cultura

Há 27 novos filmes sobre o Barreiro. Todos realizados por estudantes do concelho

A segunda edição do Barreiro em Curtas leva ao AMAC documentários e animações trabalhados nas escolas durante o ano letivo.

O Barreiro em Curtas chega à segunda edição com um crescimento muito expressivo e uma ideia cada vez mais nítida: transformar a cidade em matéria de cinema, pelas mãos dos próprios estudantes. O projeto, que na primeira edição tinha registado sete projetos inscritos, apresenta agora 27 filmes realizados por alunos, distribuídos por 13 curtas documentais e 14 filmes de cinema de animação.

O salto confirma a força de uma iniciativa que levou o cinema para dentro das escolas e pôs alunos, professores, formadores e instituições culturais a trabalhar sobre o mesmo território. Ao longo do ano letivo, os estudantes aprenderam a olhar para o Barreiro como quem procura uma história. A memória local, o património, as pessoas, as inquietações juvenis e a relação com o lugar onde vivem passaram para guiões, entrevistas, imagens, sons e sequências de animação.

A apresentação acontece a 2 de junho, no Auditório Municipal Augusto Cabrita (AMAC). A manhã será dedicada ao Festival Barreiro em Curtas, entre as 9 e as 13 horas, com a exibição de 16 filmes selecionados entre os trabalhos desenvolvidos ao longo do ano. A sessão inclui a entrega de prémios, com dois vencedores na categoria de cinema documental, dois vencedores na categoria de cinema de animação e várias menções honrosas.

Nesta segunda edição, o projeto envolveu 74 estudantes na vertente de cinema documental, com 18 projetos iniciados e 13 filmes concluídos. No cinema de animação, participaram 76 estudantes, que desenvolveram 14 filmes. As oficinas chegaram à Escola Profissional Bento de Jesus Caraça, à Escola Secundária de Casquilhos, à Escola Secundária Augusto Cabrita, à Escola Secundária Alfredo da Silva, à Escola Secundária de Santo André, à Escola Secundária Manuel Cargaleiro e ao Colégio Minerva.

A professora Helena Sardinha, uma das organizadoras, olha para esta edição como parte de um caminho que ainda está a crescer. Para o próximo ano, a intenção é “consolidar e expandir o seu impacto educativo e cultural, alargando o projeto a todos os ciclos de ensino, do 1.º ciclo ao 12.º ano”. A ambição passa também por reforçar a rede criada com outros municípios e abrir novas oportunidades de colaboração entre escolas, professores e jovens criadores.

A professora Helena Sardinha e os estudantes em entrevista na Universidade Sénior do Barreiro

Essa vontade de expansão também se cruza com uma ideia de memória. O projeto quer desenvolver a secção “Barreiro Retratos Vivos”, dedicada à recolha e valorização de histórias, memórias e biografias de barreirenses. A proposta encaixa no espírito do Barreiro em Curtas: aproximar os alunos das pessoas, dos lugares e das narrativas que formam a cidade, usando o cinema como ferramenta de descoberta.

Mário Ventura, formador da vertente documental e diretor do Cine Clube do Barreiro, resume a importância do projeto numa frase que ajuda a perceber o que está em causa. “O projeto Barreiro em Curtas continua a afirmar-se como uma iniciativa de referência na formação cinematográfica e na valorização do território barreirense através do olhar das novas gerações.”

Para o responsável, o essencial está na forma como os jovens se aproximam do território. “Mais do que dar a conhecer o território, é mostrá-lo de uma perspetiva que nem todos conhecem, colocando os jovens em contacto direto com as suas gentes e o seu património cultural material e imaterial.” Os filmes tornam-se, assim, exercícios de cinema, mas também de escuta, pesquisa e pertença.

Mário Ventura destaca ainda a evolução da participação. A edição deste ano registou uma taxa de retenção de alunos superior à do ano passado, com vários participantes a frequentar o projeto pelo segundo ano consecutivo. O formador associa esse crescimento ao envolvimento dos professores, já que a ação de formação é certificada para os docentes que acompanham os alunos. Isso permite que o trabalho desenvolvido nas oficinas dialogue com diferentes disciplinas e contribua para o percurso escolar.

O contexto torna a aposta ainda mais relevante. Numa altura em que muitas salas de cinema encerram e o consumo audiovisual se desloca para as plataformas, o Barreiro em Curtas procura devolver aos jovens a experiência de pensar imagens para um ecrã grande. “Um jovem dificilmente aprenderá a apreciar um plano cinematográfico sem compreender a sua construção e intenção narrativa”, defende Mário Ventura.

A vertente de animação, integrada nesta edição, abriu outro campo de experimentação. Sara Naves, formadora da área, descreve o Barreiro em Curtas como uma experiência recebida “com entusiasmo, criatividade e grande envolvimento por parte de professores e alunos”. O trabalho permitiu explorar diferentes técnicas, linguagens visuais e estilos gráficos, sempre a partir de perspetivas ligadas à cultura e à identidade local.

