cultura

Esta avó criou uma biblioteca móvel em Maputo para incentivar os jovens a ler

Cecília disponibiliza mais de mil obras num bairro histórico em Moçambique. Tudo começou com um carrinho de mão e alguns bancos.

Todos os dias, a avó Cecília, como é tratada por quem a conhece, coloca várias cadeiras e bancos ao ar livre, no bairro histórico da Mafalala, em Maputo, Moçambique. À volta, uma parte da sua coleção de livros é exposta à comunidade, para convidar os jovens a conhecerem os títulos.

“Vejo que é necessário, porque a maior parte dos miúdos e jovens já não têm o gosto pela leitura. Então, estou a incentivar esse gosto”, contou a mulher, que se licenciou em Gestão e Estudos Culturais aos 65 anos, em entrevista à Lusa, citada pela SIC. O motivo? “É de pequenino que se torne o pepino”.

No ano passado, Cecília Amate, que agora tem 77 anos, agarrou num carrinho de mão e criou uma biblioteca móvel que disponibiliza mais de mil obras aos mais novos. Há dias em que chega a ter mais de 80 miúdos à sua volta, que “ficam a conhecer-se a si mesmos e ao mundo em geral”. O número tem vindo a crescer.

A ideia surgiu em 2023. Professora durante o período colonial, foi quando se reformou como bibliotecária, na Biblioteca Nacional, que a matriarca decidiu encontrar uma nova forma de ocupar o tempo. Só dois anos depois, no entanto, é que o plano foi materializado.

Cecília começou “a andar de rua em rua”. Chegava aos sítios com uma mesa, alguns bancos e um pequeno acervo de 50 títulos, comprados sobretudo em alfarrabistas. “Instalava-se aí e punha os meus livros em exposição e as crianças começavam a ler”, revela Cecília, que já sente menos força nos pés e a visão começou a falhar.

 
 
 
 
 
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Uma publicação partilhada por Luísa Nhantumbo (@luisa__nhantumbo)

Atualmente, as centenas de livros que formam a sua coleção privada estão guardadas em casa, num quarto que pertencia aos pais e que foi convertido em depósito. A oferta vai desde as obras infantojuvenis aos livros didáticos, desde a primeira à 12.ª classe do ensino geral moçambicano.

“A maior parte é oferta da biblioteca nacional, do Ministério da Educação e outras entidades”, explicou. No entanto, a Fundação Fernando Leite Couto também fez uma angariação, durante um mês, para lhe oferecer alguns títulos. “No princípio, os livros eram meus. Bastava receber e comprava um ou dois”.

Uma parte do sucesso deve-se a estas parcerias. “Com a junção que tenho com a associação Utopia, temos algumas escolas [cerca de seis] que fazem oficinas, alguns trabalhos manuais e estou com a minha mesa de livros. Quem está cansado de trabalhos manuais, senta e lê lá na associação”.

Considerada “maluca” pelos vizinhos e amigos, no início do projeto, rapidamente conseguiu converter os pais à ideia. Agora, até são eles próprios que lhe levam os filhos. “As crianças não leem, mesmo estando aqui, só folheiam, querem ver figuras, então eu tenho que estar ao lado e para isso tenho feito concurso de leitura. Quem ler bem ganha um doce, às vezes, ou palmas.”

Além da leitura, esta biblioteca ambulante oferece jogos de algarismos ou com o alfabeto, para os pupilos possam aprender a construir palavras e frases.

Nesta fase, o desafio mais urgente é encontrar um espaço para armazenar todos os livros. Mais de 200 já foram danificados pela chuva, após infiltrações no telhado da casa antiga.

“Gostaria de ter uma biblioteca comunitária da avó Cecília, instalada num centro cultural para várias atividades para a minha comunidade da Mafalala”.

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