cultura

Artistas de cinco países chegam a Palhais para criar obras a partir do Barreiro

Portugueses, gregos, neerlandeses, britânicos e croatas vão criar peças inspiradas na paisagem e na memória local.

Palhais vai receber, durante uma semana, artistas que chegam ao Barreiro sem uma obra pronta na bagagem. A Quimera II acontece entre 12 e 18 de julho e junta artistas nacionais e internacionais numa residência profissional que parte de uma proposta muito concreta: olhar para o território, ouvir quem vive nele, perceber as suas memórias, caminhar pela paisagem e transformar esse encontro em criação artística. Entre os artistas participantes estão criadores com ligações ao Royal College of Art, em Londres, projetos apresentados em Seattle, EUA, e percursos na Grécia, Croácia, Países Baixos, Reino Unido e Alemanha.

O projeto passa primeiro por Lisboa, na Procur.arte, entre 9 e 11 de julho, e segue depois para Palhais, onde ficará instalado no espaço da Quinta Duarte Pacheco, onde funciona a Liber.arte. A associação trabalha ao longo do ano com miúdos e jovens, antes e depois da escola, e preparou áreas de criação para receber os artistas, entre oficinas, cerâmica, carpintaria, reciclagem, ferramentas, pincéis, aguarelas, berbequins, chaves de fendas e materiais que podem acabar dentro das obras.

A lista apresentada pela organização reúne artistas portugueses, gregos, neerlandeses, britânicos e croatas, além do A+B Artist Duo, formado por Albert van Loon e Beatrice Peter. As práticas são tão diferentes como os percursos: pintura, cerâmica, joalharia contemporânea, escultura, desenho, instalação, vídeo, som, performance, fotografia, materiais naturais, objetos encontrados e obras criadas a partir de conversas com as comunidades. O mote da Quimera II, “Redesenhar o lugar para transformar o mundo”, não aparece apenas como frase de cartaz. Durante sete dias, o Barreiro será matéria de trabalho.

O momento final será aberto ao público e acontece integrado no Mercadinho da Liber.arte, uma tradição da associação com mais de 20 anos. Normalmente, é nesse encontro que miúdos e jovens apresentam e comercializam os trabalhos criados ao longo do ano nas oficinas. Em 2026, o evento ocorre a 18 de julho e ganha outra camada: junta o trabalho anual dos alunos da Liber.arte às obras criadas pelos artistas da Quimera II durante a semana de residência.

Quem passar pelo Mercadinho vai encontrar duas exposições a acontecer no mesmo lugar. De um lado, o percurso de miúdos e jovens que trabalham ali ao longo do ano. Do outro, o que artistas vindos de diferentes países conseguiram retirar de uma semana em contacto com Palhais, o Barreiro, a natureza, a memória local e as pessoas que aceitaram entrar neste processo.

A residência é concebida pela Velaturas Projectos Artísticos e realizada em parceria com a Liber.arte, com direção artística do pintor Paulo Robalo. O projeto conta ainda com o apoio da Câmara Municipal do Barreiro, da ADAO — Associação para o Desenvolvimento das Artes e Ofícios — e da Cooperativa Mula, responsável pela alimentação dos participantes.

 

 
 
 
 
 
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Quem são os artistas que chegam a Palhais

O A+B Artist Duo, formado por Albert van Loon e Beatrice Peter, trabalha em colaboração desde 2012 e cruza objetos, instalação, animação, projetos interativos e performance. A dupla usa frequentemente materiais readymade e em segunda mão para questionar o que vemos, aceitamos ou normalizamos. Embora o trabalho seja sobretudo tridimensional, chegam a Palhais com outro desafio: pintar a partir do território. A expectativa foi deixada numa frase curta, com humor e disponibilidade: “We come in peace!”.

Froso Papadimitriou é uma artista grega, nascida em Tessalónica e baseada em Londres. O seu trabalho passa pela instalação, escultura, pintura e desenho, sempre com investigação e contacto direto com lugares e comunidades. Por cá, quer conhecer “as pessoas de Palhais e do Barreiro, os seus costumes e quotidianos” e deixar que esse encontro inspire uma obra sobre o que une esta comunidade e a torna única.

Rick Kup e Tatum Kempers formam uma dupla neerlandesa que trabalha entre desenho, vídeo, som, fotografia, escultura têxtil e instalação. Em 2025, criaram em Aldeia de Ana de Aviz a instalação site-specific “Você já comeu? / Have you eaten yet?”, uma obra de nove metros feita a partir de pessoas, conversas, histórias e relações encontradas no território. No Barreiro, esperam “conhecer pessoas, partilhar histórias e descobrir o que pode nascer da curiosidade, dos encontros inesperados e de novas ligações”.

Kate Studley é uma artista britânica baseada na Alemanha e trabalha com instalações feitas a partir de materiais naturais e biodegradáveis. A sua prática observa o tempo, a transformação e a forma como os lugares mudam lentamente. Em Palhais, espera “explorar a paisagem” e compreender como ela influenciou “as narrativas e os diálogos das pessoas que ali vivem”.

Iris Poljan é uma artista visual croata baseada em Zagreb. Trabalha entre desenho, pintura e mixed media, com uma prática centrada nas pessoas, na comunicação e na memória. A expectativa apresentada para a semana no Barreiro aproxima desenho, colagem, pintura e educação artística de perguntas sobre “vida em sociedade, comunicação e relação humana”.

Rui Madeira é artista plástico e ceramista do Barreiro, com cerca de 40 anos de trabalho em peças realizadas na roda de oleiro. A sua prática cruza técnicas manuais com tecnologia de alta temperatura, cozeduras acima dos 1200 graus, materiais de acabamento e vidrados produzidos pelo próprio. Com atelier em Alhos Vedros, também ensina olaria e cerâmica a crianças e jovens, incluindo no Atelier d’Artes, em Palhais.

Susana Gorjão é artista e joalheira portuguesa, com trabalho entre joalharia contemporânea, escultura e investigação artística. Desde 2000, desenvolve trabalho independente em atelier, transformando metais, minerais, fragmentos e objetos em peças que ficam entre joia, escultura e instalação. O dossier apresenta o seu trabalho com uma frase particularmente certeira: “a matéria não ilustra a memória: torna-se memória.”

Beatriz Lança Gomes é natural do Barreiro e iniciou o percurso na Escola Artística António Arroio, onde se especializou em Cerâmica. Concluiu em 2026 a licenciatura em Artes Plásticas na ESAD.CR e dá aulas de cerâmica para crianças há dois anos. A sua prática cruza cerâmica, metal, costura, instalação, performance, vídeo e fotografia, partindo de memória, infância, nostalgia e identidade.

Paulo Robalo, diretor artístico da Quimera II, é pintor, cenógrafo e docente. Licenciado em Pintura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, tem um percurso ligado às artes visuais, cenografia, instalação, performance e pedagogia artística. Participou como cenógrafo em eventos como Lisboa Capital da Cultura 94, Expo 98, Gymnaestrada 2003 e Rock in Rio. Atualmente, é docente na Escola Artística António Arroio e na World Academy, e desenvolve, com Francisca Mesquita, a Velaturas Projectos Artísticos Internacionais.

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