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Esta professora do Barreiro leva os alunos ao teatro à sexta-feira à noite há 30 anos

Milucha Santos dá aulas na Escola Secundária dos Casquilhos e criou uma tradição rara desde 1998.

Numa sexta-feira à noite, ainda há alunos do ensino secundário que entram num autocarro para ir ao teatro. Não vão por obrigação, nem por uma visita de estudo. Vão porque uma professora do Barreiro insistiu em mostrar-lhes que uma peça de teatro pode mudar a forma de olhar para o mundo. E porque essa insistência acabou por virar uma tradição durante quase três décadas.

Aos 59 anos, Milucha Santos dá aulas de Filosofia na Escola Secundária dos Casquilhos, no Barreiro, e leva alunos ao teatro desde 1998. Dito assim, parece apenas um dado, mas é uma linha contínua desenhada sobre a vida de centenas de jovens, uma rotina improvável que atravessou reformas do ensino, burocracias, turmas difíceis, mudanças de direção, cansaços, doenças, modas e épocas.

Ao longo destes anos, o gesto repetiu-se com a discrição das coisas realmente importantes: combinar a saída, tratar das autorizações, articular horários, garantir os bilhetes e o transporte, reunir colegas, mobilizar turmas, seguir numa sexta-feira à noite para uma sala escura onde alguém sobe ao palco e, durante uma ou duas horas, suspende o ruído cada vez maior do mundo ao redor do jovens.

Esta história começa em 1998, no ano da Exposição Mundial dos Oceanos, em Lisboa. Milucha foi convidada a participar num projeto no Teatro Municipal do Barreiro com a companhia Arte Viva. Aqui conheceu um professor ligado às artes, num espetáculo cujo nome hoje parece trazer consigo uma ironia delicada: “Enquanto Espero por ti Meu Amor”.

A peça era experimental, reunia professores, alunos e atores. Milucha entrou no projeto e ficou ligada ao grupo graças ao trabalho de produção e divulgação. Já era professora e, nesse mesmo ano, lembrou-se de convidar alguns alunos para assistir ao espetáculo.

“Já existe há 28 anos”, confessou em conversa com a New in Barreiro, enquanto recuava no tempo sem pressa, num regresso calmo a uma memória antiga que conserva inteira.

Como tudo começou

No início, tudo era mais rudimentar. “Era uma coisa tosca”, resumiu, sem rodeios. “Convidava os alunos e só ia quem queria. Não havia nome, forma, cartaz institucional ou arquitetura do projeto”. Havia vontade de mostrar algo que não estava numa sala de aula. E talvez seja isso o mais difícil de explicar hoje, num altura em que quase tudo parece precisar de um formato para poder existir.

Mais tarde, entre 2008 e 2009, a ideia ganhou outra estrutura. “Um ator do Barreiro, então ligado ao Teatro de Almada, foi à escola divulgar uma peça e levar materiais de promoção. O objetivo era aproximar os jovens da programação”. Milucha percebeu que o projeto podia ganhar escala.

Passou a organizar as idas como visitas de estudo e deu-lhes um nome. “Pensei: porque não criar um projeto de ‘Idas ao Teatro’?” E foi assim que tudo começou. Uma vez, depois outra e outra. Hoje, regra geral, vão pelo menos três vezes por ano, uma por período, alternando entre o Barreiro e Almada, quase sempre à sexta-feira à noite.

É esse detalhe que dá ao projeto uma beleza pouco ruidosa. Não acontece a meio da manhã, protegido pela moldura disciplinar da escola, mas numa noite de sexta-feira, no momento em que tantas outras solicitações disputam a atenção dos adolescentes. Levar alunos ao teatro a essa hora é um gesto mais radical do que parece. Exige convicção, paciência e a construção de um vínculo que vá além da aula.

“No início não foi muito fácil levá-los a uma sexta-feira à noite, mas fomos construindo uma história que os foi convencendo. Agora já não é tão difícil. Perceberam que há esta tradição.”

“Aprendi a ver teatro consigo”

Milucha nunca acreditou no argumento de que os jovens não se interessam por teatro. “Acho que muitos deles, como nunca tinham ido, não sabem se gostam ou não.” A resistência inicial, diz ela, vem do desconhecimento, não de uma recusa verdadeira. É preciso atravessar essa primeira barreira. Depois, alguma coisa pode acontecer.

E aconteceu. Milucha recorda um episódio que se passou na turma de um  curso de Construção Civil, composta quase só por rapazes. Um dos alunos teve um processo disciplinar, uma ocorrência suficientemente séria para justificar um castigo. A sugestão dela foi inusitada: levá-lo ao teatro, algo que ele dizia detestar. “Nunca tinha entrado numa sala daquelas. Ficou fascinado”.

