cultura

De Hermeto a Sun Ra: festival único toma conta do Barreiro durante 9 dias com 22 filmes

O Sonica Ekrano, o único festival português dedicado ao documentário musical, traz sessões a partir de 2€ e um passe completo por 15€.

Durante nove dias, histórias de músicos, cidades, comunidades e arquivos chegam ao Barreiro através do cinema. O festival Sonica Ekrano regressa entre 11 e 19 de setembro com 22 documentários escolhidos a partir da música, embora cada filme acabe por levar o espectador bastante além dela. Hermeto Pascoal, Sun Ra, Mogwai, Jason Molina, Vítor Rua, Amadou & Mariam e Butthole Surfers convivem no programa com funerais no norte do Gana, música eletrónica criada nas montanhas da Papua Ocidental, punk na antiga Jugoslávia, memória musical da Guiné-Bissau e uma nova geração empenhada em recuperar canções tradicionais irlandesas.

Nesta quinta edição, o Sonica Ekrano mantém uma característica que o distingue no calendário nacional: trata-se do único festival de cinema em Portugal inteiramente dedicado ao documentário sobre música. A OUT.RA organiza o evento e este ano concentra todas as sessões no Teatro Municipal do Barreiro, instalado no Centro Comercial Pirâmides.

O próprio nome guarda uma relação com a história da cidade. Sonica Ekrano significa “Tela de Som” em esperanto e recupera tanto a proposta de uma língua universal, desligada de tradições nacionais e fronteiras geopolíticas, como a presença desta língua no Barreiro. Segundo Rui Dâmaso, que integra a direção e programação do festival, a cidade chegou a ter “alguns dos mais ativos núcleos de aprendizagem da língua (de forma clandestina, porque era proibido durante a ditadura)”.

A programação de 2026 leva essa curiosidade por diferentes culturas e geografias para dentro das salas. A música conduz os filmes até histórias que ultrapassam a biografia dos artistas e põem em cena os lugares onde viveram, as comunidades a que pertencem e as condições em que criaram. O mapa traçado pelo editorial passa por Birmingham, no Alabama, Sardenha, Papua Ocidental, Gana, Bamako, Guiné-Bissau, Hyderabad e Istambul. Os nomes conhecidos aparecem acompanhados pelo mundo que existia à sua volta.

Rui Dâmaso usa um trecho do editorial do festival para explicar um pouco do espírito desta edição: “Que esta quinta edição seja, acima de tudo, uma celebração da capacidade da música para criar comunidade, preservar memória e abrir novas formas de olhar para o mundo. Porque, antes de ser património, entretenimento ou indústria, a música, o cinema e a diversidade de culturas continuam a ser das formas mais profundas que encontramos para compreender quem somos.”

22 filmes, sem uma única maneira de falar de música

Ao longo dos nove dias, o Sonica Ekrano apresenta 22 filmes, entre longas, curtas e médias-metragens, com histórias que raramente se encontram no mesmo programa. A abertura cabe a “Butthole Surfers: The Hole Truth and Nothing Butt”, sobre a banda norte-americana, enquanto “Le Mystère Satie” recupera Erik Satie e “Ressonàncies (d’una música callada)” entra noutro território da criação musical.

Na mesma sessão de curtas surgem ainda “Rua (Isto Não É Um Filme, É Um Cometa)”, realizado pelo barreirense Bigos Campaniço e por Nuno Calado sobre Vítor Rua, e “Space Festival”, de Nuno Alves.

A competição reúne seis longas-metragens e entrega ao público a escolha do vencedor. “The Magic City: Birmingham According to Sun Ra” regressa à Birmingham onde Herman Poole Blount viveu antes de se tornar Sun Ra; “You Fuckers Figure It Out: A Jason Molina Story” aproxima-se de Jason Molina através das pessoas que fizeram parte da sua vida e percurso musical; e “Sound Dreams of Istanbul” parte dos sonhos de músicos e artistas sonoros para construir uma imagem de Istambul através da escuta.

A seleção competitiva inclui também “HEX”, de Maja Holland, sobre três mulheres norueguesas que começam sem saber tocar instrumentos e acabam por formar a Witch Club Satan, e “Celtic Utopia”, que acompanha uma geração ligada à recuperação de música tradicional irlandesa.

Fecha este grupo “The Best Summer”, de Tamra Davis, construído a partir de imagens filmadas em 1995 durante uma digressão dos Beastie Boys pela Austrália e pelo Sudeste Asiático, onde passaram também Sonic Youth, Foo Fighters, Pavement, Rancid, The Amps e Bikini Kill. O material permaneceu guardado durante quase 30 anos.

Do Punjab musical da Guiné-Bissau às montanhas da Papua Ocidental

Outros filmes do festival atravessam tradições musicais, territórios e formas de transmissão que permanecem longe do circuito mais visível. “Nteregu”, de Manuel Loureiro e Roger Mor, percorre a Guiné-Bissau, onde coexistem mais de 30 línguas, e acompanha práticas que vão dos griots e da kora às expressões contemporâneas. “Punk Under Communist Regime”, de Andrej Kosak, leva o programa à antiga Jugoslávia e à experiência do punk sob um regime comunista.

Nas curtas, “Long Live the Dead!” acompanha Stevo Atambire por funerais em aldeias do norte do Gana, enquanto “Il Soffio dell’Anima” entra na tradição vocal da Sardenha. “Wisisi Nit Meke” segue jovens músicos nas montanhas da Papua Ocidental, onde ritmos e práticas Wisisi circulam através de computadores, telemóveis, Bluetooth e YouTube.

