Durante dois meses, dez artistas percorreram o Parque Industrial do Barreiro com atenção redobrada ao que costuma passar despercebido: restos de materiais, estruturas abandonadas, fragmentos sem uso e marcas deixadas por décadas de produção fabril. Parte desse desperdício atravessou o portão da PADA Studios, entrou nos ateliers e reaparece agora transformado em obra, numa exposição que abre gratuitamente ao público a 1 de agosto.
A inauguração começa às 18 horas e prolonga-se até às 21, com acesso à galeria e aos espaços onde os projetos foram desenvolvidos. A visita permite conhecer a exposição final do 58.º grupo em residência e entrar nos ateliers, onde permanecem ferramentas, experiências, materiais recolhidos e trabalhos ainda em progresso. A curadoria é da responsabilidade de Sérgio Fazenda Rodrigues, arquiteto, curador e editor com percurso em Portugal e no estrangeiro.
Entre as pessoas que acompanharam este processo está Camila Vale, artista portuguesa integrada através da Bolsa Barreiro, que aproxima a estrutura internacional da PADA de quem já trabalha a partir da cidade. Durante três meses, Camila teve acesso aos ateliers, às oficinas e às atividades da residência principal, antes de apresentar o resultado do percurso numa exposição coletiva. A Bolsa Barreiro conta com o apoio financeiro da Câmara Municipal e destina-se a artistas visuais naturais ou residentes no concelho.
A presença de uma artista ligada ao concelho ganha um peso particular dentro de um projeto instalado num dos lugares mais carregados de memória do Barreiro. Os criadores estrangeiros chegam com referências próprias, enquanto Camila trabalha num território que faz parte do seu contexto próximo. O encontro acontece nos corredores, nas oficinas, nas conversas sobre materiais e nas mudanças que cada trabalho sofre ao longo das semanas.
“O meu projeto vai se focar no estudo das diferentes cores e texturas encontradas na área pós-industrial da cidade, mais concretamente os edifícios da fabrica de tintas. Vou trabalhar no formato analógico 8mm a cores, e portanto há uma conexão entre os objetos e a materialidade da própria imagem analógica. Assim como o passado histórico de ambos.”, explica Camila.
A segunda artista que vive em Portugal e participa na exposição é a francesa Laetitia Morais, escolhida através da Bolsa PADA. Este apoio destina-se a artistas portugueses ou residentes permanentes no País e permite a integração plena no grupo internacional. Laetitia vive no Porto e participa nos dois meses de residência ao lado de criadores provenientes do México, Bélgica, Itália, Filipinas, Áustria, Reino Unido, Países Baixos, Espanha e Dinamarca.
O núcleo internacional reúne Enrique Traver, do México; Francesca Van Haverbeke, da Bélgica; Gaia D’Arrigo, de Itália; Isha Naguiat, das Filipinas; Johanna van der Linden, da Áustria; Kate Broad, do Reino Unido; Kim Winder, dos Países Baixos; Marta Troya, de Espanha; Sophia Siersted, ligada ao Reino Unido e à Dinamarca; Sibylle Feucht, da Alemanha; e Laetitia Morais, de Portugal.
A diversidade geográfica surge menos como uma lista de passaportes e mais como uma sucessão de olhares sobre o mesmo lugar. Durante a residência, todos trabalharam dentro de um antigo armazém químico, rodeado por edifícios industriais, linhas, estruturas metálicas e objetos que perderam a função original. O Barreiro tornou-se matéria de trabalho antes mesmo de qualquer peça chegar à galeria.
Os materiais descartados ocupam um papel central nesta edição. Em vez de procurar superfícies novas e neutras, os artistas recorreram a elementos encontrados na envolvente, levando para os ateliers pedaços marcados pelo uso, pelo abandono ou pela passagem do tempo. Cada intervenção altera a leitura desses objetos, embora conserve vestígios daquilo que foram.
Este contacto com os resíduos do parque prolonga uma característica antiga da PADA. A estrutura instalou-se no Barreiro em 2018 e preservou a escala fabril do edifício, sem tentar transformá-lo num espaço branco e indiferente ao lugar. As paredes, os corredores largos, a arquitetura e a memória da antiga produção continuam visíveis e interferem com aquilo que ali se faz.
Ver esta publicação no Instagram
A equipa apresenta também a cidade aos residentes, criando contactos com a história industrial, os equipamentos culturais e a paisagem envolvente. O objetivo passa por oferecer mais do que um atelier temporário. Os artistas conhecem o território, recolhem referências e percebem como o crescimento industrial moldou o Barreiro, deixando marcas materiais e sociais que continuam presentes.