Anos depois, já fora da escola, Milucha encontrou-o por acaso em Lisboa, na antiga Cornucópia, lugar de peças exigentes e espectadores fiéis. O ex-aluno reconheceu-a e aproximou-se. “Ó professora, aprendi a ver teatro consigo.” Há frases que justificam uma vida profissional. Esta é uma delas.

A história das idas ao teatro não se mede apenas em números, embora impressionem. Houve anos em que foram cem alunos de uma só vez. No Barreiro, por vezes, a sala parecia quase só deles. Em Almada, onde o espaço é maior, diluíam-se no conjunto do público, mas iam os alunos com a naturalidade de quem já sabe que aquele lugar também lhe pertence.

Nada disto acontece por acaso. Milucha fala com gratidão das relações construídas com os teatros do Barreiro e Almada. Ressalta a colaboração das companhias, dos convites para apresentações de temporada, ensaios e conversas sobre as peças. “Na escola, temos a parceria de professores de História, Português e outras áreas que passaram a aderir ao projeto e a acompanhá-lo”. O que começou quase sozinha tornou-se uma prática partilhada.

O critério de escolha das peças desmente a ideia de que estas saídas existem apenas para animar a vida escolar. Milucha vê os espetáculos antes de levar os alunos. Às vezes assiste a ensaios ou ao ensaio geral. Quer perceber se aquela matéria pode depois ser discutida na aula de Filosofia, História ou Português. “Uma peça de teatro é tão transversal que pode ser analisada sob vários pontos de vista.”

Não serve apenas para discutir personagens ou enredos. “Pode levar um aluno de artes a pensar em cenografia. Pode fazer outro perguntar quem cria os figurinos. Pode mostrar que o teatro é também trabalho técnico, invenção visual, desenho, engenharia do visível e do invisível. O teatro é tão rico”, diz Milucha, explicando que há alunos que descobrem ali, pela primeira vez, possibilidades concretas de futuro ligadas às artes.

O que dizem os alunos

Sidnelma Trindade, 17 anos, já não estuda na escola, mas continua a pedir para ser avisada sempre que há uma nova ida ao teatro. Para a jovem, que quer seguir Psicologia, estas saídas acabaram por ganhar um lugar próprio no meio de uma rotina de estudo exigente.

“Para mim, o teatro foi um momento de calmaria”, diz. “Como temos essa rotina tão ocupada, acabamos por não ter muito tempo para pensar em ir ao teatro ao fim de semana.”

Nas sextas-feiras à noite, explica, havia ali qualquer coisa que quebrava o peso dos testes, dos horários e da pressão diária: “Faz com que consigamos relaxar e aproveitar um tempo com os amigos, os colegas, os professores, até para desanuviar dessa rotina que passamos.”

Nem sempre saía da sala com tudo decifrado, mas isso também fazia parte da experiência. “Algumas vezes não entendemos nada”, admite, antes de acrescentar que era precisamente aí que o teatro se tornava mais importante: “É uma forma de conseguir compreender coisas que não estão no nosso dia a dia e que fazem muita falta.”

Sidnelma Trindade com atores de uma das peças que foi assistir
Sidnelma Trindade com atores de uma das peças que foi assistir

Essa ligação prolongava-se muitas vezes para lá do espetáculo. Sidnelma conta que, sempre que o tempo permitia, gostava de pedir uma fotografia aos atores no fim da sessão, quase como forma de guardar um pedaço mais concreto daquela noite. Numa das imagens que conserva com mais carinho, conseguiu posar com o elenco completo.

O gesto diz algo sobre a relação que foi criando com aquele universo: deixou de ser apenas o público que entra, vê e sai, para passar a sentir o teatro como um espaço próximo, onde apetece ficar mais um pouco.

Talvez por isso fale de outra vontade, ainda por cumprir. Diz que gostava de viver uma experiência semelhante com o cinema, com o mesmo espírito de grupo e descoberta. “Tenho objetivos de ir”, admite, referindo-se tanto ao teatro, como ao cinema, e acrescenta que gostaria que houvesse “algo assim”, capaz de juntar alunos em torno de filmes, conversas e sessões partilhadas.

Numa época em que tantas discussões sobre educação se fazem em torno de rankings, exames, metas, métricas e plataformas, esta história desloca o eixo. Lembra que formar um aluno não é apenas transmitir a matéria ou calcular resultados.

Milucha explica que o projeto tem vários objetivos: dar aos alunos experiências que alarguem a visão do mundo, aproximá-los de linguagens que talvez não encontrassem sozinho e mostrar-lhes que há beleza, pensamento, conflito, ironia, dúvida, assombro e complexidade fora do circuito imediato dos ecrãs.

