Uma caderneta de pecados guardada desde a infância pode parecer pouca coisa diante dos milhares de livros, cartazes, panfletos, fotografias, relatórios, espólios políticos e colecções raras que fazem do Ephemera, um dos maiores arquivos privados da Europa.
No novo Armazém 4, inaugurado esta terça feira, 9 de junho, no Barreiro, é justamente esse pequeno livro que ajuda a explicar para que serve um arquivo.
Ana Luísa Janeira tinha sete anos quando escreveu, antes de uma confissão, o que devia dizer ao padre. “Anotei: padre pequei. Padre, fui gulosa.” Também registou que tinha mentido, que tinha deixado trabalhos por fazer e que tinha falhado pequenas obrigações da infância.
A caderneta ficou guardada durante décadas e abre agora o que Ana Luísa chama de “Arquivo Vivido”, uma instalação documental que reúne parte da vida pessoal e profissional da filósofa, professora universitária e escritora nascida em 1943.
“Esta caderneta é a primeira peça deste arquivo e nem sabia que estava a começar um arquivo”, contou Ana Luísa à NiB. A escolha do início muda a forma como se olha para a estante. O acervo começa numa criança educada num Portugal católico, a transformar culpa em papel, e chega a uma mulher que atravessou universidades, países, viagens, aulas, livros, projectos de investigação e muitas formas de intervenção cívica. Entre uma ponta e outra, o arquivo tornou-se casa.
“Sou uma nómada”, diz. Viveu no Porto até à licenciatura, mudou-se para Lisboa, deu aulas em França e Inglaterra, passou pelo Canadá, viajou por África, percorreu a América do Sul e chegou à Nova Zelândia sozinha. A própria explica que essa vida em deslocação só foi possível porque existia um ponto de regresso. “Só consegui ser nómada por causa deste arquivo. Ele trazia-me de volta.”
A frase dá sentido ao conjunto que passa agora a estar disponível no Barreiro. “Este arquivo representava eu estar viva. Quando chegava em casa, ele estava lá.” Para Ana Luísa, os papéis, os livros, os mapas, os cadernos, as fotografias e as recordações funcionavam como prova de continuidade.
“Pude viajar pelo mundo porque tinha o arquivo.” No regresso, acrescenta, “o grande reconforto era aquilo estar lá”. A conclusão vem sem aparato. “Só se é nómada quando se tem um ponto de referência.”
O “Arquivo Vivido” cobre o período entre 1950 e 2020 e reúne fotografias de infância, fontes para provas de agregação, teses, publicações, correspondência, esquemas de aulas, materiais de conferências, trabalhos com alunos, gravações, suportes fílmicos, mapas, apontamentos de viagem, livros de cabeceira e cadernos manuscritos de cozinha. A instalação nasceu de um escritório onde existiu uma biblioteca pessoal com cerca de cinco mil livros, doada em 2011 a várias instituições.
O valor do conjunto está na forma como junta o que costuma andar separado. A tese universitária aparece perto do caderno doméstico. A viagem aparece perto da aula. A memória religiosa da infância conversa com os estudos sobre ciência, museus e laboratórios.
Ana Luísa defende que este arquivo tem uma marca feminina. “Tudo o que se vê aqui só mesmo uma mulher pode ter colecionado.” E acrescenta: “este arquivo nunca seria feito por um homem”, porque “só uma mulher vai olhar para a maioria das peças que cá estão com o significado”.
Essa é também a ligação mais interessante com o novo momento da Ephemera no Barreiro. O Armazém 4 abriu para organizar materiais que estavam dispersos, receber novos espólios e criar melhores condições de trabalho para investigadores, jornalistas, escolas e outros interessados.
O espaço junta várias bibliotecas temáticas, entre livros proibidos pela ditadura, comunicação social e colonialismo, além de acervos pessoais que ajudam a contar a história contemporânea por dentro. A lógica da Ephemera passa por salvar materiais que muitas vezes desapareceriam em casas, gavetas, escritórios, sedes de associações ou bibliotecas privadas.
No meio de colecções com milhares de documentos, a estante de Ana Luísa lembra que a memória coletiva também se faz de objetos muito pequenos. Uma caderneta de confissão pode dizer tanto sobre educação religiosa, infância feminina e disciplina moral num certo Portugal como um documento oficial. Um caderno de cozinha pode ajudar a ler uma vida intelectual com mais verdade do que uma lista de cargos. Uma nota de viagem pode revelar o modo como uma investigadora construiu o seu olhar sobre o mundo.
