Jaafar Himt fala do seu país de origem como quem abre uma gaveta cheia de mapas. Tem 15 anos, nasceu no Iraque, de onde saiu ainda criança com os pais, rumo à Turquia. Chegou a Portugal há seis anos, como refugiado.
Desde então, o Barreiro é a sua casa. Na escola, ganhou um amigo que o faz traduzir o mundo para alguém que sempre viveu aqui: Mateus Lança, 14 anos, nascido no concelho. A amizade dos dois não nasceu de uma teoria sobre diversidade, mas de uma rotina comum: sala de aula, recreio, trabalhos de grupo e conversa que continua depois do toque.
Há dois anos, a escola organizou uma feira de culturas: 13 grupos, 13 países estudados por alunos que, em muitos casos, só tinham contacto com essas geografias através do que a internet oferece em formato rápido: guerra, crise, fotografias dramáticas, numa caricatura que cola e não larga.
A proposta da feira desafiava cada grupo a mergulhar num país e apresentar aos colegas recortes de história, língua, tradições, gastronomia e curiosidades. A dinâmica, que parecia só mais um projeto escolar, acabou por deixar uma marca.
Jaafar, no seu grupo, apresentou o Iraque. Fez isso com uma segurança rara em adolescentes e, sem pestanejar, disse que quase toda a gente conhece uma parte pequena do seu país: “a parte ligada à guerra”.
Jaafar lembra que falou do que os colegas não esperavam ouvir. “Contribuições para a formação das cidades, as primeiras leis e a criação do alfabeto”. A tentativa da atividade escolar era garantir que não cai no esquecimento antes de chegar ao fim do corredor.
A sensação que ficou na conversa com a New in Barreiro foi a de que Jaafar podia continuar durante horas a falar sobre o seu País. Não por vaidade, mas por necessidade de reparar um erro recorrente: reduzir um país a um único capítulo da sua história.
Mateus confirma o impacto da atividade escolar de forma direta. Até conhecer Jaafar, não sabia muito sobre o Iraque. E, quando a feira terminou, percebeu que a surpresa não tinha sido exclusiva daquele país. Foi geral.
Quase todos os grupos descobriram o mesmo: o que se pensa saber sobre um lugar costuma ser um resumo incompleto. A feira terminou, mas a ideia não desapareceu.
Uma feira multicultural no Barreiro
Dois anos depois, os dois amigos decidiram dar escala ao que viveram na escola. O projeto que apresentaram à Câmara Municipal do Barreiro parte desse momento: criar uma feira cultural semelhante, mas à escala do concelho.
Querem reunir comunidades de diferentes culturas que vivem no Barreiro e criar uma feira onde os barreirenses possam conhecer melhor os países, as comidas, os artesanatos, a língua e a história de pessoas que hoje fazem parte do tecido social da cidade.
O que propõem não é um evento para “mostrar o exótico”. É uma tentativa de tornar visível o que já existe. Um gesto de curiosidade organizada, feito por dois adolescentes que perceberam cedo que a ignorância não é neutra: ela decide como se olha para o outro.
“Quando pensei neste projeto, tive um objetivo claro: acabar com o racismo e a xenofobia”, diz o jovem que tem o sonho de ser médico. Já para Mateu, que quer ser engenheiro aeroespacial, um dos objetivos é ajudar a retirar os jovens de dentro de casa e da dependência dos meios digitais. “Tentar estimular os colegas a conhecer outras culturas, o mundo real”.
O detalhe mais forte deste projeto é a origem. Não nasceu de uma instituição, de um briefing ou de uma linha genérica sobre integração. Nasceu de uma amizade e de uma experiência em que a escola funcionou como laboratório.
Jaafar e Mateus levam para fora da escola o que aprenderam lá dentro. E é esse movimento — da sala para o concelho — que torna a proposta da feira tão atual, que não trata diversidade apenas como palavra bonita.
No projeto, a feira vem tentar reparar falhas de conhecimento que têm consequências no quotidiano: nos comentários, nos estereótipos, na forma como se evita alguém por não saber de onde vem.
“Põe-te a Funcionar”: o que é e como funciona
Esta ideia ajuda a entender o coração do “Põe-te a Funcionar” 2026. O programa do Gabinete da Juventude da Câmara Municipal do Barreiro regressa para a quarta edição, depois do desafio lançado aos jovens do concelho com o “Cria o teu projeto”.
A iniciativa apoia projetos propostos por estruturas juvenis, grupos informais e jovens em nome individual, criando condições para que se realizem. Foram apresentadas mais de três dezenas de propostas, em áreas como música, teatro, arte urbana, workshops e outras intervenções artísticas. Dos 32 projetos rececionados, alguns serão encaminhados para outros departamentos do município, por causa das suas especificidades e por não se enquadrarem diretamente no “Põe-te a Funcionar”. Outros entram no calendário que se estende por março e abril.

