cultura
ROCKWATTLET'S ROCK

cultura

Depois de um “não”, Martim voltou ao “The Voice Kids” e conseguiu virar 3 cadeiras

Aos 12 anos, voltou a tentar a sua sorte quatro anos depois de não ter passado e emocionou todos os jurados.

Martim Cabral tem 12 anos, vive no Barreiro, frequenta o sétimo ano e gosta de Carolina Deslandes, Fernando Daniel, Olivia Rodrigo e Calum Scott. Sonha ser cantor e médico, talvez por esta ordem, embora em casa ainda se negoceie a formulação. A mãe, Débora Cabral, resume melhor: “Ele costuma dizer que quer ser médico e cantor. Acho que ele quer ser cantor e médico.”

Nesta edição do “The Voice Kids”, Martim é o rosto do Barreiro. O único concorrente da cidade a chegar ao palco da RTP com aquela mistura apaixonante  de timidez, ambição e certezas, que só os miúdos muito determinados conseguem ter.

Em 2022, quanto esteve no programa pela primeira vez, tinha apenas oito anos quando cantou “Para os Braços da Minha Mãe”, de Pedro Abrunhosa, nas provas cegas. Foi aplaudido, emocionou quem viu, mas não passou.

Podia ter ficado por ali, mas Martim fez o contrário. Guardou o “não”, deixou-o crescer e voltou. A New in Barreiro conversou com Martim e Débora Cabral, que acompanha o filho na intensa agenda de gravações e ensaios, para perceber como se constrói a segunda oportunidade de um miúdo que nunca deixou de acreditar que aquele palco também podia ser dele.

“Fui em 2022 e não passei. No entanto, estava sempre a querer voltar porque achava que já tinha uma voz melhor do que em 2022”, conta. A mãe travou a pressa com cuidado. Disse-lhe para esperar, crescer mais um bocadinho, deixar a voz perder aquele lado de “bebé”. Este ano, a inscrição avançou e Martim passou a primeira fase de audições.

A escolha veio com outra maturidade e risco. Escolheu a música “Habits”, de Tove Lo, mas a versão original era “um pouco diferente” e adaptou “mais numa onda de jazz”. Foi também por isso que a atuação soou menos óbvia: não era apenas um regresso ao “The Voice Kids”, mas uma forma de mostrar que a voz já tinha crescido, que o ouvido também, e que Martim não voltou para repetir 2022 — voltou para se apresentar outra vez.

Três dos quatro jurados viraram a cadeira e queriam ficar com Martim, mas o escolhido foi Miguel Cristovinho.

Antes de falar em sonhos, Martim já cantava

A música entrou-lhe em casa antes de saber dizer que queria cantar. “Acho que o Martim ouvia música ainda na minha barriga. Então já nasceu a cantar”, diz Débora. A família é toda do Barreiro e a música sempre circulou pelos almoços, nos encontros e pelas ligações aos escuteiros.

O tio toca viola, a tia e a prima cantam no coro. Martim começou a cantar em casa por volta dos três anos. Aos seis, quis ter aulas. Aos sete, a mãe conseguiu inscrevê-lo numa academia de jazz no Barreiro.

Desde então, sempre que havia uma festa, um concerto da escola ou qualquer oportunidade com microfone, Martim oferecia-se “porque gostava muito”, recorda.

O regresso ao “The Voice Kids” foi tudo menos simples. A inscrição aconteceu em novembro. Vieram formulários, castings, três músicas preparadas, testes de imagem, entrevistas e longas esperas. Martim levou temas bem diferentes, entre eles “When We Were Young”, de Adele, e “Creep”, dos Radiohead. Depois, como acontece no programa, a produção ajuda a definir o caminho.

No dia da gravação, a tensão estava quase toda fora do palco. Débora confessa que estava “muito ansiosa”. Martim, não. Ou pelo menos não deixava transparecer. “Mãe, está descansada. Não estou nervoso. Vou entrar naquele palco e dar tudo”, disse-lhe.

Para complicar, estava adoentado. Tinha regressado de uma viagem a Paris rouco e com uma virose. Em casa, bebeu chá durante dias. A mãe temia que a voz falhasse, mas nada disso aconteceu. “Quando entra em palco, transforma-se”, diz.

A reação no Barreiro veio depois, em ondas. Na escola, os colegas viram-no na televisão e receberam-no como se a audição tivesse sido uma final. “Quando cheguei à escola, diziam: eu vi o ‘The Voice’”, conta Martim. Algumas miúdas começaram até a cantar a música que ele tinha interpretado. Débora lembra-se que chegou a casa feliz. “O Martim sentiu-se realmente muito acarinhado.”

O telefone da mãe quase não aguentou. “No dia a seguir ficou sem bateria”, diz. Chegaram mensagens de amigos, conhecidos, pessoas que só conheciam a família de vista e outras que nem conheciam. Publicaram o vídeo, partilharam, comentaram, torceram. Martim sentiu essa “onda de amor e de carinho” que, num concurso televisivo, pode parecer acessória, mas para uma criança de 12 anos é quase como combustível.

Apesar da exposição, em casa há regras. A escola continua primeiro. Martim é, segundo a mãe, um aluno aplicado, “só de quatros e cincos”. A agenda é cheia: aulas, inglês, canto, atividades, ensaios e gravações. O domingo é praticamente o único dia de descanso. “Ele é um menino aplicado e tem mesmo de ser, porque já lhe disse que, se as notas não forem boas, acabamos já com isto”, diz Débora.

Em casa, Martim também tem uma rede de apoio que acompanha cada passo deste percurso. Além da mãe, Débora Cabral, 37 anos, o pai, Paulo Cabral, 50, e o irmão mais novo, Lourenço Cabral, 9, fazem parte desta equipa familiar que vive as audições, os ensaios e a ansiedade do programa quase como se também subissem ao palco. A música pode ser o seu sonho, mas a torcida começa dentro de casa.

 

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Uma publicação partilhada por The Voice Portugal (@thevoiceportugal)

Martim sabe que quer cantar. Ainda não sabe exatamente como será o futuro, mas já o imagina com canções suas. “Espero que seja um bom cantor, seja conhecido, que as pessoas gostem das músicas que talvez vou compor”, diz. Também quer Medicina, esse outro sonho aparentemente distante da televisão, mas talvez não tão diferente assim: nos dois casos, é preciso ouvir bem, cuidar dos outros e ter nervos no sítio certo.

Quando se lhe pede uma mensagem para o Barreiro, Martim não faz discursos ensaiados. Pede o que qualquer miúdo pediria quando percebe que há uma cidade inteira a olhar para ele: “Queria pedir-lhes muita força e muito carinho por mim. E se continuarem a apoiar-me, vão ajudar-me ainda mais.”

Na primeira vez, Martim saiu do palco com um “não”. Quatro anos depois, regressou com outra voz, outra idade e a mesma teimosia bonita. O “The Voice Kids” pode ser uma competição, mas para o miúdo do Barreiro também é outra coisa: a prova de que algumas derrotas não fecham portas. Afinam a próxima entrada.

Carregue na galeria para ver os primeiros passos de Martim no mundo da música.

ARTIGOS RECOMENDADOS