A Índia surge em “Sound System Sanskriti”, centrado num sound system em Hyderabad, e os Estados Unidos entram por uma porta muito diferente em “Null Adjustments”. Rodado em 16 mm, o filme acompanha na Library of Congress o restauro de um Buchla 100, sintetizador usado por Morton Subotnick na criação de “Silver Apples of the Moon”.

Hermeto, rap crioulo e o Barreiro dentro do programa do festival

A presença lusófona ocupa vários pontos da programação. “O Menino D’Olho D’Água”, de Lírio Ferreira e Carolina Sá, regressa ao sertão de Alagoas para encontrar as origens de Hermeto Pascoal e reúne memórias da infância, uma conversa com o músico e imagens de um dos seus últimos concertos.

O Barreiro entra diretamente no ecrã em “Rua (Isto Não É Um Filme, É Um Cometa)”, que percorre a carreira de Vítor Rua entre rock, minimalismo, improvisação e ópera. Surge novamente em “Complô”, de João Miller Guerra, sobre Bruno “Ghoya” Furtado. Antes da projeção será apresentado “Ka Muri: Conversas sobre Rap Crioulo em Portugal”, livro nascido de dois diálogos realizados na Cooperativa Mula, no Barreiro, em novembro de 2025, com LBC, Ghoya, Real Guns e Vilma.

No último dia, “The Blind Couple From Mali” recupera a história de Amadou Bagayoko e Mariam Doumbia, desde o encontro dos dois numa escola para jovens cegos em Bamako até à vida e à carreira musical que construíram juntos. O encerramento fica entregue a “Mogwai: If the Stars Had a Sound”, de Antony Crook, que percorre arquivos e concertos da banda escocesa e chega à criação de “As the Love Continues” durante a pandemia.

Com preços baixos ao longo de toda a programação, o Sonica Ekrano permite assistir a documentários que raramente encontram espaço no circuito comercial. Cada sessão custa 3,50€ e, de segunda a sexta-feira, as projeções marcadas para as 17h15 e 19 horas custam 2€.

O passe para todas as sessões fica por 15€. Os bilhetes estão disponíveis através da BOL, nas lojas associadas e, nos dias das projeções, no Teatro Municipal do Barreiro a partir de 30 minutos antes do início. A classificação geral é M/12, com algumas exceções indicadas individualmente.

Programa do Sonica Ekrano 2026

Todas as sessões decorrem no Teatro Municipal do Barreiro, no Centro Comercial Pirâmides, Rua Combatentes da Grande Guerra, 42A.

Sexta-feira, 11 de setembro

21h30 — “Butthole Surfers: The Hole Truth and Nothing Butt”, Tom Stern — 3,50€

Sábado, 12 de setembro

16h30 — Sessão de curtas 1: “Le Mystère Satie”, Bastien Loukia + “Ressonàncies (d’una música callada)”, Xavier Esteban — 3,50€

18h15 — Sessão de curtas 2: “Rua (Isto Não É Um Filme, É Um Cometa)”, Bigos Campaniço e Nuno Calado + “Space Festival — Um Documentário Experimental e Improvisado”, Nuno Alves — 3,50€

21h30 — “The Magic City: Birmingham According to Sun Ra”, Pablo Guarise e Guillaume Maupin — 3,50€

Domingo, 13 de setembro

16h30 — “Nteregu”, Manuel Loureiro e Roger Mor — 3,50€

18h30 — “Punk Under Communist Regime”, Andrej Kosak — 3,50€

21h30 — “You Fuckers Figure It Out: A Jason Molina Story”, Tommy Nickoloff — 3,50€

Segunda-feira, 14 de setembro

19h00 — Sessão de curtas 3: “Long Live the Dead!”, Sofie Hanegreefs e Kris Pannecoucke + “Il Soffio dell’Anima”, Luzia Johow — 2€

21h30 — “Sound Dreams of Istanbul”, Anıl Eraslan — 3,50€

Terça-feira, 15 de setembro

19h00 — “HEX”, Maja Holland — 2€

21h30 — “Celtic Utopia”, Dennis Harvey e Lars Lovén — 3,50€

Quarta-feira, 16 de setembro

17h15 — “The Best Summer”, Tamra Davis — 2€

19h00 — “You Fuckers Figure It Out: A Jason Molina Story” — 2€

21h30 — “HEX” — 3,50€

Quinta-feira, 17 de setembro

17h15 — “The Magic City: Birmingham According to Sun Ra” — 2€

19h00 — Sessão de curtas 4: “Wisisi Nit Meke”, Arief Budiman, Bonny Lanny e Harun Rumbarar + “Sound System Sanskriti”, Roy Dipankar e Dakta Dub + “Null Adjustments”, Andrew Northrop — 2€

21h30 — “The Best Summer” — 3,50€

Sexta-feira, 18 de setembro

17h15 — “Celtic Utopia” — 2€

19h00 — “Sound Dreams of Istanbul” — 2€

21h30 — “O Menino D’Olho D’Água”, Lírio Ferreira e Carolina Sá — 3,50€

Sábado, 19 de setembro

16h30 — “The Blind Couple From Mali”, Ryan Marley — 3,50€

18h30 — “Complô”, João Miller Guerra, precedido da apresentação de “Ka Muri: Conversas sobre Rap Crioulo em Portugal” — 3,50€

21h30 — “Mogwai: If the Stars Had a Sound”, Antony Crook — 3,50€

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