmo bastidor

Na oficina do Barreiro, a técnica volta a circular entre mulheres, agora de países muito distantes do Punjab. Com o trabalho em andamento, cada mão começa a deixar pequenas diferenças. Uma participante segura o bastidor de determinada forma, outra encontra um ângulo diferente para a agulha e a tensão do fio varia de pessoa para pessoa.

O desenho e as cores são os mesmos, mas cada painel vai adquirindo características próprias. No Wenlin Studio, essas variações são valorizadas como parte do trabalho artesanal. A marca considera as diferenças deixadas pelas artesãs uma característica das peças produzidas manualmente, distante da regularidade de uma linha de produção industrial. “Não existe certo ou errado. Cada bordado é único, mesmo seguindo os mesmos desenhos e cores”, explica.

Gul circula pela mesa, acompanha cada trabalho e aproveita os pontos para contar a história da técnica. A língua depende de quem está à sua frente. Fala inglês com algumas participantes, francês com outras e usa o português que continua a aprender desde que se instalou no País. Depois de cada explicação, volta ao tecido. 

A história do Phulkari faz parte da formação criada pelo Wenlin Studio. Durante a oficina, Gul apresenta as origens da técnica, explica as variações regionais e fala sobre as razões que contribuíram para a diminuição da prática nos últimos anos.

O trabalho começa durante a aula e continua depois em casa. O kit leva o material e as indicações necessárias para que cada participante consiga terminar o painel ao seu ritmo. “A ideia da aula é explicar um pouco da técnica e como surgiu. Para que cada participante possa concluir e começar outros bordados em casa”.

Helena Cavalcante, brasileira que participou na oficina, foi a primeira a chegar ao ateliê e teve algum tempo para conversar com Gul E Raana antes do início da atividade. A designer mostrou-lhe outros bordados, explicou a origem do Phulkari, falou sobre os lugares onde a técnica é praticada na Índia e no Paquistão e contou parte da própria história.

A conversa passou ainda pelo trabalho das dez mulheres que colaboram com Gul no Paquistão na produção dos tecidos. “A Gul é uma pessoa muito disponível, muito simpática”, diz Helena. As duas já tinham trocado mensagens por causa de uma confusão com a inscrição, e Helena lembra que Gul se esforçou para atendê-la em português antes de ambas passarem para o inglês. Para a brasileira, essa disponibilidade ajudou a transformar a aprendizagem do bordado numa aproximação com a cultura e com as mulheres que mantêm a técnica viva.

A relação de Helena com os trabalhos manuais vem da família. Aprendeu croché com a avó, pratica outras técnicas e vê nas oficinas de bordado de diferentes países uma forma de conhecer histórias que atravessam gerações. “É uma volta ao mundo sem sair do lugar”, resume. O que a fascina é perceber como cada região desenvolveu os seus próprios bordados, por razões diferentes, e como esses saberes foram sendo preservados por mulheres ao longo do tempo. México, Nordeste brasileiro, Viana do Castelo, Castelo Branco, Madeira, Índia, Hungria e Polónia aparecem entre os exemplos que cita.

“Cada bordado surgiu por uma razão e é mantido por pessoas que têm os seus motivos para continuar a fazê-lo.” Para Helena, conhecer essas diferenças também a aproxima da própria memória familiar e ajuda a compreender o que sobrevive, o que se transforma e o que acaba por se perder de uma geração para outra.

O encontro à volta da mesa acrescenta outra dimensão à experiência. Enquanto uma participante observa o bordado da outra, ajuda ou comenta alguma coisa da própria vida, surgem conversas e relações que dificilmente aconteceriam noutros contextos. Helena vive em Lisboa e procura estas oficinas também para circular por outros locais, conhecer pessoas e chegar a lugares novos; desta vez, foi pela primeira vez ao Barreiro. Fora dali, o bordado continua a fazer parte da rotina, sobretudo antes de dormir, quando tem insónias ou aos fins de semana num parque. “É um hobby extremamente lúdico e, ao mesmo tempo, ensina muita resiliência, estrutura e planeamento. Você não pode brigar com a linha”, diz.

