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Designer que colabora com museus internacionais ensina técnicas de bordado no Barreiro

Gul E Raana tem um estúdio na StartUp Barreiro e trabalha com técnicas do Punjab e de Sindh, que ensina em workshops.

No Parque Empresarial da Baía do Tejo, no Barreiro, há um estúdio onde a pressa perde importância. Fica na StartUp Barreiro, incubadora de projetos com discurso de futuro, mas dentro daquela sala, o tempo aprende outra cadência: a cor precisa de assentar, o pano precisa de respirar, a mão precisa de repetir. É ali que a designer paquistanesa Gul E Raana, de 35 anos, desenha têxteis à mão, trabalha tingimentos naturais e bordados tradicionais do sul da Ásia, transformando esses saberes em peças, kits e workshops que atravessam fronteiras. Trouxe consigo um mapa pouco provável para este lado do Tejo — Lahore, no Punjab, onde trabalhou na indústria global, bem como uma passagem pela China e uma vida em Londres.

A partir do Barreiro, vende para todo o mundo, através de um site pensado para fazer circular um produto artesanal sem depender das portas habituais. “Escolhi o Barreiro para criar o meu filho, já que é um local calmo, bonito e acolhedor. Gostamos da comida e das pessoas”, explica Gul, pedindo desculpa por falar português devagar. “Ainda estou a aprender, é uma língua difícil”, acrescenta.

Gul vive em Portugal desde 2022. A mudança para o Barreiro teve um peso familiar: o filho nasceu em Londres e tem hoje cinco anos. A cidade deu-lhe rotina e espaço, tendo servido de base a uma rede que se estende a partir do estúdio — quem borda no Paquistão, quem aprende no Barreiro, quem compra em diferentes países.

A história começa do outro lado do mundo, em Lahore, a mais de 7.300 quilómetros do Barreiro em linha reta. É uma das maiores cidades do Paquistão e capital do Punjab, junto ao rio Ravi, com uma herança cultural e têxtil que se sente no quotidiano.

Foi nesse território que Gul cresceu perto de técnicas ligadas à vida doméstica e ao trabalho de mulheres — práticas transmitidas em família, guardadas em caixas de linha, em tecidos dobrados, em gestos que passam de mão em mão. “A minha avó bordava e tingia tecidos. Sempre me contou um pouco da rotina que tinha quando era mais jovem”, lembra.

Lahore, China, Londres, Barreiro

Formada em Design Têxtil, entrou cedo na engrenagem da fast fashion. Passou oito anos nesse universo, a trabalhar na China com marcas ocidentais e a gerir um departamento de design. Os bastidores desse sistema vivem de prazos, de volumes e de decisões tomadas à velocidade do mercado. É uma escola de método, mas também um lugar onde a roupa aprende a ser descartável.

Gul descreve essa fase como intensa e foi dessa saturação que nasceu a vontade de regressar às técnicas que conhecia desde cedo — e a um modo de fazer que não cabe em calendários acelerados. A China ficou como capítulo de deslocação e trabalho: fábricas, cadeias de fornecimento, produção em escala. Quem passa por esse cenário percebe rapidamente como um tecido pode perder a sua história quando se torna apenas número.

Mais tarde, já casada com o arquiteto paquistanês Ubaid Khalid, de 40 anos, mudou-se para Londres. A cidade trouxe contatos, museus e cruzamentos, e foi nesse período que nasceu o filho, Edan. Foi também aí que o Wenlin Studio ganhou forma: um projeto dedicado a preservar e desenvolver técnicas tradicionais de embelezamento têxtil, com uma prática contemporânea e uma preocupação ética com quem faz.

No Wenlin Studio, a ideia de preservação tem consequências práticas. Gul desenha todos os produtos vendidos no site, a partir do Barreiro. Tudo começa no papel e passam para o tecido como guias de trabalho: traços, padrões, repetições que exigem rigor e sensibilidade. Quando as peças precisam de ganhar escala e tempo de produção, o bordado é executado por mulheres no Paquistão. Essa opção liga criação e continuidade: mantém as mãos que dominam as técnicas dentro do circuito de valor e evita que o saber fique reduzido a memória.

O nome Wenlin não é apenas um nome: é uma ideia com tradução. Gul escolheu a palavra por causa da forma como, em chinês, duas sílabas se juntam para criar sentido: Wen significa cultura e Lin floresta. Juntas, formam a imagem de um espaço natural onde artistas e artesãos se encontram para partilhar ideias e colaborar — uma metáfora do que Gul constrói entre criação, aprendizagem e trabalho coletivo.

Phulkari, Ajrak e o azul que dá trabalho

O Phulkari é uma das técnicas trabalhadas no projeto. Tem origem no Punjab e é conhecido por padrões densos e florais, capazes de cobrir grandes áreas de tecido e criar um efeito de relevo e brilho. Tradicionalmente, aparece em xailes e peças ligadas a momentos marcantes da vida, e durante muito tempo viveu associado ao universo doméstico: bordar exigia tempo e concentração, e esse tempo tinha significado. No Wenlin Studio, o Phulkari surge como técnica aplicada em peças e também ensinada, para que a linguagem do ponto continue a circular.

