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As Cantadeiras do Barreiro são 17, cantam o Alentejo e já chegaram à televisão

Balbina Lança faz parte do grupo de mulheres quem mantém vivo o cante alentejano. Já têm presença garantida na Festa do Avante.

Quando era adolescente e trabalhava no campo, no Alentejo, Balbina Lança já tinha uma função que não vinha escrita em nenhum contrato. As outras mulheres pediam-lhe músicas e ela cantava. Conhecia muitas de memória, gostava de festas e não precisava de palco para usar a voz.

Veio depois o trabalho numa fábrica, voluntariado, a mudança para o Barreiro e, mais tarde, a reforma, que nunca significou ficar quieta. Ainda hoje mantém uma pequena loja e continua a repetir que não tem “paciência para estar em casa”. Em abril deste ano, aquela rapariga que cantava durante o trabalho agrícola apareceu na SIC com as Cantadeiras do Barreiro.

“Cantava muito mesmo no campo. Fazia discos pedidos, elas pediam músicas e eu cantava. Sabia todas”, recorda à New in Barreiro. Aos 74 anos, a presidente do Grupo Coral Alentejano As Cantadeiras do Barreiro continua a falar de música com a naturalidade de quem nunca a separou do resto da vida. “Sempre gostei muito de cantar, sou uma pessoa divertida, gosto de festas. Parar é morrer.”

Foi também essa dificuldade em parar que a levou às Cantadeiras. O grupo nasceu em 2015, a partir de mulheres ligadas ao universo do cante alentejano e a famílias que já participavam noutros grupos corais do concelho, entre eles Os Amigos do Barreiro. Balbina entrou pouco depois da formação inicial e encontrou ali uma forma de continuar ligada a uma cultura que trazia consigo muito antes de chegar à margem sul.

“Foi através dos maridos de algumas pessoas, que são dos Amigos do Barreiro, que começámos a formar o nosso grupo”, conta. A associação atravessou a primeira década de vida e reúne atualmente 17 mulheres, que se encontram todas as quintas-feiras para ensaiar.

O repertório mantém-se ligado ao cante alentejano, tradição que em 2014 entrou na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. No Barreiro, porém, este património tem uma história muito concreta. A chegada de milhares de trabalhadores vindos do Alentejo ao longo do século XX trouxe modas, grupos corais, associações e formas de convívio que permaneceram mesmo quando o campo ficou a muitos quilómetros de distância.

Balbina conheceu esse repertório antes de qualquer reconhecimento institucional. “Sempre gostei muito destas coisas. Hoje, o grupo é uma das minhas alegrias. Vamos a muitos sítios e queremos ir a mais”, diz. Quando fala do percurso profissional, a resposta sai aos pedaços porque houve demasiadas ocupações para caberem numa apresentação simples. Passou pelo campo, por uma fábrica, fez voluntariado e teve outros trabalhos até chegar à pequena loja que ainda mantém.

A música acompanhou tudo isso, sem nunca se transformar numa profissão. Foi preciso chegar aos 74 anos para a levar a um estúdio de televisão.

O auge do grupo ocorreu em abril deste ano. As Cantadeiras participaram no programa “Casa Feliz”, da SIC. A atuação acabou por lhes dar uma visibilidade diferente daquela conseguida ao longo dos anos em encontros corais, festas populares e iniciativas associativas. A presidente não romantiza demasiado o momento. Prefere pensar no que pode acontecer a seguir. “Divulguem o nosso trabalho para aparecerem muitos convites para apresentações”, pediu à New in Barreiro.

O pedido resume uma das preocupações atuais da associação. As Cantadeiras querem atuar, circular e encontrar novos públicos, seja no Barreiro ou fora do concelho. Os contactos são tratados pela direção e por Daniela Lucas, secretária do grupo, que aos 24 anos ocupa um lugar curioso nesta história: entre ela e Balbina existe meio século de diferença. Daniela também canta no grupo é a mais jovem, garantindo que a tradição está garantida.

Nasceu no Barreiro e chegou ao cante pela avó, que cantava modas alentejanas. Foi-lhe perguntar onde poderia encontrar um grupo e acabou nas Cantadeiras. Algum tempo depois, começou a ajudar na parte menos tradicional da vida de uma associação coral: e-mails, contatos, Instagram e divulgação.

“Desde que criámos as redes sociais, noto que há uma evolução do grupo e que os convites são cada vez mais”, explica Daniela. A página passou a concentrar vídeos, fotografias e informações sobre as atuações e tornou-se uma forma de chegar a pessoas que dificilmente encontrariam as Cantadeiras num encontro de grupos corais.

O efeito já se sente na agenda. Daniela considera 2026 um ano particularmente bom para a associação. A participação na televisão juntou-se a outras atuações e o grupo tem já presença prevista na Festa do Avante, em setembro. Este ano trouxe ainda uma situação pouco habitual no percurso das Cantadeiras: pela primeira vez, segundo a secretária, receberam pagamento por uma atuação exclusivamente sua.

Durante muito tempo, grande parte das apresentações nasceu da lógica tradicional dos grupos corais, com convites, encontros e intercâmbios entre associações. A possibilidade de chegar a outros eventos não altera o caráter do grupo, mas pode abrir novas oportunidades para quem ensaia semanalmente e mantém a associação ativa durante todo o ano.

Também não é obrigatório ter nascido no Alentejo para entrar. Muitas das mulheres carregam essa origem diretamente, outras herdaram-na através da família. Daniela é um exemplo dessa passagem entre gerações. Cresceu no Barreiro, ouviu falar do cante através da avó e acabou por se tornar a mais nova de um grupo onde convivem mulheres com percursos e idades muito diferentes.

Quem quiser experimentar, pode contactar a associação e aproximar-se dos ensaios. Balbina fala dessa abertura sem grandes formalidades, da mesma forma que descreve o nascimento do grupo: “alguém conhece alguém, aparece, ouve, experimenta e, se fizer sentido, fica e canta.”

Entre ensaios e atuações há também uma parte visual que acompanha as Cantadeiras. Os trajes recuperam elementos associados à roupa tradicional das mulheres alentejanas, com saias, aventais, lenços e padrões que ajudam a situar o repertório mesmo antes de começar a primeira moda. Quando entram num desfile ou sobem a palco, o grupo transporta para o Barreiro uma memória que não depende apenas das letras.

Balbina transporta a sua de outra maneira. Quando canta, não precisa de imaginar completamente o cenário descrito nas modas. Trabalhou lá, ouviu aquelas músicas e cantou-as quando ainda não existiam associação, ensaios, redes sociais ou câmaras de televisão à espera.

A vida levou-a por muitos trabalhos até ao Barreiro, mas nunca conseguiu convencê-la a ficar quieta. Agora dirige uma associação, aparece nos ensaios de quinta-feira, continua à frente da loja e aceita os convites que vão surgindo. Se depender dela, serão cada vez mais. “Eu gosto é de andar”, diz. Aos 74 anos, continua a fazê-lo a cantar.

Para entrar no grupo ou convidar para apresentações, podem contactar através do Instagram ou Facebook das Cantadeiras do Barreiro.

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