Os open studios ajudam a compreender esse percurso com maior clareza. Na galeria, as peças aparecem selecionadas e organizadas pela curadoria. Dentro dos ateliers, o público encontra uma versão mais crua dos mesmos dois meses: desenhos preparatórios, tentativas abandonadas, materiais à espera de uso e experiências que conduziram a soluções diferentes.
Essa proximidade altera a forma de visitar a exposição. Em vez de encontrar apenas o objeto concluído, quem entra na PADA pode observar o espaço onde ele foi pensado e perceber quanto trabalho ficou pelo caminho. Um fragmento encostado à parede ou uma mesa coberta de testes pode explicar uma peça melhor do que um longo texto colocado ao lado.
A PADA funciona como uma organização independente, sem fins lucrativos e gerida por artistas. O armazém, com cerca de mil metros quadrados, possui ateliers, galeria, oficinas, biblioteca e áreas comuns, com capacidade para acolher 13 criadores em simultâneo. Desde 2018, mais de 500 artistas passaram pela estrutura, entre mais de duas mil candidaturas recebidas.
Estes números ajudam a situar o Barreiro dentro de uma circulação artística que atravessa países, instituições e diferentes gerações de criadores. A cada residência, o parque recebe novas perguntas e devolve aos artistas materiais, histórias e condições de trabalho difíceis de encontrar noutros contextos.
Conheça os artistas da residência 58 do PADA
Enrique Traver Barbabosa (Cidade do México) | Trabalhando frequentemente com têxteis encontrados, elementos naturais e gestos performativos, cria obras que emergem através da interação direta com locais específicos. Estudou Belas Artes na Parsons School of Design, em Nova Iorque, e Estudos Culturais e de Comunicação Social no Eugene Lang College, tendo-se formado com distinção.
Gaia D’Arrigo (Milão, Itália) | É uma artista multimédia, designer e investigadora sediada em Roterdão. A sua prática centra-se nos ambientes antropogénicos, explorando a forma como os processos industriais, os sistemas de crenças e o património cultural se manifestam na forma material.
Isha Naguiat (Manila, nas Filipinas) | A sua prática combina fotografia e bordado, sobrepondo movimento e textura a imagens estáticas. O bordado torna-se uma forma de revelar ou ocultar, de destacar fragmentos de paisagens, da natureza e dos seres que nelas habitam, ou de os envolver em mistério.
Laetitia Morais (Nascida em Paris, vive no Porto) | A sua prática procura criar uma tensão com o lugar — as suas qualidades espaciais e o seu contexto geopolítico — através de sistemas óticos e ilusórios, nomeadamente o cinema analógico e digital, o desenho e a instalação site-specific.
Marta Troya (Espanha) | Trabalhando com escultura, cerâmica, têxteis, instalação e gravura, a sua prática assenta num diálogo entre a arte contemporânea e o artesanato tradicional. Inspirando-se em colaborações com artesãos de países como Marrocos e a China, ela investiga como o conhecimento ancestral pode oferecer novas formas de compreender o presente.
Sophia Siersted (britânico-dinamarquesa) | O trabalho explora a afantasia, a perceção e a materialidade. As suas pinturas são moldadas pela «sombra de azul que falta» de David Hume: a questão de saber se a mente pode gerar uma imagem que nunca percebeu.
Sibylle Feucht (Suíça) | Vive e trabalha na Alemanha e em Portugal. Explora a relação entre perceção e realidade, desafiando os limites convencionais da representação visual, questionando a imagem como representação, narrativa visual e realidade construída, convidando o espectador a questionar as suas próprias perceções e as narrativas com que se depara.
Kate Broad (Reino Unido) | Dedica-se à criação de imagens que transmitem uma sensação ambígua de lugar. Os elementos do mundo visível e as suas experiências são sugeridos, mas, ao mesmo tempo, parecem inatingíveis. A sua geografia é composta, transitória e multifacetada, aliviando o peso da linguagem e da estrutura das histórias que contam.
Francesca Van Haverbeke (Bélgica) | é uma artista belga que vive e trabalha em Londres.
Kim Winder (Países Baixos) | Artista de instalações sediada em Amesterdão. Trabalhando com mecânica, fotografia analógica e instalações participativas, cria situações que se desenrolam ao longo do tempo e convidam os visitantes a entrar num estado de antecipação.
Camila Vale (Viana do Castelo – Portugal) | É realizadora e artista visual. O seu trabalho concentra-se no cinema analógico e em imagens de arquivo para explorar a memória material dos lugares e o quotidiano. Já viveu em Espanha, França, Bélgica, Chile e Nova Iorque e o seu trabalho desenvolve-se em cinema e instalações audiovisuais.
Carregue na galeria e conheça obras dos participantes da exposição do dia 1 de agosto.