“Ano após ano, o ‘Põe-te a Funcionar’ continua a surpreender-nos, não só pelo crescimento do número de candidaturas, mas sobretudo pela diversidade das ideias e pela forma como os jovens conseguem transformar talentos e experiências pessoais em projetos concretos para a cidade”, afirma Sara Ferreira, vereadora responsável pelo desenvolvimento do programa.
Para a autarca, o valor do projeto está em criar um caminho real entre a proposta e a execução: ao apoiar estruturas juvenis, grupos informais e jovens em nome individual, a Câmara não está apenas a abrir uma chamada — está a dar condições para que os jovens ocupem os espaços da cidade, reforcem redes entre coletivos e associações e aproximem públicos.
A cidade aparece, então, como palco distribuído. A programação do “Põe-te a Funcionar” 2026 junta propostas pensadas por jovens, coletivos e associações locais, com eventos de entrada livre e outros com bilheteira simbólica, espalhados por espaços que já fazem parte do mapa cultural do Barreiro.
A agenda final ainda está a ser afinada, mas o desenho geral já deixa ver o tom: o Barreiro Pen Cup, projeto de Diogo Cristino, ocupará o Ringue da Zona 4, o Mercado Municipal 1.º Maio recebe o workshop “Bolachas Gigantes”, de Carolina Ribeiro, enquanto a sede da Associação Cultural Fuso acolhe “Música para encher espaços vazios”, retrospetiva de 10 anos de atividade do Coletivo Fuso e o Auditório Municipal Augusto Cabrita volta a ser casa do A Fragata, Festival de Tunas do Barreiro, organizado pela Associação da Tuna Académica da E.S.T.B.
O resto da cartografia mantém o mesmo ritmo de ocupação jovem do concelho. O Auditório Augusto Cabrita entra novamente no mapa com o teatro de comédia “As Possidónias”, da Companhia de Teatro Mundos Imaginários Produções. O Parque da Cidade recebe o Barreiro Mini Giants, também assinado por Diogo Cristino.
O Bowl da Zona 4 “Ponto de Encontro” acolhe o 3Spots 3Tricks, projeto da Gasoline ACD. O Espaço J abre portas ao E Barreiro Gamming, de Filipe Castelhano. Na sede da Gasoline ACD, a Associação OUT.ra organiza uma noite de concertos com Heroina, Banana Park, Engrenagem Necrofilia e Andlós Otukt.
A Associação Futuro Melhor leva “Sol para Todos” à Cidade Sol Jardim, juntando desporto e música. O Café “O Espaço” acolhe a Exposição Coletiva do Coletivo Pé Atento e, mais tarde, uma oficina de pintura sobre vidro do mesmo coletivo.
A ADAO Associação Cultural recebe “Safari | Efeito Borboleta”, apresentação de álbum de Tiago Faray e Ana Ramião. Os Moinhos de Alburrica entram na programação com o Sunset Clementix, Music by Clemente, projeto de Pedro Clemente. E a Cidade Sol, na zona envolvente à antiga sede do Desportivo, acolhe o Sound System Graffiti, de Susana Cruz e do Coletivo Dandara, num formato pensado para ocupar a rua com música e arte urbana.
No meio desta lista factual — inevitável para não se perder o fio — existe uma frase que explica a atmosfera: “Durante mais de um mês, o Barreiro vai respirar talento jovem.”
O programa tem também uma assinatura visual própria. A identidade gráfica foi criada por Alexandre Gouveia, jovem designer do Barreiro, seguindo a lógica das edições anteriores, porque o projeto “não é feito para jovens — é feito por jovens”, lembrou Sara Ferreira na apresentação.
Jovem apresenta ideia para salvar vidas
Entre os projetos que devem ser encaminhados para outras áreas da Câmara para serem desenvolvidos está um que surge de uma urgência diferente. Nsimba Olo apresentou uma proposta capaz de salvar vidas.
A origem está numa situação de saúde vivida em família. Houve um momento em que era preciso agir e ela não sabia o que fazer para ajudar. A sensação de apagão, de necessidade e de impotência transformou-se em plano.
O projeto que apresentou propõe uma parceria com equipas médicas que atuam no Barreiro para irem às escolas públicas dar noções de suporte básico de vida. O objetivo é que jovens estudantes saibam como ajudar alguém em caso de urgência.
Aqui, o que impressiona é a forma como um susto íntimo se transforma numa solução coletiva. Nsimba pegou num episódio que poderia ficar fechado em casa e decidiu tratá-lo como problema público.
Saber reconhecer uma emergência, perceber o que fazer nos primeiros minutos, ter noções básicas que podem reduzir o pânico — tudo isso é conhecimento que não devia ser privilégio de quem trabalha na área da saúde.

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