Susana Strada recorda-se da escola Alfredo da Silva, no Barreiro, como se cada corredor fosse um teste diário de resistência. “Com dez anos partiram-me o dedo anelar. Com 11, partiram-me o cóccix. Foi nesse contexto de silêncio que a música se tornou um refúgio”, conta, sem sinais de vitimismo.
“Escrevo para me sentir presente. Transformei cada ofensa em armadura, porque o que vem de fora já não me fere, nem me cura. A música faz-me sentir viva”, apresenta-se a rapper e mentora da Batalha de Rimas do Barreiro, que sobe ao palco do Spot da Juventude já na quinta-feira, dia 21 de agosto.
Mais do que um palco de competição, a Batalha é um laboratório de expressão e liberdade onde rappers se confrontam com improviso, criatividade e um sem número de rimas soltas. Entre os participantes confirmados desta edição estão Quintaboyy, MC e rapper de Espinho, conhecido pelo carisma e presença de palco, e Jão Manin, vindo de Goiânia, que mostra que qualquer um consegue alcançar os seus objetivos.
Peculiar, AF.Chess e Ryanzin.R7 completam o leque internacional de vozes, enquanto em Portugal se destacam FlaysMC, Ned35 – “nascido e criado no Barreiro” – e RealGash, jovens promessas e veteranos que carregam a história do freestyle português.
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Em simultâneo, José Craveiro, artista urbano e tatuador, promete transformar o palco do Spot num espaço de narrativa visual. A organização conta ainda com Dr. Ccs e Kota Phill, “pilares da cena que asseguram a continuidade e autenticidade do movimento.”
Tudo isto a partir das 18 horas, no espaço da juventude das Festas do Barreiro – uma produção conjunta da ADAO, Gasoline, Hey, Pachuco e OUT.RA – com a apresentação a cargo Caios Kaos e os beats do DJ Bifas
Experiência compartilhada
Mestre de cerimónias, Susana Strada conta-nos que a Batalha de Rimas do Barreiro nasceu da urgência de transformar dor em arte. “Nunca fui de me curvar. A cada rima que escrevo sinto-me mais forte. É a minha maneira de devolver ao mundo a energia que antes me feriu”, contextualiza.
“É essa energia que se sente na preparação do evento. Microfones afinados, beats escolhidos, adversários que se estudam discretamente nos bastidores. Desta vez, não estou no palco como rapper. Estou aqui para garantir que cada participante encontre a sua voz, que cada história seja ouvida.”
O freestyle, explica, vai além da competição. “As batalhas são mais do que palavras. São trocas de experiências, resistência e celebração da criatividade. Aqui, cada rima carrega a memória de quem continua a lutar”, enquadra a iniciativa nas tradições hip-hop, que desde a década de 1980, nos Estados Unidos, se valiam do improviso como forma de expressão social e cultural, tornando-se um veículo de resistência coletiva.
Cada rima é avaliada não só pela técnica, mas pela capacidade de envolver a audiência “e de transformar palavras em experiências compartilhadas”.
Da passagem desnivelada ao palco
A Batalha do Barreiro mantém-se fiel à essência do freestyle, cultivando talentos emergentes e estabelecendo um espaço seguro e inclusivo para todos os que querem expressar-se. Das ruas aos bastidores da batalha, Susana vê superação por onde anda. “Vejo-os a crescer, a encontrar confiança no microfone, a perceber que o palco é um espaço de liberdade. E isso, para mim, é tão importante quanto qualquer vitória.”
Da antiga estação dos comboios ao palco do Spot da Juventude, passando por baixo da passagem desnivelada, o percurso da iniciativa, que já vai para a 25.ª edição, encontra semelhança com os caminhos da jovem de 24 anos.
“Aprendi a resistir e fui ficando mais calejada. A dor tornou-se um escudo e a fraqueza superada. Falam nas costas, mas não me dizem à frente. Confundem a loucura com uma mente diferente. Aprendi que a crueldade deles é a fraqueza escondida, quem fala tão mal pelas costas não se foca na própria vida”, cita os versos da sua autoria.
“Cada queda que dou vejo como lição, não como tormento. E se a vida me bate forte, eu bato-lhe mais ainda. Descendente de cabo-verdiana, a minha alma nunca finda”, brinda à esperança na apresentação daquilo que pretende ser uma celebração da liberdade de expressão, da memória coletiva e do poder transformador da música.
Carregue na galeria e conheça os participantes da edição que leva a Batalha do Barreiro ao palco do Spot da Juventude.








