Garrafas de refrigerantes desaparecidos, latas antigas de azeite, reclames de restaurantes, receitas escritas à mão, memórias de tabernas e até códigos usados por operários para pedir bebidas dentro do antigo complexo industrial da CUF. A próxima exposição do Barreiro Cidade dos Arquivos parte da gastronomia, mas entra por uma porta muito maior: a forma como a cidade comeu, bebeu, trabalhou, resistiu, conviveu e guardou histórias que quase nunca chegam aos livros.
A mostra “Comer, beber, cozinhar e temperar. A gastronomia na Cidade dos Arquivos” vai ser inaugurada a 9 de junho, no Dia Internacional dos Arquivos, no Moinho Grande de Maré, fica patente até 30 de junho e tem entrada gratuita.
A montagem ainda está em curso, com objetos espalhados pelas mesas, documentos a serem organizados e memórias a chegarem de diferentes arquivos, colecionadores, doações e leilões. A New in Barreiro acompanhou os bastidores da montagem da exposição, que está a pedir ajuda à população para encontra novas peças e histórias sobre o papel da alimentação na história do Barreiro.
O curador Nuno Teixeira explica que o projeto parte de uma ideia ampla. Além dos sete arquivos ligados ao projeto, entram também parceiros da comunidade científica, educativa e artística para montar exposições. Todos os anos, o Barreiro Cidade dos Arquivos escolhe um tema e constrói uma exposição a partir dele. Já o fez com os 50 anos do 25 de Abril e, no ano passado, com a ligação entre o complexo industrial da CUF e as minas. Quase sempre, essas exposições circulam pelo país e ajudam a preservar histórias que não chegaram aos livros.
Esse percurso interessa a Nuno porque mostra que as exposições continuam a circular depois da primeira apresentação. “Não ficam por aqui, não se perdem. Ficam vivas”, afirma. A nova mostra segue a mesma lógica, agora com a comida como ponto de partida. Falar de gastronomia no Barreiro é falar de fábricas, de bairros operários, de tabernas, de mercearias, de pesca, de conservas, de receitas familiares e de pequenos negócios que marcaram ruas inteiras.
“A ideia é focar no Barreiro, mas também sair para fora”, explica o curador. A exposição olha para a gastronomia “no seu sentido mais lato” e organiza parte do percurso a partir dos setores primário, secundário e terciário. Ou seja, o que se produzia, o que se transformava e onde se vendia ou servia comida e bebida.
Na prática, isto permite juntar no mesmo espaço uma garrafa de refrigerante, um anúncio de um restaurante, uma lata de óleo produzida para a CUF, um caderno de receitas do século XIX e a memória de uma taberna que desapareceu da rua, mas continuou na cabeça de quem lá passou.

Entre os objetos já reunidos estão referências a antigas fábricas de refrigerantes, como a Pérola e a J. Gouveia, que funcionavam no Barreiro. Surgem também peças ligadas à CUF, incluindo refrigerantes e produtos associados ao universo industrial da cidade. Nuno lembra ainda a ligação à Compal, então relacionada com a família Mello, dona da CUF, e mostra vinhos da Quinta das Canas, associados à Quinta da Lomba.
A exposição inclui ainda a Xanga, apontada pelo curador como a primeira cerveja artesanal feita no Barreiro, já nos anos 2010, além da famosa ginjinha associada à cidade. As mesas de montagem revelam também outro lado, mais doméstico e íntimo. Estão ali receitas antigas, cadernos manuscritos, reclames de restaurantes e referências às bolas de manteiga.
Alguns documentos chegam do Arquivo Ephemera, que guarda materiais muito diferentes, desde papéis políticos a objetos da vida quotidiana. Um dos cadernos de receitas mostrados por Nuno é do século XIX, ainda escrito à mão. A força da peça está menos na raridade e mais no gesto: alguém cozinhou, escreveu, guardou e o papel atravessou décadas até chegar a uma exposição sobre a memória alimentar da cidade.
Também entram histórias mais inesperadas, como a das Pastilhas May, uma fábrica de caramelos e pastilhas em Coina, que fechou em 1983 e fazia coleções de cromos. Ou seja, estes elementos vão estar expostos e têm a capacidade de despertar a memória inteira de quem cresceu com esses objetos. É exatamente esse tipo de ligação que o projeto procura: a comida e os produtos alimentares como forma de abrir conversas sobre infância, trabalho, ruas, consumo e vida familiar.
