A melhor bússola para entrar numa biblioteca raramente está na sinalética. Costuma morar noutra parte. Num canto da memória, ou em livros herdados, quem sabe numa página dobrada aos 15 anos, numa dedicatória antiga ou num romance. É justamente nestes pequenos sinais que começa a exposição “Constelação de Cinco Estrelas”, patente na Biblioteca Municipal do Barreiro até 5 de setembro.
O pretexto foi o Dia Mundial do Livro. O resultado ficou bem maior do que uma efeméride. Durante vários meses, a biblioteca mostra os títulos que ficaram cravados na vida de 22 leitores do Clube de Leitura, um projeto que, desde 2022, vem juntando pessoas de idades, percursos e sensibilidades diferentes à volta da literatura.
Cada participante foi desafiado a escolher cinco livros decisivos. Ao todo, são 110 escolhas, distribuídas por 98 títulos diferentes. E basta imaginar o peso dessa decisão para perceber a matéria desta mostra.
Lurdes Lopes, da Divisão de Cultura da Câmara do Barreiro, põe a questão de forma certeira: “Existe melhor maneira de assinalar o Dia Mundial do Livro? A Biblioteca decidiu inaugurar uma exposição com os livros da vida dos seus leitores”.
E os leitores passam para a linha da frente. Levam consigo os títulos que os feriram, consolaram, empurraram, salvaram, desarrumaram ou acompanharam durante anos.

Essa escolha, feita em comunidade, também ajuda a explicar o desenho final da mostra. “É muito engraçado ver que alguns desses livros foram lidos precisamente no Clube, o que prova que em comunidade, e ao estarmos uns com os outros, descobrimos sempre coisas novas e que nos preenchem”, observa a responsável.
Entre as 110 escolhas, há livros que regressam em mais do que uma lista, tendo conquistado leitores diferentes. É o caso de “1984”, de George Orwell, “A Amiga Genial”, de Elena Ferrante, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”, de José Eduardo Agualusa, “A Breve Vida das Flores”, de Valérie Perrin, “Morreste-me”, de José Luís Peixoto, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, de J. K. Rowling, “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, e “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. A repetição enriquece a exposição. Mostra afinidades silenciosas. Revela pontos de encontro entre percursos que, à partida, poderiam parecer muito distantes.
Os livros expostos vêm das estantes pessoais dos leitores que os escolheram e, noutros casos, do acervo da própria Biblioteca Municipal do Barreiro. O que está exposto na biblioteca também conta a história da cidade, mesmo quando os cenários dos romances ficam longe do Barreiro.
“Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes, regressa ao território de uma forma quase física, pela mão de quem leu o livro aos 12 ou 13 anos e escreveu, na justificação que acompanha a escolha, que encontrou nele “uma infância junto ao Rio Coina, no Barreiro, e num bairro social”.

“A Amiga Genial“, de Elena Ferrante, acende uma ponte inesperada entre Nápoles e a cidade operária onde uma leitora nasceu, cresceu e aprendeu a medir a distância entre o destino traçado e a vontade de ir mais longe. Na explicação deixada para a exposição, conta que aquele romance se ligou ao Barreiro “moldado pelo trabalho, pela luta por melhores condições de vida e pelo desejo de ir mais longe do que o destino que parecia traçado”.
“Fragateiros do Tejo”, escrito por Marcolino Fernandes, leva a exposição até às margens do rio e à memória fluvial de famílias inteiras. Quem o escolheu resumiu-o, também por escrito, de forma luminosa: “é mais que memória ou história: é um retrato vivo de uma cultura fluvial quase desaparecida”.
Depois entram os livros que obrigam a erguer os olhos para o tempo em que vivemos. “1984” aparece mais do que uma vez, com o peso intacto de quem continua a soar como aviso. Numa das justificações deixadas pelos leitores, surge uma frase que basta por si mesma: “Gostava de viver numa época onde este livro fosse uma distopia distante”. Já “A Quinta dos Animais” traz a sátira afiada de George Orwell, ainda capaz de ferir regimes, fanatismos e servidões de várias cores.
“American Psycho” surge pela violência, sim, mas sobretudo pelo retrato de “um vazio humano gerado por um capitalismo levado ao extremo”, como escreve um dos participantes. “O Acontecimento“, de Annie Ernaux, chega com a força de um testemunho sentido como “uma honestidade brutal”, atravessado por solidão, medo e humilhação. “To Kill a Mockingbird“, de Harper Lee, “Luz em Agosto“, de William Faulkner e “O Avesso da Pele“, de Jeferson Tenório, recordam que o racismo se entranha de formas persistentes, atravessando décadas, geografias e sistemas.
A sala também guarda refúgios. E isso talvez seja uma das partes mais bonitas desta constelação. “Harry Potter e a Pedra Filosofal” aparece como abrigo e promessa de amizade absoluta. Na nota que acompanha a escolha, uma leitora explica que a magia “permitia-me ter o meu próprio mundo onde tudo era possível”. O livro fica associado à adolescência, ao amor e ao conforto de regressar a um universo familiar.
E depois chegam os livros que se colam à pele pela via mais íntima. “Gabriela, Cravo e Canela“, de Jorge Amado, fica ligado à figura de uma avó ferozmente independente, magnífica e terrível ao mesmo tempo. “Morreste-me“, de José Luís Peixoto, encosta-se ao luto e à tentativa de transformar ausência em presença. “Não consigo ler este livro e não me emocionar”, justifica quem o escolheu.
“A Viagem de Théo“, de Catherine Clément, passa de mãe para filha e ganha uma segunda vida, porque, como a leitora que o escolheu explica na sua nota, “o livro antigo, torna-se novo”. “O Mundo de Sofia“, de Jostein Gaarder, acompanha uma leitora desde os 12 anos e deixa um pacto íntimo de questionamento permanente. “Oração para Desaparecer“, de Socorro Acioli, liga ficção, família e viagem real até Almofala, no Ceará, provando que certos livros não acabam na última página. Em muitos casos, o que se vê na biblioteca é muito mais do que uma capa com lombada.
Há ainda outro prazer nesta exposição: o da surpresa. Lurdes Lopes resume-o assim: “Os visitantes vão com certeza ver livros marcantes e habituais nestas listas, mas vão ser surpreendidos com títulos menos óbvios e até desconhecidos”. Esse lado surpresa faz parte do convite.
A exposição junta José Saramago e Susanna Clarke, Elena Ferrante e Steven Erikson, Victor Hugo e Socorro Acioli, Mia Couto e Tânia Ganho, Chimamanda Ngozi Adichie e Bruno Vieira Amaral. A mistura diz muito sobre o grupo que a construiu, mas diz ainda mais sobre a liberdade de um leitor quando escolhe com o coração.
Quem visita “Constelação de Cinco Estrelas” entra numa exposição de livros, mas sai com outra perceção do que uma biblioteca pode ser. Um lugar de empréstimo, sim. Um lugar de encontro, também. Um lugar onde as estantes guardam vidas inteiras, por vezes em silêncio, à espera de serem contadas. E talvez seja essa a razão maior para passar por lá com tempo.
Ler os títulos, os motivos das escolhas. Reconhecer um ou dois. Descobrir dez. Apontar outros tantos para futuras leituras. Sentir, no fim, aquela vontade de levar um livro para casa e começar logo nessa noite.
Carregue na galeria e conhece os livros que marcam presença exposição, citados por mais de um leitor.








