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Madalena quer ser a primeira portuguesa a atravessar sozinha o Atlântico. Tem 20 anos

A velejadora passou os últimos meses a treinar intensamente para a regata Mini Transat, que se vai realizar em 2027.

No verão de 2013, durante umas férias no Mediterrâneo, Madalena Casanova passou por um episódio que mudaria a sua infância. No terceiro dia da semana, enquanto se preparava para mergulhar, escorregou ao calçar as barbatanas e caiu para dentro de água, batendo nas escadas do veleiro. O corte no braço foi da axila até ao cotovelo, lançando o pânico no resto da família, que estava no meio do mar.

O padrasto e mãe içaram então as velas, apressadamente, para chegarem à ilha mais próxima na Croácia, mas não havia ninguém para os ajudar. Seguiram então para a segunda ilha mais próxima, onde encontraram um homem desconhecido num café que lhes deu boleia de carro até ao centro de saúde, para Madalena receber cuidados médicos básicos. Porém, essa assistência não foi suficiente e a miúda de oito anos foi levada de helicóptero para o hospital de Split.  

Aquilo que poderia ter sido um trauma que a afastaria para sempre de veleiros e do mar, acabou por se transformar numa verdadeira obsessão para Madalena Casanova. Agora, com 20 anos, já é a primeira mulher portuguesa a qualificar-se para a Mini Transat, e quer ser também a primeira a fazê-lo. Este grande desafio é uma travessia atlântica de 7400 quilómetros em veleiros de 6,50 metros, a solo, sem apoio nem comunicações. 

A regata está marcada para 2027. Com início em Les Sables d’Olonne, vai passar por Santa Cruz de La Palma e terminar em Saint-François (Guadalupe). O Pogo 3, embarcação que vai utilizar, combina velocidade, inovação e segurança. A velejadora compromete-se a trazê-lo de volta à Europa pelo mar, reforçando o compromisso com a sustentabilidade.

Com esta viagem, a jovem pretende promover a vela offshore em Portugal e criar oportunidades para outros velejadores portugueses. “Sonho com o dia em que Portugal seja uma referência na vela offshore”, conta à NiT. Mas para atingir este objetivo, terá de investir dinheiro na compra da embarcação, na logística, em materiais e no treino — num valor total de 354 mil euros, que já contempla 10 por cento do fundo do emergência. Por isso, continua à procura de patrocinadores nacionais e internacionais.

Para já, o tema mais urgente é mesmo a compra do tal Pogo 3, que terá de ser concretizada até janeiro de 2026, e para o qual ainda faltam 10 mil euros. Por isso mesmo, foi lançado crowdfunding, através da plataforma Go Fund Me, para quem quiser apoiar esta causa. 

Neste novo ano, Madalena vai arrancar com os treinos no centro Lorient Grand Large, que incluem formações práticas e de meteorologia, preparando-se para a sua regata favorita, a Les Sables – Les Açores – Les Sables (SAS), que a levará à Horta, num regresso simbólico a Portugal.

Uma vida a pensar na vela

Madalena Casanova nasceu em Lisboa, mas tem raízes na ilha de Santa Maria, onde viveu até aos cinco anos antes de a família se mudar para a capital. Passou oito anos a competir em escalada, entre os 9 e os 16 anos. Era uma jovem intensa, meticulosa e muito competitiva — talvez até demais para o seu próprio gosto. Uma lesão no pulso, a saída do treinador e a pressão das competições acabaram por apagar o prazer que sentia pelo desporto. Foi nesse momento que se voltou para a vela, um cenário que oferecia desafios diferentes e a liberdade que nunca encontrou nas paredes de escalada.

O fascínio pelo mar surgiu cedo. Eem 2015, a mãe deixou-a faltar às aulas para assistir à largada da Volvo Ocean Race em Lisboa, onde ficou encantada pelo barco da Puma. Apesar do fascínio, só quando chegou ao 12.º ano é que começou a investir na vela de forma mais séria. Como tinha muitas vezes aulas apenas de manhã, arranjou o primeiro trabalho — a part-time — no único VO65 português (da Mirpuri Foundation), ao lado do skipper António Fontes, no qual fazia manutenção, reparações e apoio nas regatas.

 

“Tinha dias com aulas só na primeira metade do dia e tentava sair o mais rápido possível da escola para ir ajudar no trabalho”, lembra.

Com o incentivo do skipper, mudou-se para Lorient, em França — a “meca da vela offshore”, como Madalena a descreve — para treinar com embarcações da classe IMOCA. Aqui, não só aprendeu a velejar, mas também se formou em meteorologia e noutras áreas práticas essenciais para travessias longas.

Para se qualificar para a Mini Transat, Madalena participou numa prova que a colocou sozinha no oceano durante 11 dias, enfrentando noites longas, cansaço extremo e condições imprevisíveis. “Se soubesse para o que ia, provavelmente não teria aceite”, admite.

Para se manter concentrada, criou rotinas simples: sentava-se na proa à tarde, lia poemas que escrevia ou via em livros, falava com o oceano e até com as gaivotas, e focava-se em pequenas tarefas em vez de pensar nas centenas de milhas que ainda tinha pela frente. Cada dia exigia força mental extra para seguir em frente.

O percurso de Madalena até à Mini Transat está a ser acompanhado num documentário que foca toda a preparação, desafios e experiências que a jovem portuguesa enfrenta enquanto se qualifica para a prova de mil milhas a solo. O filme mostra a parte técnica da vela offshore, mas também o lado humano da aventura: gestão do cansaço, disciplina, treino mental e vida longe de casa.

Carregue na galeria para ver mais imagens da vida de Madalena, sempre junto da sua maior paixão.

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