Uma bateria que cruza jazz com eletrónica, um quarteto francês em estado de combustão, um clarinete a imaginar a Índia e um acordeão português em conversa com um trompete norte-americano. O Jazz no Parque 2026 já revelou o cartaz e volta a levar ao Parque da Cidade uma programação que não trata o jazz como música de nicho, mas como matéria viva, para ouvir sentado na relva, sem bilhete e sem cerimónia. O festival regressa entre 26 e 28 de junho, com entrada livre.
Um dos nomes mais fortes é Mark Guiliana, baterista norte-americano que se tornou uma referência da bateria contemporânea. A sua música vive num ponto de contacto entre o jazz acústico, a eletrónica e uma precisão rítmica quase cirúrgica. Guiliana é daqueles músicos que consegue atrair tanto quem segue jazz, como quem chega pela curiosidade de ver uma bateria tratada como centro criativo de um concerto. No Barreiro, apresenta-se em trio.
Outro destaque é Émile Parisien, saxofonista francês com um dos quartetos mais consistentes do jazz europeu das últimas décadas. A sua música tem intensidade, liberdade e uma energia coletiva que raramente soa acomodada. O quarteto toca junto há vários anos, e essa cumplicidade costuma transformar os concertos em peças de grande tensão e movimento. É um dos nomes que dá peso internacional ao cartaz deste ano.
Também de França chega Louis Sclavis, figura incontornável da música criativa europeia. No Jazz no Parque apresenta “INDIA”, projeto descrito como uma viagem musical imaginária inspirada pelo país asiático. Sclavis nunca foi músico de seguir caminhos demasiado óbvios, e essa é a parte interessante: a Índia surge menos como destino turístico e mais como ponto de partida para uma construção sonora livre.
A edição de 2026 terá ainda Emma Rawicz, saxofonista e compositora britânica apontada como uma das vozes mais interessantes da nova geração do jazz no Reino Unido. Com INKYRA, traz ao Barreiro uma linguagem atual, marcada pela composição forte e por uma forma aberta de trabalhar a improvisação. É um dos nomes a seguir para quem gosta de descobrir artistas antes de se tornarem inevitáveis.
Na abertura do cartaz, aparece também um encontro de peso: João Barradas Trio + Peter Evans. Barradas é um dos acordeonistas portugueses com maior projeção internacional, capaz de atravessar música clássica, jazz e improvisação com uma naturalidade rara. Ao seu lado estará Peter Evans, trompetista norte-americano conhecido pela intensidade e exploração dos limites do instrumento. A junção promete um daqueles concertos em que a técnica existe, mas não fica sentada a posar para a fotografia.
O piano também terá lugar de destaque com o Colin Vallon Trio. O músico suíço, nascido em Lausanne, é reconhecido por uma abordagem delicada, atenta ao silêncio, às texturas e ao espaço entre notas. Num festival ao ar livre, essa subtileza pode funcionar como contraste importante dentro de um cartaz com propostas mais físicas e explosivas.
Entre os nomes portugueses, surge Carlos Barretto Lokomotiv. O contrabaixista é uma figura central do jazz nacional e regressa com um projeto de grande flexibilidade estética. A música de Lokomotiv move-se entre várias direções sem perder eixo, com o contrabaixo a assumir o papel de motor discreto, mas decisivo.
O cartaz inclui ainda VEIA, projeto que junta dois talentos distintos numa proposta construída a partir do encontro entre diferenças. Há também espaço para a formação e para a ligação local, com o Ensemble Jazz Alumni EJB, formado por alunos da Escola de Jazz do Barreiro, e o Ensemble da Academia de Jazz — Os Franceses, agrupamento nascido da relação entre alunos e professores.
Depois de ter sido distinguido como Melhor Iniciativa Cultural nos Prémios NiB 2025, o Jazz no Parque volta a apresentar uma programação com ambição, mas sem perder a característica que o tornou especial: levar música exigente para o espaço público, sem bilhete e sem afastar quem chega apenas por curiosidade.
A curadoria é de Jorge Moniz e a organização, a cargo da Câmara Municipal do Barreiro, tem mantido a aposta numa ideia cada vez mais rara: cultura de acesso livre, feita com rigor e pensada para o espaço público.

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