Exposição está a catalogar tabernas, bares e restaurantes dos anos 30 e 40
Uma das partes mais fortes da exposição será dedicada ao levantamento de antigas tabernas, restaurantes, mercearias e casas de venda de comida. A equipa está a trabalhar sobre duas ruas centrais da memória barreirense: a Rua Miguel Pais e a Rua Conselheiro Joaquim António de Aguiar, descrita por Nuno como a principal rua do Barreiro até às décadas de 30 e 40.
A ideia passa por criar mapas e marcações com os nomes dos espaços que existiam em cada número. Taberna, mercearias, restaurantes e pontos de convívio vão regressar ao percurso, mesmo que muitos já tenham desaparecido fisicamente.

Para quem cresceu no Barreiro, esta pode ser uma das zonas mais emotivas da mostra. Nuno imagina visitantes a chegarem com os pais ou avós e a reconhecerem lugares que já só existem em conversas familiares. “Estamos a fazer um levantamento de tudo o que eram tabernas, restaurantes e mercearias”, explica. O objetivo passa por devolver essas moradas à cidade, com nomes, números e pequenos fragmentos de memória.
Outra mesa vai olhar para dentro do antigo complexo industrial da CUF. Depois da nacionalização, em 1975, surgiram junto às fábricas pequenos bares e pontos de apoio geridos pelos próprios trabalhadores. Serviam pequenos almoços, almoços, café e, muitas vezes, bebidas que oficialmente ficavam escondidas atrás de códigos. Nuno conta que “Maria loira” podia ser cerveja e “Álvaro Cunhal” podia significar bagaço. O humor operário, a necessidade e a transgressão mínima conviviam no mesmo balcão improvisado.
“O mais bonito de tudo isto são estas histórias que ninguém sabe”, diz Nuno. Para o curador, o valor está justamente no vocabulário, nos nomes, nas alcunhas, nas práticas que nunca foram formalmente catalogadas. São memórias de trabalho e de sobrevivência, mas também de festa, de pausa e de comunidade.
O programa de 9 de junho começa pela manhã, com visitas guiadas aos arquivos parceiros da Cidade dos Arquivos. O percurso vai passar por vários espaços ligados ao projeto, incluindo a Fundação Amélia de Mello, PADA Studios, coletivo SPA, Museu Industrial, Espaço Memória, Clube Chapas, Arquivo dos Portos e aos Arquivos Ephemera. Este ano, o final da visita deverá coincidir com a inauguração do Armazém 4 do arquivo, que guarda a memória de Portugal no Barreiro.
Às 15h30, o auditório da Casa da Cidadania Cabós Gonçalves recebe a conversa “Comer em tempos difíceis”, moderada por José Pacheco Pereira. O tema cruza fome, trabalho e resistência no final dos anos 70 e início dos anos 80, um período marcado por salários em atraso, despedimentos e dificuldades sociais. Entre as histórias abordadas está a ocupação do antigo supermercado Pão de Açúcar por trabalhadores com vários meses de salários em atraso no início dos anos 80. Segundo Nuno, o episódio envolveu carrinhos cheios de comida, tensão com a polícia e a intervenção de Mário Soares para resolver o problema.
A conversa deverá ainda passar pelos pescadores da borda d’água do Barreiro e pelo chamado “peixe para o gato”, o peixe pequeno ou sem valor comercial, que muitas famílias usavam para comer quando havia pouco. Também serão abordadas memórias de operárias conserveiras e do chamado “peixe desviado”, levado para alimentar famílias pobres, de presos políticos ou pessoas perseguidas durante a ditadura.
A inauguração da exposição está marcada para as 18 horas, no Moinho Grande de Maré. Depois, por volta das 19 horas, haverá uma sunset party com DJ e prova de comidas e vinhos tradicionais do Barreiro. Todo o programa é gratuito.
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Até lá, a organização continua à procura de histórias, fotografias e objetos que possam completar a exposição. O apelo foi lançado nas redes sociais e dirige-se a quem trabalhou nestas áreas, que tem materiais guardados em casa ou a quem conhece memórias ligadas a antigas tabernas, fábricas, restaurantes, mercearias, pesca, conservas ou receitas familiares. “Estamos a fazer open call nas redes sociais para que as pessoas nos contactem e contem histórias”, diz Nuno.
A exposição ainda está a ser montada, mas a promessa já se percebe nas mesas cheias de peças. O Barreiro vai falar de comida, sim. Só que, desta vez, cada garrafa, receita e taberna antiga servem para contar tudo o que a cidade pôs à mesa quando precisou de trabalhar, celebrar ou simplesmente matar a fome.
Carregue na galeria para ver imagens da organização da exposição que abre em 9 de junho.








