cultura

Histórias do Barreiro vão chegar ao cinema pelas mãos de miúdos e jovens

O projeto Barreiro em Curtas chega agora a todos os ciclos e já aceita inscrições de professores do concelho para 2026/2027.

Uma conversa com os avós, o coreto do bairro, os sons junto ao Tejo ou uma personagem inventada num caderno podem transformar-se em filmes nas escolas do Barreiro já no próximo ano letivo. O Barreiro em Curtas, projeto educativo e cultural que desafia os estudantes a investigar histórias da cidade e a transformá-las em pequenas obras de cinema, abriu as inscrições para 2026/2027 com a maior novidade desde a sua criação: vai chegar, de forma progressiva, a todos os ciclos de ensino, do 1.º ao 12.º ano.

Até aqui desenvolvido sobretudo com alunos do ensino secundário, o projeto entra agora numa nova fase em que as crianças poderão descobrir os princípios da imagem, do som e da narrativa logo nos primeiros anos de escolaridade. A proposta será adaptada às diferentes idades, para que o cinema acompanhe o percurso dos estudantes: primeiro através de desenhos, sequências, vozes, objetos e histórias simples, depois com pesquisa, escrita de guiões, entrevistas, filmagens, animação e montagem.

Organizado pelo Agrupamento de Escolas de Casquilhos e pelo Cine Clube do Barreiro, em articulação com escolas e entidades ligadas à educação e à cultura, o Barreiro em Curtas convida os alunos a olhar para o concelho como matéria cinematográfica. As pessoas, os edifícios, os bairros, os clubes, os jardins, a memória industrial e as histórias familiares podem servir de ponto de partida para documentários, filmes de animação e outros trabalhos audiovisuais.

“Todos os lugares têm histórias para contar. Algumas estão guardadas nos arquivos, nos livros e nos museus. Outras vivem na memória das pessoas, nos objetos esquecidos, nas fotografias antigas, nos edifícios que resistem ao tempo ou nos sons que fazem parte do nosso quotidiano. O Barreiro é um desses lugares onde a História se cruza diariamente com a memória, o património e a identidade”, explica à NiB a professora de História e coordenadora do Barreiro em Curtas, Helena Sardinha Pereira, de 58 anos.

A professora explica que o projeto “convida alunos e professores a descobrir essas histórias e a transformá-las em cinema e tem por objetivo investigar, entrevistar, observar, questionar e compreender o território com curiosidade, espírito crítico e sensibilidade”.

O novo formato permite que esse olhar comece muito mais cedo. Uma turma do 1.º ciclo poderá criar uma animação a partir de desenhos ou recolher uma história contada por alguém da família. Nos 2.º e 3.º ciclos, os alunos poderão aprofundar a escrita, a pesquisa, o trabalho de equipa e a leitura das imagens. Já no ensino secundário, os projetos ganham maior exigência narrativa e técnica, com decisões sobre realização, fotografia, som e edição.

A progressão transforma o cinema numa aprendizagem continuada, em vez de o reservar para uma experiência pontual perto do final da escolaridade. Ao longo desse percurso, os alunos deixam de ocupar apenas o lugar de espectadores e começam a perceber como cada imagem é construída. Escolher um plano, decidir onde cortar uma cena ou compreender o efeito de um silêncio são também formas de aprender a interpretar os milhares de vídeos que circulam diariamente nos telemóveis e nas plataformas digitais.

Essa dimensão ganha particular relevância numa geração que contacta com conteúdos audiovisuais antes mesmo de dominar plenamente a leitura e a escrita. O projeto aproxima as crianças da criação artística, mas também lhes oferece ferramentas para distinguir escolhas, intenções e diferentes formas de representar a realidade. A câmara funciona como instrumento de expressão e, ao mesmo tempo, como uma forma de observar com mais atenção.

Mário Ventura, diretor do Cine Clube do Barreiro e formador da área documental, explica que o trabalho procura “mais do que dar a conhecer o território, mostrá-lo de uma perspetiva que nem todos conhecem, colocando os jovens em contacto direto com as suas gentes e o seu património cultural material e imaterial”.

A ideia ajuda a perceber por que motivo o Barreiro ocupa um lugar tão importante nos filmes. Os alunos começam por procurar uma história perto de casa, mas esse processo leva-os a conversar com outras gerações, consultar fotografias, visitar lugares e descobrir episódios que muitas vezes passam despercebidos. A cidade deixa de ser apenas um cenário e torna-se parte ativa da criação.

O alargamento abre também espaço para uma participação mais ampla dentro das próprias escolas. Português pode entrar através do argumento e do guião. História e Geografia ajudam a investigar o território. Educação Visual acompanha a composição das imagens. Cidadania atravessa a escolha dos temas e as áreas tecnológicas apoiam a gravação e a edição. Cada curta nasce do cruzamento entre disciplinas, competências e diferentes formas de contar histórias.

A música deverá assumir um papel reforçado em 2026/2027, com o desenvolvimento de bandas sonoras originais para os filmes. Alunos ligados a instrumentos, canto, composição ou gravação poderão integrar as equipas e pensar o som desde o início do processo. Uma cena poderá transformar-se através de uma melodia criada na escola, de um ruído captado na rua ou de alguns segundos de silêncio escolhidos durante a montagem.

Projeto resultou em 27 filmes sobre o Barreiro em 2025/2026

A experiência recente dá ao projeto uma base sólida para avançar até aos primeiros ciclos. Na edição de 2025/2026, cerca de 150 estudantes participaram na produção de 27 filmes, divididos entre 13 documentários e 14 obras de animação. O número mostra o crescimento do projeto desde os sete trabalhos apresentados na primeira edição e quantos jovens já experimentaram fazer cinema a partir do Barreiro.

Elsa Mendes, coordenadora do Plano Nacional de Cinema, acompanhou esse percurso como presidente do júri e encontrou nos trabalhos uma experiência que ultrapassava a habitual apresentação de atividades escolares. “Tivemos realmente uma sessão de cinema”, afirmou. A avaliação terminou com uma previsão breve: “Isto vai longe.”

Esse caminho começa agora a ser percorrido desde os primeiros anos de escola. As inscriçõespara 2026/2027 já estão abertas e destinam-se aos alunos do concelho, através dos respetivos professores e estabelecimentos de ensino. As candidaturas seguem o regulamento da nova edição e as vagas são limitadas.

Depois da inscrição, as equipas iniciam um percurso que inclui formação e acompanhamento durante a pesquisa, a escrita, a criação das imagens, a captação de som e a montagem. No final, os alunos terão uma curta-metragem para apresentar. Muito antes disso, terão aprendido que qualquer rua pode esconder um argumento e que uma história do Barreiro também pode começar pelas mãos de uma criança.

 
 
 
 
 
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