O Ephemera é o maior arquivo particular de Portugal e um dos maiores da Europa. Com o Armazém 4, passa a ter três espaços no Barreiro e reforça a cidade como lugar de arquivos. O novo núcleo reúne bibliotecas especializadas, espólios e materiais ligados à história política, social e cultural contemporânea. O “Arquivo Vivido” entra nesse contexto como uma peça diferente, mais íntima, quase uma pequena sala dentro da grande casa da memória.
Entre os documentos, Ana Luísa guarda ainda uma história de Paris ligada ao roubo de um livro de uma famosa biblioteca. Conta o episódio com humor, como parte de uma geração para quem a passagem por Paris também envolvia pequenas transgressões. “Toda a gente fez isso uma vez.” Havia, diz, “uma necessidade de sentir que tirávamos ao capitalismo” alguma coisa. “Algo engraçado, muito engraçado.” O detalhe entra no mesmo arquivo que guarda pecados de infância e materiais de investigação. A vida raramente cabe em gavetas limpas. O livro roubado faz parte do acervo.
Ana Luísa nasceu em Miramar, Arcozelo, filha de António Janeira, arquiteto, e de Maria Janeira, aguarelista. Cresceu numa família tradicional católica da burguesia nortenha e foi a primeira da família mais próxima a frequentar o ensino público, usar calças, fumar, casar pelo civil e divorciar-se. Definiu-se como “um misto de submissa e de rebelde, nem no sistema, nem à margem. Nas margens.”
Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e concluiu o doutoramento em Filosofia Contemporânea em Paris. Foi professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa entre 1976 e 2010 e contribuiu para a implementação da História e Filosofia das Ciências em Portugal. Investigou laboratórios de Química, jardins botânicos, museus de ciências, missões jesuíticas, coleccionismo, relações entre universidade e empresa e patrimónios científicos e culturais.
A biografia ajuda a situar a mulher, mas o arquivo talvez a explique melhor. No novo armazém da Ephemera, Ana Luísa chega ao público pela peça mais pequena e mais reveladora. Uma menina escreveu pecados para um padre. Uma mulher guardou esse papel durante toda a vida. Agora, esse ponto de referência também ficou disponível para quem quiser perceber como uma existência se transforma em memória.
Ephemera com 150 voluntários espalhados por Portugal
O Armazém 4 reforça a presença da Ephemera no Barreiro e junta bibliotecas que estavam dispersas, espólios pessoais, arquivos políticos, materiais raros e colecções difíceis de encontrar reunidas no mesmo lugar.
Um dos núcleos de maior destaque é a Biblioteca de Comunicação Social Francisco Pinto Balsemão, formada por mais de mil livros doados pelo fundador do “Expresso” e pela sua família, com obras ligadas à televisão, imprensa, estudos de mercado e aos primeiros anos da SIC.
O espaço inclui ainda materiais associados a Emídio Rangel e ao início das rádios pirata, além de bibliotecas dedicadas a livros proibidos pela ditadura, à experiência colonial portuguesa, à banda desenhada, às religiões e crenças e à matemática.
Abriga, ainda, centenas de livros censurados durante o Estado Novo. Muitos circularam livremente antes de serem apreendidos pela censura, outros desapareceram das livrarias ou acabaram destruídos. Os exemplares que sobreviveram em bibliotecas privadas, espólios e coleções particulares estão agora a integrar uma nova biblioteca dedicada exclusivamente às obras proibidas pela ditadura.
A abertura do Armazém 4 integra a iniciativa Cidade dos Arquivos e confirma o Barreiro como o principal centro da Ephemera em volume de documentação. A associação cultural conta com cerca de 150 voluntários em todo o País e reúne, segundo Pacheco Pereira, cerca de 750 mil títulos, um milhão de panfletos, materiais de cem países, dezenas de milhar de cartazes e fotografias, além de milhares de pins e objectos. São mais de 6 quilómetros de estantes.
A consulta continua a funcionar mediante marcação, como já acontece atualmente com investigadores, jornalistas, escolas, universidades seniores e outros interessados nos fundos do arquivo.
Carrega na galeria para conhecer um pouco mais sobre o “Arquivo Vivido” da Ana Luísa Janeira.








