Há um número que depressa contraria a ideia de que se faz pouco cinema português. Entre 2019 e 2025, o Festival Entre Olhares exibiu 457 filmes no Barreiro. Este ano, entram mais 59 na programação, fazendo o total ultrapassar as 500 obras. Para chegar até aqui, passaram pela seleção do festival mais de 2.250 candidaturas, incluindo mais de duas centenas recebidas apenas para a edição de 2026.
O problema, para Mário Ventura, um dos fundadores do Entre Olhares e diretor do Cine Clube do Barreiro, nunca esteve na falta de filmes. Está sobretudo na dificuldade que muitos encontram para chegar ao público e, no Barreiro, essa distância pode ser medida. O concelho representa apenas 3,1 por cento dos espectadores de cinema do distrito de Setúbal, segundo dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual trabalhados pela organização. Em 2019, eram 4,5 por cento. Almada e Montijo concentram, juntos, cerca de 77,6 por cento.
Foi deste desequilíbrio que nasceu um festival dedicado ao cinema português num território onde, em 2018, Mário Ventura e um colega sentiam que faltava uma programação desta natureza. “A Margem Sul está sempre a ir a Lisboa usufruir de espetáculos, teatro, música, cinema. Tudo acontece em Lisboa. E por que é que isso também não pode acontecer na Margem Sul e no Barreiro?”, recorda.
A pergunta começou a ganhar forma nesse ano e chegou aos ecrãs em 2019, ainda como mostra. Oito edições depois, o objetivo cresceu. Entre 7 e 16 de novembro, o Entre Olhares volta ao Barreiro para tentar fixar espectadores que habitualmente procuram cinema fora do concelho e, ao mesmo tempo, atrair gente que faz o percurso contrário e atravessa o Tejo para assistir a filmes com circulação reduzida.
Os mais de 2.250 títulos submetidos ao Entre Olhares dão ao festival uma posição privilegiada para observar a produção portuguesa além do que chega ao circuito comercial. Ficção, documentário, animação, cinema experimental, terror e ficção científica aparecem entre os trabalhos recebidos. As coproduções exibidas ao longo das várias edições ligam Portugal a 25 países de cinco continentes.
“Quem acha que não existe cinema português pode ter essa sensação porque ele não existe com a mesma presença nas salas comerciais”, diz Mário Ventura. A equipa decidiu perceber melhor o que acontecia do lado dos espectadores. Em 2025, realizou um estudo de audiências com 337 residentes no Barreiro. Entre os inquiridos, 31,8 por cento disseram ir ao cinema mensalmente, mas 49,5 por cento frequentavam raramente a oferta disponível no próprio concelho. Cerca de um quarto procurava fora do município salas independentes e programação de caráter cultural.
Segundo Mário Ventura, quando os participantes foram questionados sobre a possibilidade de frequentarem um festival de cinema no Barreiro, mais de 90 por cento manifestaram interesse. A diferença entre estes resultados tornou-se um dos pontos centrais do projeto. Existe público a consumir cinema, mas parte dele sai do Barreiro para encontrar uma determinada programação.
Os dados também mostraram duas faixas etárias mais afastadas das salas. Entre os inquiridos dos 15 aos 19 anos, 40,7 por cento raramente iam ao cinema. Acima dos 65 anos, o valor chegava aos 50 por cento. Nos grupos de discussão realizados com jovens entre os 16 e os 18 anos, o preço dos bilhetes apareceu como uma das barreiras.
O Festival foi desenhado também a partir destes resultados. Os bilhetes custam 3,50€, com preço de 2,50€ para jovens até aos 30 anos e maiores de 65. Uma parceria com os Transportes Coletivos do Barreiro permite ainda utilizar gratuitamente as carreiras dos TCB mediante apresentação do bilhete do festival.
O trabalho com as escolas, que acompanha o Entre Olhares desde a primeira edição, será alargado. Cerca de 300 estudantes do segundo e terceiro ciclos e do ensino secundário deverão participar na secção juvenil e escolher o vencedor do Prémio da Juventude.
Mário Ventura já encontrou alunos para quem estas sessões representaram a primeira experiência diante de um grande ecrã. Este ano, o festival decidiu começar ainda mais cedo e criou uma secção infantil com curtas de animação para miúdos entre os seis e os 12 anos. “Percebemos que existe esta lacuna nos adolescentes. Queremos começar desde cedo também com as crianças e colocá-las em contacto com o cinema português”, explica.
O festival cresce quando as salas diminuem
O esforço acontece num momento delicado para a exibição cinematográfica. Segundo os dados do ICA usados pela organização, Portugal começou 2026 com menos 112 salas em atividade do que no ano anterior.