A continuidade já está prevista. A formação deverá aprofundar competências nas áreas da animação tradicional, cut out e stop motion, além de reforçar o contacto dos alunos com práticas contemporâneas de criação audiovisual. O projeto também quer abrir espaço ao desenvolvimento de bandas sonoras originais, dando aos estudantes ligados à música a possibilidade de participar nos filmes através da composição.

O júri do Barreiro em Curtas é composto por Elsa Mendes, coordenadora do Plano Nacional de Cinema; Rui Pires, realizador e montador, vencedor do Doclisboa 2024 e Augusto Cabrita, formado em Ciências da Comunicação e investigador da obra do avô, o fotógrafo e cineasta barreirense Augusto Cabrita.

Curtas da Margem ocupa tarde com filmes de vários concelhos da Margem Sul

Depois da manhã dedicada ao Barreiro em Curtas, o AMAC recebe, entre as 16 e as 19 horas, o Festival Curtas da Margem. Aqui, o foco passa a ser intermunicipal. O festival reúne filmes escolares de vários concelhos da Margem Sul e chega a esta edição com 53 inscrições. Destas, 42 enviaram filmes para a fase final e 15 obras foram selecionadas para exibição.

O Curtas da Margem nasceu em Almada, em 2022, como uma mostra de curtas realizadas por jovens. Em 2024, teve como tema os 50 anos do 25 de Abril e foi aberto a escolas de Almada, com a participação de 37 filmes de sete escolas. Este ano, o projeto ganha uma dimensão mais alargada, juntando escolas do Seixal, Barreiro, Almada e Montijo, no âmbito de uma rede que aproxima jovens criadores, professores, escolas e agentes culturais.

O tema da edição é “Este rio que nos toca”. O Tejo surge como elemento comum entre territórios, memórias e comunidades, aproximando diferentes margens através do cinema. Os filmes abordam temas como saúde mental, ambiente, desigualdade social, identidade, relações humanas, pertença, cidadania e impacto das tecnologias.

Américo Jones, responsável pelo Festival Curtas da Margem, explica que o projeto nasceu “com o objetivo de dar espaço, visibilidade e reconhecimento à voz dos jovens através do cinema e do vídeo escolar”. Para o responsável, a criação audiovisual em contexto educativo é uma ferramenta de expressão artística, reflexão crítica e participação ativa na sociedade.

“Os jovens são vozes essenciais e contemporâneas na utilização do cinema para falar das suas inquietações, identidades e preocupações com o mundo contemporâneo”, afirma. Foi essa convicção que levou à vontade de alargar o projeto a outros municípios, criando uma rede de partilha entre escolas, professores e jovens criadores.

O festival vai atribuir sete distinções: Grande Prémio Curtas da Margem, 1.º Prémio, 2.º Prémio, 3.º Prémio e três menções honrosas. O júri é composto por Fernando Galrito, diretor criativo do Festival Monstra e realizador de cinema de animação, Elsa Mendes, coordenadora do Plano Nacional de Cinema, Mariana Sousa, escritora, José Paiva, jornalista e João Miguel Fonseca, músico.

A organização do Curtas da Margem é do Coletivo Artístico O Porco Voador. O festival conta com apoio financeiro da Câmara Municipal de Almada, da Junta de Freguesia do Laranjeiro e Feijó e da Junta de Freguesia da Charneca de Caparica e Sobreda, além do apoio da Academia Almadense.

No mesmo dia, o AMAC junta dois movimentos complementares. De manhã, o Barreiro vê os filmes feitos pelos seus estudantes sobre o próprio território. À tarde, a cidade recebe uma rede mais ampla de jovens criadores da margem sul. Em comum, fica a mesma ideia: quando a escola abre espaço ao cinema, os alunos deixam de ser apenas espectadores e passam a contar o mundo que têm à volta.

Organizado pelo Agrupamento de Escolas de Casquilhos e pelo Cine Clube do Barreiro, em articulação com os agrupamentos de escolas do concelho, a Academia de Jazz Os Franceses, a Universidade Sénior do Barreiro e o Plano Nacional de Cinema. O projeto conta ainda com financiamento do ICA, Instituto do Cinema e do Audiovisual, da Fundação Amélia de Mello, do Município do Barreiro e do Rotary Club do Barreiro.

Carrega na galeria para ver algumas imagens de locação dos filmes produzidos por estudantes do Barreiro.

FICHA TÉCNICA

  • MORADA
    Av. Escola dos Fuzileiros Navais 53A
    2830-149  Barreiro
  • HORÁRIO
  • De terça a domingo, das 14h às 20h

ARTIGOS RECOMENDADOS