O Ajrak — também referido como ajrakh — vem do sul do Paquistão, com ligações fortes a Sindh. É uma técnica de impressão e tingimento que trabalha repetição, simetria e uma paleta onde o azul do índigo costuma ter lugar central, muitas vezes acompanhado por tons quentes e terrosos. O processo é longo: o tecido é preparado, recebe mordentes (substâncias que ajudam a fixar a cor), passa por sucessivos banhos e etapas de secagem. Entre uma fase e a seguinte, existe espera e controlo. O resultado nasce tanto do desenho, como da química e do tempo.

A própria expressão “tingimento natural” pede contexto para não soar vaga. A cor não aparece apenas por contacto com uma planta. Depende da fibra, da temperatura, da água, do tempo de imersão e do modo como o tecido foi preparado. Há cores que exigem camadas e repetição, há outras que variam de lote para lote. O índigo, por exemplo, não se limita a um azul “pronto”: é um processo que pede preparação e paciência, e a cor revela-se no caminho — no banho, na exposição ao ar, na secagem.

“Conseguir o azul dá muito trabalho. São muitas etapas”, explica, mostrando potes onde guarda plantas que usa para o tingimento dos tecidos. Para quem vem de um universo industrial, onde a cor é replicada com exatidão, essa variação torna-se parte do sentido do trabalho: cada peça traz diferenças que não são defeitos, são assinatura.

Roupa, acessórios e kits de bordado

Além das peças e acessórios — como lenços tingidos e impressos — o projeto inclui kits de bordado, que funcionam como porta de entrada: materiais, instruções e um caminho para experimentar uma técnica com contexto. Serve também para fazer circular o gesto. Quando alguém abre um kit numa mesa de cozinha, noutro país, o bordado ganha continuidade fora do lugar onde nasceu. A venda para todo o mundo, através do site, foi desenhada para isso mesmo: permitir que o objeto e o saber encontrem destinos improváveis, sem depender de intermediários que muitas vezes ditam quem chega a quem.

No Barreiro, esta dimensão ganha corpo com os workshops presenciais — de bordado e de tingimento e impressão com corantes naturais — realizados no estúdio da StartUp Barreiro. Ali, Gul mostra processos que durante muito tempo ficaram guardados em comunidades e famílias. A tradição entra num espaço contemporâneo com calendário, inscrição e lugar para fazer perguntas, testar, errar, voltar a tentar. Este ano, Gul vai ensinar estas técnicas na Holanda, Suíça e Alemanha, alargando a mesma rede que já sustenta o projeto. “A cada ano, a prática destas técnicas diminui no meu País. Sinto-me muito feliz em tentar manter este trabalho vivo”, explica.

Para quem quer conhecer o trabalho sem ir ao estúdio, o Wenlin Studio vende online e envia para vários países. No site, há kits de bordado em diferentes níveis — os mais pequenos custam 28€ e os standard rondam os 58€ — e há peças prontas, como lenços, com preços que podem começar nos 55€. Os workshops no Barreiro aparecem anunciados online e são outra porta de entrada no projeto: um de bordado custa 80€ e o de tingimento e impressão com corantes naturais (em formato de dois dias) fica por 165€. Assim se fecha o circuito: desenho no Barreiro, bordado em maior escala feito por mulheres no Paquistão, aprendizagem no estúdio e circulação global via loja online.

 
 
 
 
 
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Esse trabalho de resgate abriu uma segunda frente na vida de Gul: a consultoria para instituições. A partir do momento em que começou a estudar a fundo técnicas como o Phulkari, o Ajrak/ajrakh e os processos de tingimento natural — aprendendo a reconhecer pontos, tensões do fio, mordentes e “assinaturas” de cor — passou a ser chamada por museus para olhar para peças orientais com outro tipo de atenção.

Hoje, segundo a própria, museus de Nova Iorque, Londres e Portugal contratam-na para observar, identificar e ajudar a catalogar as técnicas presentes em têxteis das suas colecções, num trabalho que cruza conhecimento técnico e história material: perceber como foi feito, por quem poderia ter sido feito e o que aquela peça ainda guarda do lugar de onde veio.

Nos bastidores, Gul sempre regista no papel e em imagens as receitas, etapas, tempos, falhas e acertos que servem para dar vida ao trabalho e, futuramente, orientar tanto para quem quer aprender, como para quem quer reconhecer estas técnicas no mundo real.

A dimensão ética do trabalho de Gul vive nesse fio contínuo entre autoria, produção e transmissão. A colaboração com artesãs no Paquistão está no centro do modo como o projecto funciona, desde os desenhos feitos no Barreiro até ao bordado executado em maior escala. A história mantém-se no lugar certo: no trabalho, nas técnicas e nas pessoas que as seguram.

Carrega na galeria e conheça mais o trabalho da Gul E Raana:


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