Dar aulas de dança, ensaiar uma peça de teatro ou preparar um concerto costuma começar pelo mesmo problema: encontrar uma sala e conseguir pagar a renda. O Espaço Livre, no Barreiro, decidiu retirar essa despesa da equação e abriu um casting para um novo Programa de Artistas Residentes, dirigido a profissionais e projectos das áreas da música, dança, teatro e cinema.
A proposta permite utilizar gratuitamente o espaço para aulas, ensaios ou workshops. Cada artista mantém a totalidade da receita gerada pelas próprias atividades, gere os alunos com autonomia e decide os preços e a metodologia de trabalho. Em troca, terá de integrar a programação da casa com um espetáculo, showcase ou apresentação artística por mês.
Na prática, um professor de dança poderá usar o local para dar aulas regulares e definir quanto cobra aos participantes; uma companhia de teatro ganha uma sala onde preparar uma criação; músicos podem ensaiar ou organizar workshops e profissionais ligados ao cinema encontram um ponto de encontro para formação, exibição ou desenvolvimento de projetos. A contrapartida mensal aproxima esse trabalho do público e alimenta a agenda cultural do espaço.
As candidaturas são feitas através do formulário disponível nas redes sociais do Espaço Livre. Os interessados devem também apresentar o seu portefólio. O anúncio divulgado pela organização ainda não indica um prazo final, o número de artistas que serão escolhidos ou a duração de cada residência.
O programa concretiza uma ideia anunciada antes da abertura do espaço, quando Lia Carvalho explicou à New in Barreiro que pretendia transformar o local num ecossistema para criadores.
Nessa altura, a responsável já admitia disponibilizar a sala a bandas que precisassem de ensaiar, associando essa cedência à possibilidade de apresentarem o trabalho ao vivo. A intenção passava por criar oportunidades para artistas que produzem longe dos palcos e enfrentam dificuldades para financiar salas, equipamentos e apresentações.

O Espaço Livre nasceu na antiga taberna O Papagaio, um dos espaços mais reconhecidos da Rua Almirante Reis. O estabelecimento encerrou em 2023, depois de décadas ligado ao senhor Zé e à dona Maria, e reabriu em Novembro de 2025 com um novo nome, mas conservando vários elementos da casa original, como o balcão, o sino, os candeeiros e as portas.
A programação imaginada para esta nova fase juntava música, dança, teatro, ioga, rodas de samba, fado, workshops e encontros informais. Lia Carvalho, jurista, bailarina e produtora de eventos, defendia uma casa capaz de dar palco a artistas com pouca visibilidade e de criar condições para que o seu trabalho fosse apresentado e remunerado.
O programa de residências avança agora por esse caminho, mas com uma diferença importante: além do palco, oferece o espaço de trabalho que muitas vezes falta antes de um espetáculo conseguir existir.
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