O teatro como história de amor na vida de Milucha

O verdadeiro nome de Milucha é Maria Emília Palma Santos, embora quase todos a tratem pelo nome que lhe foi dado por uma tia. A história da família cruza-se com o ofício do pai, tipógrafo, nascido em Odemira, no Alentejo, onde aprendeu a profissão numa tipografia ligada à família dos cantores do Trio Odemira.

Mais tarde, emigrou para a Alemanha — onde Milucha nasceu — com a ideia de continuar a trabalhar na área, mas encontrou outra realidade. “Os alemães estavam interessados em operários para trabalhar em fábricas”, conta. Ficou apenas cinco anos e regressou a Portugal por uma razão simples: “Queria trabalhar na sua profissão e na Alemanha não conseguiu emprego na área.”

Crescida no Barreiro, Milucha passou a infância e a adolescência entre a cidade onde viveu e Odemira, para onde ia em todas as férias. Dessa travessia entre lugares e experiências, diz ter retirado uma convicção que a acompanha até hoje. “Desde muito nova percebi a importância e sentido de estar integrada no coletivo e do trabalho em grupo.” E acrescenta, numa frase que ajuda a perceber muito do seu percurso: “Aprende-se muito mais na relação com os outros do que sozinho.”

A relação com o teatro deu a Milucha o principal encontro da vida adulta. No mesmo projeto de 1998 onde esteve na origem destas idas ao teatro com os alunos, conheceu Cláudio, fotógrafo, com quem viria a formar uma família.

A coincidência pareceria excessiva se fosse inventada, mas não é. O teatro deu-lhe um projeto escolar de quase três décadas e uma história de amor. Conheceram-se no contexto dessa primeira peça, “Enquanto Espero por ti Meu Amor”. 

Desse encontro nasceu uma família ligada às artes: a filha é bailarina. O teatro não está apenas no que Milucha faz, mas no modo como a sua vida se organizou em torno de uma ideia de criação, sensibilidade e cultura. Por isso é tão difícil, ouvindo-a, separar a professora da espectadora, a pedagoga da mulher que reconhece no palco um lugar de formação humana profunda.

Essa fidelidade ao ensino também atravessa a conversa. Milucha sempre quis ser professora. Tirou a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, fez um mestrado na Universidade Nova, lecciona há mais de 30  anos, quase sempre no Barreiro, com uma breve passagem por Santarém e pelo Algarve.

Passou por escolas onde antes tinha sido aluna. Regressou, ficou, construiu pertença. Não fala da profissão com romantismo fácil, pelo contrário. Diz que “se tornou desgastante, excessivamente burocrática, sufocada por plataformas, grelhas e procedimentos que em pouco ou nada ajudam a aprendizagem dos alunos”. Ainda assim, o que sobressai é a persistência.

Levar alunos ao teatro pode ser visto como uma resposta prática ao desencanto. Não resolve a burocracia, nem melhora o sistema, mas restitui à escola uma coisa essencial: a possibilidade de ser também um lugar onde se aprende a olhar.

Saber que, no Barreiro, existe há quase três décadas uma professora que junta alunos e colegas para irem ao teatro numa noite de sexta-feira diz qualquer coisa sobre o lugar. Diz que ainda há fios de transmissão entre gerações e que a escola pode sair de si própria sem perder o seu centro. E comprova que o teatro não é um luxo decorativo, mas uma ferramenta de comunidade.

É talvez isso o mais comovente em toda a história. Não apenas o ensino do teatro, mas a aprendizagem de uma relação. Uma professora que não desistiu de propor e alunos que aceitaram experimentar. Um hábito que se tornou tradição.

Durante quase 30 anos, Milucha Santos faz isso a partir do Barreiro, com a regularidade de quem sabe que nem todas as transformações precisam de ser ruidosas para serem profundas.

Em muitas sextas-feiras frias, quando o mais fácil seria ficar em casa, entrou num autocarro com dezenas de alunos e seguiu para o teatro. E, talvez sem o dizer desta maneira, foi ensinando que também a educação pode começar aí: no momento em que as luzes se apagam e uma sala inteira aprende a prestar atenção.

Ao longo da conversa com Milucha, a New in Barreiro pediu algumas fotografias das Idas ao Teatro e a resposta acabou por dizer muito sobre a própria natureza do projeto: “Sabe que nunca nos lembrávamos de fazer fotografias.” Durante anos, o que ficou não foi um arquivo de imagens, mas a memória partilhada de noites passadas entre alunos, professores e palco.

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