Do Punjab para o Barreiro

O percurso de Gul com os tecidos começou em Lahore, no Punjab paquistanês, onde cresceu numa família que já mantinha essa relação com o bordado e o tingimento. “A minha avó bordava e tingia tecidos. Sempre me contou um pouco da rotina que tinha quando era mais jovem”, recordou numa entrevista anterior à NiB.

Formada em Design Têxtil, passou oito anos pela indústria da moda, incluindo trabalho na China. Mais tarde viveu em Londres, onde fundou o Wenlin Studio em 2019. Desde 2022 vive em Portugal e instalou o projeto na StartUp Barreiro.

A criação do estúdio permitiu-lhe trabalhar com técnicas tradicionais de ornamentação têxtil a partir de desenhos contemporâneos. Gul desenha os motivos à mão, estuda processos históricos de tingimento natural e trabalha com artesãs do Punjab. Os bordados produzidos no Paquistão seguem depois para Portugal, onde as peças são acabadas e preparadas para venda na loja online e noutros pontos de comercialização.

Nos últimos anos, Gul começou também a ensinar estas técnicas através dos kits e das oficinas. Uma coleção lançada pelo Wenlin Studio em 2025 reuniu quatro kits inspirados nas tradições têxteis do Vale do Indo e do Sul da Ásia. Cada desenho foi criado e testado por Gul, enquanto nos tecidos foram usados corantes naturais como raiz de ruiva-dos-tintureiros e cátechu. A produção e os envios são feitos a partir da StartUp Barreiro.

A designer já tinha explicado à New in Barreiro o que a levou a investir neste trabalho. “A cada ano, a prática destas técnicas diminui no meu País. Sinto-me muito feliz em tentar manter este trabalho vivo.” Com os workshops, a transmissão passa diretamente para quem se senta diante dela. 

O Phulkari que Gul guarda permite-lhe mostrar essa continuidade sem recorrer apenas a fotografias ou explicações. Uma mulher passou horas sobre aquele tecido há mais de cem anos. Gul desconhece o seu nome, a aldeia onde vivia ou a pessoa para quem o xaile terá sido bordado. O desenho e os pontos continuam reconhecíveis. É essa parte da história que consegue mostrar quando estende a peça diante das participantes e indica como foram feitos os bordados antigos antes de lhes entregar uma agulha.

Gul costuma concentrar as oficinas em cerca de dois períodos ao longo do ano. O próximo está marcado para 21 de novembro, na StartUp Barreiro, com duas sessões no mesmo dia: de manhã, entre as 10h30 e as 13h30, ensina Phulkari; à tarde, das 14h30 às 17h30, apresenta o bordado Sindhi, ligado às tradições têxteis da região de Thar, no Paquistão, incluindo o trabalho com pequenos espelhos.

Cada oficina inclui o respetivo kit para continuar o bordado em casa e custa 77€. As inscrições podem ser feitas aqui e as vagas costumam acabar rapidamente.

No final da sessão, cada participante leva o painel por acabar e o kit para continuar o trabalho em casa. O Phulkari centenário de Gul volta a ser guardado, depois de servir de referência para os pontos ensinados durante a oficina.

A técnica segue agora com mulheres de cinco países, que poderão repeti-la, adaptá-la e passá-la a outras pessoas. É assim que Gul procura contrariar o desaparecimento de um saber que, no Punjab, foi transmitido durante gerações entre mulheres.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Parque Empresarial da Baía do Tejo, R. 2 (Parque Empresarial da Quimiparque), Edifício n.º 23
    2830-138 Barreiro
  • HORÁRIO
  • De segunda a sexta-feira, das 9h às 17h30

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