No Barreiro, a oferta comercial resume-se atualmente às quatro salas da Castello Lopes no Barra Shopping. Segundo Mário Ventura, existe um pedido de desafetação das quatro salas apresentado pela entidade que gere o espaço. O pedido, por si só, significa que os cinemas vão fechar, mas coloca o futuro daqueles ecrãs numa discussão sensível para um concelho que já tem pouco peso no consumo de cinema do distrito.
O Cine Clube do Barreiro, que também exibia filmes regularmente, encontra-se temporariamente encerrado para obras. A sala tem apenas 34 lugares. Para a edição deste ano, o Entre Olhares vai dividir as sessões entre o Auditório Municipal Augusto Cabrita e a Castello Lopes do Barra Shopping.
Enquanto o número de salas disponíveis no País diminui, o festival tem seguido a direção oposta em público. Em 2025, recebeu 2.058 espectadores, mais 46 por cento do que os 1.410 da edição anterior. Mário Ventura relaciona parte desse crescimento com a criação das secções competitivas. A chegada de estreias, filmes com circulação por festivais internacionais e obras com poucas oportunidades de exibição em Portugal começou a trazer ao Barreiro cinéfilos, equipas dos próprios filmes e espectadores de outros concelhos.
“Há filmes que têm um circuito muito pequeno e uma janela de oportunidade de exibição muito curta. As pessoas pensam: vamos ao Barreiro, porque depois não sabemos quando teremos outra oportunidade de o ver.” É uma pequena inversão da viagem que esteve na origem do festival.
Filmes disputam a Garça de Ouro em 2026
Dos 59 filmes escolhidos para 2026, 38 integram secções competitivas. Cinco longas e 17 curtas disputam a Garça de Ouro, prémio principal do festival. A ave escolhida para a estatueta nasce da paisagem do próprio Barreiro. As garças habitam os sapais e zonas húmidas junto ao rio e algumas espécies deslocam-se entre territórios, uma característica que a organização associou à circulação internacional do próprio cinema português.
Quatro longas já foram selecionadas e mostram também a amplitude que Mário Ventura procura defender quando fala de produção nacional. “Um Filme de Terror”, de Sérgio Oksman, acompanha um realizador e o filho de 12 anos durante umas férias num hotel abandonado em Lisboa, numa proposta que brinca com o imaginário de “The Shining”, de Stanley Kubrick. O filme chega ao Barreiro depois de passar pelo Festival de San Sebastián.
“O Feitiço de Areia”, de Vanessa Ribeiro Rodrigues, terá estreia mundial no Entre Olhares. A realizadora percorre Moçambique confrontando o arquivo do tio, que foi soldado durante a guerra colonial, com memórias e vozes recolhidas no presente.
Em a “Baía dos Tigres”, de Carlos Conceição, usa uma vila fantasma tomada pelo deserto em Angola para construir um filme híbrido entre ficção, documentário, terror e ficção científica. “Kiss and Be Friends”, de Ana Baldini e Roly Witherow, acompanha duas estudantes de Belas-Artes numa Lisboa marcada por redes sociais, ansiedade, sexo, arte e relações instáveis.
Outras 11 curtas integram a secção Curtas à Primeira Vista, reservada a estudantes e jovens realizadores. Para Mário Ventura, é também ali que o festival consegue observar autores que podem vir a marcar os próximos anos do cinema português.

Do argumento ao filme acabado
O Entre Olhares começou por exibir filmes, mas entretanto passou a entrar na vida de algumas obras antes de serem rodadas. Desde 2020, a secção dedicada à indústria recebe projetos ainda em desenvolvimento através do programa Novos Olhares.
Os candidatos apresentam argumento, orçamento, plano de rodagem e restante estrutura do projeto. Depois de uma pré-seleção, defendem-no perante um júri. O vencedor recebe 4.500€ em serviços de aluguer de equipamento para produção. Doze curtas já foram apoiadas desta forma. Algumas ficaram prontas, entraram no circuito de festivais e regressaram posteriormente ao Entre Olhares como filmes acabados.
A lógica aparece também nos prémios de 2026. A Garça de Ouro de Melhor Longa-Metragem inclui dois mil euros e apoio à distribuição através da Films4You. A melhor curta recebe 500€ em serviços de aluguer de equipamento para uma produção futura.
“Queremos que o Entre Olhares acompanhe toda a cadeia do cinema. Desde o desenvolvimento dos filmes à exibição, passando pelos debates, pela formação dos jovens e pelo setor profissional. A nossa missão é ter impacto real no setor, e não ficar apenas na exibição dos filmes”, diz Mário Ventura.
Quando a oitava edição começar, a conta iniciada em 2019 ultrapassará finalmente as 500 obras exibidas. O programa completo será anunciado durante outubro no site do Entre Olhares. Os bilhetes também entram à venda nesse mês, para as sessões que decorrem de 7 a 16 de novembro no Auditório Municipal Augusto Cabrita e nas salas Castello Lopes do Barra Shopping.
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